Vida em pedaços

Desde que eu era criança, o café da manhã sempre foi um momento mágico. No princípio, não conseguia entender como se materializavam, em nossa mesa na cozinha, o pão, biscoitos, café e leite, desfrutados diariamente com prazer. Como meu pai já não estava ali, visto que seu horário não coincidia com o meu, era com minha mãe que eu dividia o espaço.

Um ritual não combinado precedia o prazer: uma xícara grande, onde se vertia um tanto de mate, era o nosso prelúdio. Apesar de ser um café da manhã, usualmente bebíamos chá, não por sermos ingleses; muito menos por sermos esnobes. Na verdade, o costume surgiu com meu pai, que adorava o amigo Leão e o tomava diariamente, com limão; em casa, todos adquirimos o mesmo hábito e ele permaneceu por muito tempo.

Eu gostava do sabor do limão no mate e da sensação que ficava na língua depois de tomá-lo bem quente. A bebida nos aquecia por dentro e animava qualquer cristão. Com o passar dos anos, acabei abandonando o chá; saía de casa correndo, quase sempre sem tomar nada ou comer coisa alguma. Adolescente, sempre estava atrasado, com sono e sem fome. Chegava ao colégio e acendia meu cigarro: pronto, era o meu desjejum. Hoje me parece impossível ter prazer nisso, mas então era algo que me satisfazia. Sem explicação, ficava fumando do lado de fora do colégio, conversando com algum colega e vendo as meninas passarem sem pressa.

Não podíamos fumar dentro da sala ou nos corredores; somente o fazíamos escondido, no pátio. Ficávamos ali, a la James Dean (com um atraso de vinte e cinco anos!), em nossa juventude transviada. Eu comia algo no intervalo e acendia mais um cigarro, procurando um canto mais recolhido. Ao voltar para casa, descontava com um bom pedaço de pão de sal com manteiga.

Com o passar do tempo, minhas manhãs se perderam na vida. Troquei o chá pelo café, pois isso ajudava o vício sem nenhuma culpa. Era uma época de sair correndo para trabalhar com coisas que eu não apreciava. O gosto matinal não fazia diferença, era sempre igual: sem vontade e sem sabor. Nessas horas, me lembrava com saudade dos tempos de outrora e achava que tinha crescido muito depressa, sem perceber o prazer da vida que me esperava a cada amanhecer.

Com mais algum tempo, fui acalmando na vida e encontrei meios de cotidianamente tomar um cafezinho com um pequeno pedaço de pão, talvez por trazer algumas lembranças, talvez para tomar coragem para enfrentar a vida que estava do outro lado da porta. Eram instantes breves, antes de subir no barco e enfrentar a tempestade. Porém, uma certa tristeza permanecia, insistindo em me afastar da realidade.

Aos poucos, como quem não quer nada, meus desejos foram ganhando espaço. Me vi assim um dia, sem correria ou desgosto, diante de uma máquina de café, presente da esposa. Apesar do olhar de estranhamento inicial entre nós, em pouco tempo aprendi seu ritual: deslocar o recipiente atrás onde se colocava a água; ligar com calma e paciência seu mecanismo, uma vez que  tem seu próprio tempo de aquecimento; abrir a caixa onde se encontram uns copinhos mágicos; abrir o recipiente que se encontra no alto; embarcar o pequeno viajante, trancá-lo ali sem cerimônia e acionar os foguetes. A máquina faz o resto.

Um perfume de café me alcança, quando, diante de mim, o expresso surge inesperadamente. Ainda surpreendido por essa manifestação tecnológica inexplicável, retiro meu pequeno tesouro, já devidamente acondicionado na pequena xícara de porcelana que o aguarda. Coloco-a sobre o respectivo pires e levo os dois para a mesa. Enquanto toda essa epopeia ocorre, já deixara um pedaço de pão assando na chapa.

Me sento; diante de mim, meus amigos me aguardam. Um pequeno gole no café, já previamente adoçado, me diz que estou no caminho certo. A mordida no centeio com manteiga me confirma a impressão. Ali permaneço. Sem perceber, vejo a vida de outra forma, com outro sabor, sentindo na boca o doce prazer de poder, ainda, desfrutá-la.

 

 

 

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