Viajando no feriado

O balcão da companhia aérea assustava. Apesar de eu ter chegado duas horas antes da hora marcada, já estava repleto de clientes. Certo de que não poderia avançar, resignei-me no meu lugar na fila, observando a paisagem.

À minha frente, um jovem casal trocava sinceras carícias. Recém-casados, embarcariam em lua de mel. Não havia como errar: tantos beijos em público, tanto carinho, os denunciava. Atrás desses, uma outra dupla, já algo madura, demonstrava o desgaste dos anos de relacionamento. A mulher, diante do consorte, se mantinha meio distante, consultando no seu iPod o novo número de uma amiga. Encontrando o contato desejado, a infeliz disparava uma ligação, reclamando de tudo e de todos. Relegado a seu lugar na retaguarda, segurando as duas malas e uma enorme sacola da princesa, o marido, com cara de poucos amigos, sustentava como podia o lugar na fila.

Um pouco atrás, um bando de adolescentes aproveitavam a ocasião; sentados no chão e nos desafiando, pobres coitados ouvintes, despejavam o canto desafinado que o som estridente de uma viola mal tocada reforçava. Juntos, mas misturados, estropiavam em uníssono a balada de um antigo ídolo de rock que não tinham conhecido, mas idolatravam. A cantoria lembrava o uivo de um lobo atingido por uma bala perdida.

Acompanhando a procissão e latindo sem parar, um pequeno cão branco molestava a todos para deleite de sua dona, que, de costas para a pequena fera, ria sem parar de uma piada sem graça contada pela irmã.

Nada, contudo, parecia me perturbar naquela manhã; absorto, aproveitava a paisagem, observando o ser humano em suas diferenças e mazelas. Distraído, quase fui atropelado por uma senhora em uma cadeira de rodas. Com cara de quem estava com a avó atrás do toco,ela foi logo avisando:

— Afastem-se, deem passagem para uma idosa!

Ao encostar o veículo no balcão, porém, ela se esqueceu de seu papel teatral e, saltando rapidamente do assento, esbravejou com o rapaz que a empurrara até ali:

— Tira esse negócio daqui! Seu incompetente!

Dirigindo à moça da companhia aérea um olhar gélido, exigiu seus direitos e a primazia de atendimento. Com a aquiescência, provavelmente causada pelo temor de todos os presentes, foi rapidamente atendida.

Ainda aguardando, com minha infinita paciência, ouvi distraído a oferta da balconista ao casal de pombinhos que me precedia:

— Se vocês quiserem, por uma pequena taxa, ganham 15 centímetros a mais no lugar que escolheram.

A loirinha apaixonada riu para seu companheiro, e exclamou alegre:

— Já estou satisfeita com o que tenho, não é, amor?

O rapaz sorriu feliz, e, agradecido, pegou os lugares marcados, recolhendo seus bilhetes sem entender que a oferta era referente a um assento especial no corredor vip. Abraçou sem pudor a satisfeita amada.

Depois de confirmar minha passagem, entrei no corredor em direção ao ônibus que nos levaria à aeronave. Apesar de contente por finalmente avistar o avião, fiquei agastado com os comentários de um homem, que, incomodado com o calor e com o fato de estar em pé com outros quarenta passageiros, num espaço em que não cabiam mais de trinta, exclamou irritado:

— Mas que droga! Aposto que é uma mulher que está pilotando o avião!

— Por que diz isso? — indagou seu colega de empresa.

— Se fosse homem tinha estacionado essa tranqueira no lugar certo! — disse, apontando para o avião ao lado, que, por ordem de chegada, se encaixara no gate diretamente.

Abstive-me de comentar o disparate. Entrei rapidamente na escada que levava ao jato assim que o ônibus parou. Sentei-me no meu lugar do corredor e me preparei para receber as cotoveladas e bolsadas de costume: consegui me desviar de três malas no joelho, mas fui abatido pela caixinha do cachorro que a senhora engraçada conseguira embarcar.

— Toma cuidado, seu estúpido! Assim você machuca o Fido!

Atordoado pela pancada, preferi me manter calado. Lembrei-me da minha juventude, e não querendo cometer um desatino, comecei a recitar os mantras indianos que aprendera na minha época de hippie. Assim determinado, aguardei a partida tão esperada.

Finalmente, depois de 45 minutos de espera, ouvi, ansioso, o barulho do microfone ao ser ligado:

— Senhoras e senhores, por motivos técnicos a aeronave não poderá voar. Por favor, desçam e se dirijam ao balcão da companhia, onde os passageiros receberão instruções sobre como proceder para novo reembarque.

 

 

4 comentários em “Viajando no feriado

  • 13/06/2012 em 10:29
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    WOWOWO
    Veja pelo lado “Bom”… Não perderam a porta na pista e….no pego fogo no banheiro!
    Muito bom.

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    • 13/06/2012 em 15:05
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      Manuel
      Fogo no banheiro é proibido!
      Mas esqueceram de por a placa.
      Abrs,
      Gustavo.

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  • 13/06/2012 em 09:53
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    kkkkkkkkk. há alguns anos atrás, seu texto descreveria bem uma rodoviária do interior do nordeste brasileiro. Agora, é retrato de nossos grandes aeroportos. Cresceu a renda no nosso país. Popularizou-se os preços e o crédito inundou a praça, para o bem ou para o mal. Espero que em mais alguns anos cresça também os modos e a cultura deste nosso povo…

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    • 13/06/2012 em 15:03
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      Caetano
      Nossos aeroportos são grandes só em problemas.
      Mas vamos em frente nesse nosso Brasil brasileiro.
      Abrs,
      Gustavo.

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