Venham a mim as filipetas

Costumo recusar filipetas, mas confesso que me considero um pouco culpada em relação a isso.  Sinto que os pobres-coitados que as distribuem só podem ir para casa depois de se livrar (honestamente) delas e não estou colaborando em nada para a sua alforria.  Tendo  que percorrer a pé um longo trecho da Avenida Rio Branco, por que não ajudá-los aceitando os inofensivos papeluchos?  Para aplacar a consciência, resolvi pegar todas, absolutamente todas, que cruzassem o meu caminho durante quinze minutos.

Até onde eu me lembrava, esse tipo de publicidade era muito usado na linha do “trago a pessoa amada em três dias”.  Se você também acha que ainda é por aí, vou atualizar sua cultura urbana: a primeira filipeta que recebi era de um estúdio de tatuagens, isto é, “tatoos”, palavra considerada comercialmente mais chique — um vasto acervo de desenhos, experiência internacional, e, pasmem, só para mulheres.  Imagine em que lugares eles estão propondo a tatuar.

Seguiram-se depilação (a frio, a quente, a laser, a gás).  Unissex.  Sapateiro (troca na hora o salto quebrado), sebo de livros, banho e tosa, produtos naturais (guaraná natural em oferta esta semana), informática (venha conferir nossos “pressos), conserto de roupas (english spoken — alguém me diga qual é a probabilidade de transitar pela Av. Rio Branco um gringo disposto a refazer a bainha da calça e capaz de deduzir que aquele anúncio em português está indicando o lugar certo para isso?).  Sem falar nos clássicos “compro ouro” e “dinheiro na hora”.

Mas comida foi, disparado, o tema que dominou minha jornada pró-filipeta.   Em menos de cem metros eu já tinha colecionado quatro restaurantes a quilo (dois com sobremesa grátis), uma lanchonete especializada em cachorros quentes (perdão, hot dogs), duas yogurterias, uma churrascaria (dez por cento de desconto apresentando a filipeta), uma loja de sucos e cinco deliveries.

Eu achava filipetas uma bobagem, mas agora estou convencida de que é possível fazer um retrato fiel da nossa sociedade através delas; e de que madames que prometem trazer de volta a pessoa amada estão definitivamente fora de moda.

Experiência bem mais radical do que simplesmente aceitar todas as filipetas seria aceitar também todas a sugestões nelas contidas.  Quem se arrisca?  Mas não me convidem: tatuagem feminina, depilação a gás, iogurte, salto quebrado?  Tô fora.

 

 

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