Vó Nena

por Beatriz Moreira Lima

 

Aos 103 anos e meio, D. Nena, finalmente, partiu.

Nunca foi uma doce velhinha, daquelas de cabelo cor-de-rosa que a gente vê andando pelas ruas de Copacabana. D. Nena sempre foi forte. E sua força se manifestava nos cabelos, que teimavam em não embranquecer. Acho que só depois dos 100 anos é que realmente ficou com a cabeça branca. Seu corpo também era forte. Uma saúde de ferro, coisas de mineira criada comendo banha de porco, linguiça, torresmo e feijão. E bebendo. Minha avó contrariava completamente aquelas matérias de programas de televisão sobre longevidade, em que velhinhos simpáticos e franzinos dão a receita para atingir os 100 anos: alimentação balanceada, atividade física e muito bom humor, nada de estresse ou mágoas. D. Nena encarava uma feijoada completa com uma cachacinha, enquanto remoía uma mágoa de 70 anos atrás como se fosse de ontem.

Era muito brava. Nos dois sentidos. Intrépida e corajosa, foi das poucas mulheres que se aventuraram a mudar para Brasília, na primeira hora, acompanhando os maridos políticos. E uma vez lá, não se fez de rogada, trabalhou duro, cuidando da casa e preparando comida, não só para o meu avô, como para todos os seus colegas, cujas esposas tinham recusado a mudança para a nova capital.

Dirigiu até mais de 80 anos de idade. Perigosamente, é verdade. Mas sua Variant verde era um brinco. Tinha uma indefectível flanela laranja presa no cinzeiro (jamais utilizado pela famosa antitabagista), de forma a esconder o toca-fitas dos ladrões. Toca-fitas que, aliás, nunca foi visto em funcionamento…

Depois dos 80 anos, quando a convenceram a se desfazer do automóvel, que àquela altura só servia para exercer a posse da melhor vaga da garagem, defendida com unhas e dentes dos vizinhos que alegavam não haver vaga demarcada no prédio, insistia em andar de ônibus. Quando ia almoçar na casa de meu tio, em Ipanema, tomava o ônibus, escondida. Até que um dia foi assaltada. O rapaz queria levar as grossas alianças, dela e de meu avô, que usava, juntas, na mão esquerda. Contava, orgulhosa, que reagira e se recusara terminantemente a entregar os anéis. Afinal, era viúva e eles tinham um enorme valor sentimental. Depois acrescentava, com certo desdém, que o assaltante levara os pertences do casal à sua frente e “o velho” nada fizera. Daí em diante, resignou-se a ir de Copacabana até a Aníbal de Mendonça a pé, de saltinho alto…

Mas sua braveza não era só valentia. D. Nena tinha um temperamento “difícil”: autoritário, tempestuoso, repressor… Todos temiam contrariá-la. Eu fumava escondida dela, inclusive na época em que morei em sua casa. Certa vez, não aguentando mais de vontade, resolvi aproveitar que ela estava entretida com a novela, no escritório, para fumar debruçada na janela do meu quarto, no cômodo ao lado. A fumaça deve ter saído pela janela do quarto e entrado pela do escritório, porque logo ela veio perguntar, em tom acusatório, que cheiro de cigarro era aquele… E eu, fazendo cara de paisagem, cheguei a concordar que, realmente, estava sentindo um estranho cheiro de cigarro… Repeti a atitude de minha mãe que, menina pequena, vendo o odiado vestido de laçarotes separado em cima da cama, num surto de rebeldia, atirou-o pela janela e depois se pôs a ajudar minha avó a procurá-lo… Teve menos sorte do que eu, pois o porteiro devolveu o vestido e minha avó ficou furiosa com o fingimento…

Se no temperamento não seguia a cartilha da “vida saudável”, no quesito atividade física nunca deixou a desejar. Na juventude, consta que jogava vôlei. Baixinha (segundo dizia, porque, na adolescência, ficou sem comer carne vermelha durante um ano, por nojo de ver os homens do açougue perto de sua casa carregando as peças sangrentas nas costas), caminhava com uma rapidez surpreendente. Peguei o ritmo com ela, quando tinha ainda as pernas curtas, de menina pré-adolescente, e, agora, que o mantenho com minhas pernas compridas, pouca gente consegue me acompanhar sem esforço e, principalmente, sem reclamação. Na água, já não apresentava tanta desenvoltura quanto em terra firme. Assim mesmo, desenvolveu um estilo único na natação: o crawl de marcha a ré, que praticava em sua piscina no sítio de Teresópolis.

As lembranças de vó Nena são abundantes. Foi uma avó muito presente, sempre feliz em nos acolher em sua casa: para comer, para dormir, para brincar. E, se com os filhos impunha uma disciplina espartana, com os netos amoleceu… Dedeia e eu fazíamos cabanas dentro do armário e bagunçávamos à vontade. Os bisnetos ela chegou a deixar que jogassem bola dentro de casa, coisa que certamente meu tio sequer sonhava em fazer.

A comida da casa da vovó era um capítulo à parte. Afinal, o maior prazer de D. Nena sempre foi nos encher de comida. E comer, também, é claro, porque era gulosa demais. Então caprichava no cardápio e tinha algumas especialidades, que extrapolaram os limites familiares e foram se instalar também na memória gustativa de nossos amigos. Dentre elas, destacavam-se a mousse de chocolate (feita com chocolate amargo da Kopenhagen), a torta de morango e o rosbife de filé-mignon, este último executado, em alta temperatura, na cozinha tomada de fumaça e gordura, por Raimunda, especialista em frituras e outras comidas de altíssimo teor calórico.

Isso, sem falar na linguiça mineira, que os parentes de Belo Horizonte sempre traziam, no torresmo, no feijão, na berinjela frita, no cuscus paulista, no pudim renversè, e em todo tipo de comida pesada que deixaria os repórteres de programas sobre longevidade de cabelo em pé. D. Nena comia de tudo, principalmente se tivesse uma bebidinha para acompanhar. Aos que viajavam, sempre encomendava uma caixa de Tanqueray, seu gim favorito, cujo nome sempre confundia com o do Renitec, seu remédio para pressão… Também tomava chope, cerveja, vinho, licor, uísque e, ultimamente, apreciava bastante uma caipirinha de caju preparada por tia Ana Lucia…

E assim chegou aos 103 anos e meio (acho que antes dos 10 e depois dos 100, é válido contar os semestres), ainda com lampejos de lucidez que a levaram a pedir acarajé à nutricionista do Hospital Samaritano. Corremos para providenciar os bolinhos. Afinal, ela estava há dias sem comer, parecia não conseguir engolir. Mas o acarajé com vatapá ela mastigou e engoliu, causando sensação no andar inteiro, pelo qual o cheiro do quitute se espalhou.

Que Deus a tenha!

 

 

 

Beatriz Moreira Lima nasceu em 1970, no Rio de Janeiro. Formada em Direito, exerceu a advocacia por um breve período e há dez anos trabalha como funcionária do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Mora com seu filho no Jardim Botânico. Pela KBR, publicou o bem-sucedido Tempos Férteis.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Vó Nena

  • 06/07/2012 em 20:49
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    Uma Vó materializa o conceito de família…
    De nossos ancestrais… Os que nos deram a graça da Vida!
    Tenho saudades dos Meus também!

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