Verão de Serengeti

Horda de gnus no Parque Nacional de Serengeti. Foto: Enciclopédia Britannica

Horda de gnus no Parque Nacional de Serengeti. Foto: Enciclopédia Britannica

Enfim, o verão! O Brasil se assanha, afinal, é hora de ir pra praia!

Como na África, onde os animais no verão buscam água, no Brasil ocorre o mesmo processo, só que em vez de água potável, busca-se a salgada, vai entender os animais, principalmente os ditos racionais.

No passado não muito distante, fazer um safári na África era um programa para os ricos e famosos. Juntava-se um bando de bwanas e algumas centenas de carregadores e todos iam felizes  atrás dos elefantes,eões e o que mais pudessem caçar.

Tarzan era meu herói de quadrinhos. Matava tudo que encontrava pela frente, gorilas, leopardo, crocodilo e até pernilongo. O homem era politicamente incorreto, mas macho. Hoje, se um famigerado suburbano mata um pardal com uma espingarda de chumbinho, corre o risco de ser linchado em público.

Calma, gente, não defendo a caçada de golfinhos, nem sou a favor da matança das baleias, embora tudo que se faz hoje passe pelo crivo dos ecologistas de plantão, sentados em seus carros no transito caótico ou voando em aviões movidos a querosene.
Mas não é esse o assunto, o assunto é o verão africano. Já que é impossível ir para o Serengeti e fotografar os bichos, eu, como a maioria dos brasileiros, vou para a praia. Assim, me dirigi à agência de viagens, que tinha mais gente do que piranhas assassinas em cheia de rio amazônico. Apesar da mesma ferocidade das pessoas, enfrentei as águas de turistas famintos pela alegria do mar. Tentei, primeiro, ser atendido por alguém; em segundo lugar conseguir um hotel em uma praia brasileira.

Percebi a minha inocência quando uma senhora, como não querendo nada, deixou sua bolsa propositalmente à frente de um rapaz distraído. Quando este se moveu na fila de atendimento, tropeçou na bruta e levou mais três que estavam à sua frente. Na confusão que se seguiu, enquanto uns tentavam ajudar os outros, a dita madame sentou-se na cadeira e exigiu seu atendimento.

Enquanto a discussão avançava, percebi que o mar não estava para peixe, nem mesmo para piranha, e fui para casa. No mundo da informática, pensei com meus botões, estou feito! Entrei no site do meu cartão de milhagens e percebi que metade da população de Minas tinha pensado o mesmo. Depois de tentar todas as datas e lugares, me dei por vencido, e, esgotado, fui me deitar. Mas antes, para manter  aceso o desejo de praia paradisíaca, liguei a TV para ver o jornal das dez. As imagens lindas do Rio logo me levaram de encontro ao céu. Ledo engano, logo em seguida visualizei o inferno.

O repórter mostrando a praia de Copacabana mostrava a maior manada de gnus — desculpem, de pessoas — que eu já vi tentando entrar no mar. A imagem dos gnus me veio pelo calor que o repórter relatava, 42 graus, e pela corrida louca e desenfreada das pessoas para entrar na água. Só faltavam os crocodilos do canal Discovery  para a imagem ficar mais nítida. Infelizmente se havia algum crocodilo marinho naquelas águas, deve ter sido abatido pela horda de selvagens que corria para as ondas, ou jogava frescobol, ou chutinho, ou corria descalço, de tênis e, acreditem, juro que vi um até de pé de pato.

Enquanto a reportagem rodava, meu ânimo de enfrentar a horda assassina de veranistas de plantão arrefecia no meu coração. Aumentei o ar condicionado do quarto e tentei não desistir de minha ideia inicial. Nessa hora, as imagens de outras praias pelo Brasil entraram em sequência, em todas o mesmo movimento enlouquecido em direção, ou próximo à água. Alguns banhistas de primeira viagem se mostravam felizes, nos seus tons de boto cor-de-rosa, que, pelo menos na areia, não pareciam em extinção.

Não aguentei e mudei de canal. Coincidentemente, caí no Discovery Chanel, e, coincidência ainda maior, na hora em que um gnu, que tinha escapado do crocodilo assassino, chega ao alto do barranco.
Aquilo foi para mim um sinal dos deuses! Desliguei a TV e decidi: viajar, só em março!

 

 

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6 Resultados

  1. Marilania Mozzer disse:

    Infelizmente o que queremos uma praia para poucos, uma agência com passagem, pacotes fartos na hora, dia, mês e valores compatíveis, só em sonho. É bom aceitarmos o que tem ou mudarmos de rumo, como fez o cronista. Eu também prefiro sossego à multidão a 40º graus.

  2. Claro que praia só depois do verão…

  3. manuelfunes disse:

    Massas! A pior invenção do Socialismo! (Lido em algum momento no Jornal “Le monde”)

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