Vôo 1211


O aeroporto de Brasília é para mim um lugar de exploração mental. As pessoas que por ali circulam nos fazem pensar sobre suas origens e destinos. Lembro-me sempre daquele filme “Guerra nas Estrelas” onde havia um bar em que criaturas de toda a galáxia, de todas as cores do arco-íris e formatos mais incríveis — me chamava a atenção uma fêmea de três lindos seios — se reuniam para tomar um drink em perfeita harmonia.

Executivos de pasta proliferam ali com seus respectivos aparelhos celulares pregados à orelha, alguns gritando ordens de longe, outros mostrando em suas fisionomias que as coisas não estão saindo de acordo com suas expectativas. Políticos a granel, todos vestidos de ternos muito bem talhados, parecem estranhos como o mestre-sala e a porta-bandeira de escolas de samba com roupas do tempo do império.

Hoje se observa também pessoas de origem muito simples, principalmente mais velhas. Têm uma aparência meio assustada, pois a locomoção em avião não lhes parece muito familiar, e também estão de posse do celular mas com dificuldade para se comunicar, em altos brados, como se a pessoa do outro lado “da linha” estivesse com problemas na recepção.  O celular, creio, já é hoje o objeto de desejo de todo brasileiro, mas o mais interessante é ver que as roupas que usam frequentemente não estão de acordo com seus tipos físicos. Isso, para mim que durante muitos anos trabalhei no ramo da moda, dá tratos à bola. Neste fim de semana em que lá estive pude observar que ao lado de uma linda moça loura, bem alta e muito bem vestida, no grito da moda, com uma saia longa de linho na cor cru (para os homens um branco meio encardido) e uma sandália de plataforma que a deixava pelo menos uns quinze centímetros mais alta, havia uma outra muito morena, de um tipo meio índio, com cabelos negros e lisos, mas muito armados, de sandália rasteira e com uma saia jeans tão curta que serviria talvez de cinto para a primeira. Era gorduchinha e parecia ter caído de pé de uma grande altura tendo ficado achatada, me lembrei daquela canequinha cantada pelo Simonal, o MUG (somente os da melhor idade vão me entender). Estava acompanhada pela filha adolescente que seguia par e passo o estilo da mãe. Coitadinha. Seu tipo físico pediria outro gênero completamente diferente de indumentária, algo que lhe valorizasse a bonita cor de jambo e lhe alongasse a silhueta. Precisaria também domar as melenas.

O vôo atrasou, é claro, e depois de ler alguns capítulos do ebook em meu tablet, não tive alternativa a não ser continuar a analisar as pessoas.

Agora, justamente ao contrário, vi uma moreninha com um terno muito bem talhado, de acordo com seu tipo físico e com a atividade que estava exercendo, pois parecia estar a trabalho. Os cabelos presos na nuca lhe conferiam uma aparência elegante. A maquiagem leve lhe realçava a cor.

Fico sempre dando tratos à bola e criando histórias para vida de cada um. O que as estaria levando para tão longe dali? Jovens casais se abraçando, torturados por uma saudade que já pressentem, se demoram em carícias e o choro rola solto. Mães atormentadas pelas crianças que, impacientes, também choram, outras correndo e fazendo alarido. As observações dariam matéria para muitas outras crônicas, mas para não entediar o leitor, vou ficando por aqui.

Essa atividade me ajudou sobremaneira a passar o tempo em que fui obrigada a tolerar a falta de organização da companhia aérea e as deficiências do aeroporto da Capital do Brasil.

 

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

5 comentários em “Vôo 1211

  • 10/12/2011 em 10:57
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    Muito boa a comparação com o bar de Guerra na Estrelas, que se o resto do filme já é uma obra prima, o bar sempre me chamou a atenção. Point das galaxias. Aeroporto lotado com voos atrasados é teste de paciência. A leitura logo enjoa, mesmo a melhor delas, diante do desfile ao vivo que vai se desencadeando. Adorei a crônica, tamanho ideal, reflexões idem. Bjs

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  • 10/12/2011 em 08:12
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    Olhar de escritora é surpreendente. Mas é mesmo um exercicio mental gratificante ! Nos ensina, traz evoluçoes, conhecimentos..espanta o “alemão”….Meu olhar sempre é mais de fotógrafa, profissao que exerci por 20 anos : vejo cores, perspectivas, sombras e reflexos. No fundo, seu olhar literário tambem envolve imagens. Nao vou a Brasilia há muitos anos. Acho que minha critica seria mais destrutiva: engravatados me enjoam…Only businness me incomoda… E, se chegasse mais perto e ouvisse as conversas…com certeza iria passar mal, do estomago…e da consciencia! beijao Priscila.

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  • 09/12/2011 em 12:37
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    Olá Priscila.
    Muito boa a descrição do aeroporto. Faz tempo que não vou a Brasília, mas acho que não mudou muito! É muito interessante observar as pessoas em aeroporto. E você tem um olho “clínico” muito bom. Parabéns.
    beijo grande

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