Vida que segue

Acordei sem pressa. Será este o sono dos justos?

Entre o sonho e a realidade, fui me levantando com preguiça e sem cuidado. Estiquei o braço, senti um leve roçar e o barulho que  veio em seguida me tirou do devaneio.

— Splaftt!!

Acabei de acordar com o susto.

— Putz!

Olhei para o estrago; meu antigo copo de água tinha ido para o espaço, na verdade… para o chão! Vi seus restos mortais espalhados por todos os lados e esmoreci:

— Misericórdia!

Levantei-me com cuidado, procurei meus chinelos protetores e fui cuidar da bagunça. Não era a primeira vez que realizava essa façanha: o costume de ter um copo d água no criado-mudo junto à cama é antigo, mas jogá-lo ao chão com frequência é um hábito novo. Seria a inexorável chegada do tempo?

A causa talvez  seja o cansaço, por só conseguir adormecer após ler um bom trecho de livro. O certo é que quando consigo relaxar, ir para os braços de Morfeu, me entrego a esse deleite. Não é raro, assim, acordar na manhã seguinte ainda perdido, acabando de chegar de viagem do reino dos sonhos; daí a derrubar o que estiver por perto é só um passo ,às vezes nem isso — somente um braço, como ocorreu nesta desastrada manhã.

Enquanto pensava sobre esses fatos e catava no chão os restos da batalha, percebi a facilidade de movimentação desses pequenos cristais. O caco de vidro tem a particularidade de se esgueirar para os lugares mais inacessíveis às mãos, mas sugestivos aos pés. Fiz o melhor que pude, reuni os fugitivos e enrolei-os no jornal (enrolar é verbo? ou poesia?) que havia estendido junto à cama. Enquanto os levava para o lixo, fiquei pensando nas mazelas que nos ocorrem no dia-a-dia: é como se a Providência nos testasse.

Teríamos nós já desenvolvido, de forma cristã, nossa paciência e resignação? Quem de nós já não deixou um pão cair com o lado da manteiga para baixo? Um outro fato desalentador, mas não improvável de ocorrer é se sair com certa urgência para o trabalho, num dia de uma importante reunião ou encontro, descer até a garagem com o melhor ânimo possível, entrar no carro, ligar a chave… e nada! A bateria está arriada. Isso é frequente na volta das férias, devidamente planejadas, com a exceção da falta de lembrança de se pedir a alguém para ligar o carro na sua ausência…

Outra coisa irritante é se dirigir ao shopping para ver o filme de sua atriz preferida, e ao chegar ao estacionamento perceber que, além de você, a bela que ilumina as telas é amada por vários, e que seu parceiro de aventuras também é admirado pelo sexo oposto. Logo, não há vagas para estacionar, nem no primeiro, no segundo, no terceiro andar, somente no último, no lado oposto à localização do cinema. Eu sei vão me chamar de pessimista ou azarado, mas… confesse!

Você nunca entrou no chuveiro depois de uma sexta-feira tumultuada, ou após uma balada, ou num sábado em que o almoço de família já marcado com antecipação tem que ser prestigiado, e ao virar a torneira de água quente recebeu na palma da mão estendida o frio do jato de água gelada não desejada? Imagine que sem entender o ocorrido, você buscasse o socorro da toalha amiga, e envolto nesse abrigo indesejado se dirigisse ao interfone do prédio, para ser informado de que o aquecedor solar está estragado!

Talvez o grande terror que nos assola seja a tecnologia. Temos que salvar tudo, textos, planilhas, agenda de telefones etc. Mas, apesar de todos os cuidados, um dia nos esquecemos de fazê-lo e então… Perdemos o texto, e a paciência. Vem uma saudade irrestrita do papel e do lápis, de uma época em que a vida era mais fácil, em que a única pessoa que tinha que guardar senhas era James Bond.

Enfim, com o tempo, percebemos que as mazelas da vida fazem parte de nosso roteiro cotidiano. Cientes disso, assumimos nossas dificuldades e nosso tempo; e, humildemente, aceitamos o nosso destino.

 

 

4 comentários em “Vida que segue

  • 22/08/2012 em 11:58
    Permalink

    Nossa… que saudades da agenda de papel!

    Resposta
  • 09/08/2012 em 15:23
    Permalink

    Viver assim sem muita explicação!
    abrs.
    Gustavo

    Resposta
  • 01/08/2012 em 19:43
    Permalink

    Hummm… A vida é como ela é. Talvez nos, a sociedade, pais, igreja…e todos os organismos sócias manufacturados nos venderam um MODELO mental que não é condicente com nosso entorno. E como tomar sopa com garfo, funciona…porém da um trabalho….

    Resposta

Deixe você também o seu comentário