When I’m sixty-four

Felizmente não sinto mais medo de terminar os meus dias como o mendigo aí da capa do meu livro...
Felizmente não sinto mais medo de terminar os meus dias como o mendigo aí da capa do meu livro…

— Quantos anos tem o sô Alan? — perguntou a Ivete em nossa reunião matinal da última quinta.

— Vai fazer 69 em fevereiro, por quê?

— Parece mais, parece 70. A senhora então é mais velha que ele?

— Como assim, Ivete? Eu pareço ter mais de 70?

— Não… quantos anos a senhora tem?

— Vou fazer 61 neste domingo.

— Ah, é, parece menos de 60…

Pois é. Calhou de este domingo, dia de crônica, ser meu aniversário de 61 anos (e também o dia da semana em que nasci, oba), mesma idade que minha mãe tinha quando perdeu a dela, só que dormindo, saudável, tranquila, na própria cama. Quisera eu.

E por que falar sobre isso agora?

Dia de aniversário não é dia bom pra falar sobre morte, pois é, a não ser mais ou menos na nossa idade ou a partir dela, quando se pode partir a qualquer momento, sem aviso, como, aliás, aconteceu na semana passada com a mãe de um amigo que eu nem conhecia. Ficou o alerta: carpe diem, não se apoquente com nada e estamos conversados, mas voltando a mamãe, vocês já vão entender.

Neste domingo é meu, Meu, MEU aniversário, pela primeira vez na vida. Todos os outros 60 foram compartilhados, não que isso me aborrecesse em nada, nada disso, mas muitas vezes me levou a abrir mão de meus próprios compromissos, pois era aniversário de mamãe também, até mesmo por um tempo de minha sogra, hoje ex, é muita mulher para um só janeiro, vamos combinar.

Mas ficou a saudade. Não sei se acharei alguma graça na solidão da exclusividade. A verdade é que me acostumei a não dar muita bola para o meu aniversário, sempre nas férias quando eu era menina — e no Rio, ainda por cima, feriado —, todo mundo viajando, e depois de adulta, mamãe tendo mantido a prioridade, pelo menos nas reuniões de família, eu sempre ia ao aniversário dela, ela nunca vinha ao meu, sabem como é. Era do tipo que tinha que ser visitada, festejada, reverenciada, embora sob a fachada sofrida da mãe judia habitual, aquela que quer sempre tudo, mas nunca precisa de nada, ops. Deixa em paz minha memória de mãe, que não é mais, depois de quase um ano de ela falecida, um pote até aqui de mágoa. Ainda bem.

Estou fazendo 61 e adiando para nunca mais a aposentadoria na Ilha de Wight. Nunca trabalhei tanto, sinceramente, e está tendendo a piorar. Faz apenas três anos que finalmente comecei a amadurecer, isso, só depois que fui obrigada a trabalhar para viver, deu pra entender? Antes era aquela coisa de que o dinheiro é uma ofensa para o artista, um pecado para o curador esoterista, verdade, passei boa parte da vida envolvida com esse tipo de limitação espiritualista, não nasci increia, ui, como vocês se acostumaram a me ler. Isso só aconteceu quando…

Pois é. Nem sei como isso foi acontecer, mas o certo é que depois de sofrer bastante, quase ser esmagada por um trauma limitante, acabei adotando o ponto de vista acachapante da velha família que tinha feito de tudo para me demover das crendices que eu mantinha. Ufa. Tudo a seu tempo, e nada como a marcha inevitável do tempo para pôr juízo numa mente diletante, é o que eu penso e digo para quem não quer me ouvir, pois, ironia das ironias, estou vivendo uma situação semelhante, sendo que agora a bruxa repressora tentando dar um basta na mente de um filho, pasmem, sou eu.

Andei confessando ultimamente que, com todo o vazio pela falta de um apoio divino, e graças ao tardio milagre da simples competência — desculpem-me a falta de modéstia —, sinto-me bem melhor comigo mesma aos 60 do que aos 30. Mal acreditei ao ver-me punk na fita, digo, na foto, que um amigo publicou esta semana no Facebook. Imaginem.

E pela primeira vez na vida um simples formulário de cadastro não me joga num dilema mortal, digno da minha pregressa esquizofrenia profissional — comerciante, xamã, joalheira, artista… you name it, já fiz muita coisa, pois é —, um ataque de nervos visceral ao preencher o campo “profissão”, vocês me entendem. Até escrevi um livro  de crônicas inteiro sobre isso, 266 — não é o número do apocalipse como pode parecer, apenas o código da Receita Federal para o que se tornou minha salvação individual: escrever.

Taí. Esta sim, sou eu, autora e editora digital, sem preconceito, por favor. Afinal de contas, a mídia escolhida não está aí para rotular ninguém, e daqui da minha casa no mato, ainda bem, tenho um mundo inteiro pra chamar de meu. Ah, e muito amor também, claro, faz parte, aliás, a maior parte: com todas as dúvidas e discussões, continuo alimentando o (ego do) Alan bem além dos temidos sixty-four — o dia dele é daqui a 15, imaginem, sou seu “inferno astral”, e ele, minha “redenção total”, obrigada por tudo, chéri.

E um feliz meu domingo de aniversário procês!

 

***

 

P.S., P.M. (post-scriptum, post-mortem): Quando eu terminava de escrever a crônica (ontem, claro, ou vocês pensavam que eu ia trabalhar no dia do meu aniversário?), li sobre a morte de Walmor Chagas, aos 82, por provável suicídio. Segundo o jornal, o ator era dado ao recolhimento e… bem, deixa pra lá que os 80 estão longe ainda. Mas como eu estava citando a minha falta de fé e apoio divino, não poderia deixar de contar pra vocês uma admirável sequência de coincidências que se seguiu à leitura sobre a morte de Walmor: lembrei que o tinha citado em uma crônica, e depois de procurar muito acabei localizando-a no Sem essa, aranha, no obituário de Sérgio Britto. Os dois eram muito amigos, e por conta disso, uma vez, nos anos 1990, quando eu passava uma temporada entre apartamentos em casa de mamãe, de quem o Sérgio era vizinho, o Walmor me ligou, mas essa história eu já contei. O caso é que quando consultei o livro para citar a passagem no Facebook, descobri que estava com a data errada, juro, em vez de 17/12/2011 estava 17/12/2012, e mais, quando abri o arquivo da versão papel para corrigi-lo, abriu direto na página 234, é ou não é de arrepiar? Obrigada, Walmor, obrigada por tudo: sua beleza, seu talento e sua presença em nossas vidas. Tchau.

 

 

4 comentários em “When I’m sixty-four

  • 20/01/2013 em 15:15
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    Somos seres frágeis, vivemos movidos pela esperança, atrapados numa armadilha temporal. Acredito que não poderíamos suportar a eternidade, perseguimos a nos mesmos… o pior que poderia acontecer é nos encontrar finalmente numa curva da vida!

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  • 20/01/2013 em 12:21
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    Parabéns, Noga! Aniversário é uma data de renovação de energias.
    Tem gente que diz que é o dia em que você faz anos.
    Para mim “fazer anos” é bobagem. A idade é só um número: envelhecimento não tem dia certo para dar as caras .
    Mas “Dia de aniversário” é tudo de bom. Adoro! Aproveite! Bjs

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  • 20/01/2013 em 11:36
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    Como sempre, suas crônicas são excelentes.

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