Violento, eu?

Nascer tipo armário dois por dois é um carma.  Não adianta ser inteligente, espirituoso ou prestativo.  O tamanho representa para os homens o que a beleza representa para as mulheres: ninguém quer saber o que elas estão pensando, o que interessa mesmo é a embalagem.

Não vou negar que gosto de me ver no espelho.  Imponho respeito.  As pessoas esperam que eu me garanta em qualquer situação, mas não é bem assim: é preciso ter senso de responsabilidade.  Se eu reagisse a qualquer provocação, podia acabar matando alguém só com um soco.  Como poderia conviver o resto da minha vida com essa culpa?

Quase todo mundo pode escolher a profissão; para mim, só aparece emprego de segurança.  Desisti de saber se tenho vocação para outra coisa, mas não posso me queixar: o salário é razoável e no Brasil nunca falta trabalho no ramo.

Tempos atrás, sem querer, dei uma fechada num automóvel.  Uma mulherzinha de uns quarenta anos, cheia de moral, saiu do carro e veio para cima de mim com tudo.  Quando me viu, entrou correndo de volta no carro e foi embora antes mesmo que eu pudesse lhe pedir desculpas.  Ainda tentei alcançá-la no trânsito, mas não deu: ela tinha uma dessas camionetes quatro por quatro e o meu carro é uma lata velha.

E o vizinho que veio reclamar do meu cachorro?  Minha mulher tem um poodle, o cara deve ter achado que seria moleza.   Até que me viu.  Agora, só falta ele levar o poodle para passear.  O pior é que o vizinho estava coberto de razão, porque de vez em quando o bicho late a noite toda e nem a gente aguenta.

Detesto quando as pessoas acham que eu resolvo tudo na violência.  Cada vez que passa na televisão o filme do Frankenstein, me identifico com aquele monstro ridículo.  É triste: ele queria ser amado, mas só inspirava medo.  Tem até uma cena em que ele dá uma flor a uma menininha.  Se o livro tivesse sido escrito agora, iam acabar dizendo que o cara era gay.  Muito preconceito isso.  O coração da gente acaba endurecendo.  E aí dá mesmo vontade de dar porrada em todo mundo.

 

 

2 comentários em “Violento, eu?

  • 30/03/2012 em 19:29
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    Ontem te vi escarrapachada no seu lata velha, e para minha segurança fingi não te conhecer. Que sorte você não ter me notado.
    Ótimo Milton

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  • 18/03/2012 em 13:36
    Permalink

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Tem até uma cena em que ele dá uma flor a uma menininha. Se o livro tivesse sido escrito agora, iam acabar dizendo que o cara era gay. Muito preconceito isso. O coração da gente acaba endurecendo. E aí dá mesmo vontade de dar porrada em todo mundo.

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