Vida longa

Dia desses eu estava a conversar com um amigo próximo; falávamos das agruras de donos e donas de casa: lava a louça, arruma a cama, põe comida pro gato, limpa o sanitário do mesmo, chama o bombeiro e infindáveis etecéteras. É claro que a pia da minha cozinha estava o caos, e nós dois com uma preguiça imbatível.

Foi aí que, de repente, me lembrei de um episódio, digamos, bizarro, que ocorreu um dia, há muitos anos. Meu filho ainda era uma criança e morava comigo uma amiga, mais uma empregada inteligente e culta que vinha na segunda feira e se ia na sexta. Praticava a função de empregada doméstica por escolha pessoal, bem sedimentada: era muito feliz nessa profissão.

Pois, éramos todos jovens ainda, e a casa vivia cheia de amigos, copos, música, cinzeiros. Cozinhávamos no fim de semana. Aí, fazíamos pratos especiais para nossos convivas, com temperos exóticos e receitas mais sofisticadas. Resultado: a pia ficava um horror de louça, embora limpássemos tudo antes de colocar lá e encher com água e detergente, para facilitar a limpeza das partes mais grudadas; isso, na segunda-feira.

E foram anos de segundas-feiras como essas. Um dia, acordei sonolenta e a cozinha estava quieta. Nada de barulho de lavagem de louça, que também servia para nos acordar, bateção de portas de armários na cozinha ou barulho de máquina de lavar ligada.  Olhamos, procuramos, e, por fim, vimos um singelo bilhete pregado com durex na porta da geladeira: “LIMPEM VOCÊS MESMAS ESSA BAGUNÇA TODA”.

Quem escreveu, nunca mais voltou ou telefonou. Hoje, rimos muito ao lembrar, gargalhamos. Mas o fio de memória é implacável: junto com o bilhete, veio à lembrança a época em que meu filho foi morar na casa do pai dele — por motivos muito justos e nós dois, os pais, estando de pleno acordo de que isso era o melhor para ele —, e os dois anos que eu e minha amiga sofremos de nó no peito e na barriga e choramos de falta dele, mesmo que ele viesse, como vinha, nos fins de semana.

Hoje, tudo isso passou; ele é adulto e independente, e esteve recentemente a visitar essa amiga que não mora mais no Rio de Janeiro há anos. Nunca comentamos com ele nosso choro e dor. E hoje, se contarmos o tempo que todos já vivemos na vida, esses dois episódios não passarão de alguns quadros retirados de um rolo de filme muito, muito longo — todo mundo que o assistiu, mesmo nós, vai achar a vida tão curta, passou tão rápido.

A vida, mesmo de quem vive pouco, parece curta porque o passado, na sua misericórdia, tudo engole. Mas é tão longa que precisaríamos de várias enciclopédias para contar com sentimento todos os seus pedacinhos.

Ainda bem!

 

 

2 comentários em “Vida longa

  • 19/11/2011 em 13:41
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    Vida longa…
    A de minha filha foi curta, pelo menos para mim, ela se foi com 28 anos, há nove meses… Ainda dói e choro, e não sei até quando…
    Achei ótima sua crônica… ah, pia suja! Ah, empregadas!
    Já passei por isso muitas vezes, com filhos pequenos… Comecei até a escrever o esboço de um livro cujo titulo era “Empregada, praga de madrinha”… Coisas do passado.
    Parabéns, mais uma vez. Você é uma cronista de mão cheia…
    Até o próximo sábado.
    abraço,
    Raul

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