Uma proposta modesta*


Não devemos glamorizar a violência.

Ken Loach

 

Vou contar pra vocês que nestes intensos quase 3 anos como editora, como dá pra imaginar, li tudo quanto é tipo de livro, assunto e estilo. A todos dispenso o mesmo carinho, embora, é claro, como leitora me identifique mais com uns do que com outros. Normal. Até com filho é assim. Confessar ninguém confessa, mas sempre sobra uma preferenciazinha, ou por vantagem ou por outro motivo mais comezinho, um trauma compartilhado, por exemplo. Mas nunca até hoje eu tinha ficado doente por conta de editar um livro.

O título era perfeito, eu ri por gosto quando o recebi: “Vai aí meu romance perfeito”. Oba, pensei. Por esse vou passar batido, embora com a prática desconfie de afirmações de autores autoelogiosas como essa. Por causa da risada, motivada, aceitei editar.

Não era nada disso, claro. Perfeito, ah, como eu já disse aí em cima, era apenas parte do nome dado ao texto original, que na apresentação parecia  mais um daqueles romances históricos normais com um pé na culpa ancestral, com o agravante de um pedido de desculpas por pecados de um passado que pouco têm a ver com a gente.

Mas não era nada disso, claro. A coisa até começava bem, com a prece de uma mãe por um filho perfeito. Normal. Mas no decorrer da leitura o texto foi me mostrando sua verdadeira cara, e era a cara de um menino no batente; e de tanto sofrimento que o pobre enfrentava fui ficando cada vez mais doente.

Passei três dias com dor de cabeça. Tudo bem. Pode ser necessário um texto contundente. É até bem provável que o livro faça sucesso comercialmente, o mercado gosta deste tipo de enfoque, hoje em dia principalmente, e ninguém nunca disse que literatura para ser boa tem que ser boazinha com a gente. Argh.

Já fiz a minha parte. Agora é com vocês.

Penso na minha própria infância, que em algum momento, por neurose íntima e sensibilidade de nascença, julguei solitária e sofrida, e alimentei com isso minha literatura pessoal, toda grande literatura vem de uma infância infeliz, etc. etc. Mas, que, francamente, e só sei disso agora, foi de uma perfeição que eu não avaliava anteriormente.

Alan brinca com a minha miséria e vai logo lembrando que meu pai — um caso que já contei outras vezes e que por puro engano, ou confiança conjugal, amorosa, sei lá, dei a ele como desculpa  por meus “problemas” sexuais, hoje em dia inexistentes — me dava um beijo por ano, no Yom Kipur, uma espécie de perdão, digamos, por sua falta de capacidade de ser fisicamente amoroso, coisa de geração, sei lá. Fora isso, sempre tive tudo e amor também. Quanto quis e quanto precisava para crescer bem, vamos combinar. Normal?

Nem tanto. Vou prosseguindo no texto rezando pra que seja ficção pura, fantasia como desculpa de literatura, porque, francamente, causar sofrimento assim a um filho que veio da gente não deveria ser coisa deste mundo. Mas é. O que se passa na cabeça dessa gente? Doideira.

Lembro da história recente de outro menino que podia ser meu filho, se filhos eu tivesse, cujo padrasto de conto de fadas o qualificava como “o último elo na cadeia alimentar” da “família”. Não era especialmente inteligente, nem bonito, nem desejado, por que deveria ser tratado como se fosse tudo isso? Era racionada a comida, a roupa era sempre velha, herdada do irmão mais velho que por seu lado a tinha arranjado na loja de doações. O estudo era apenas ao ponto obrigatório pelo governo. Antes mesmo de atingir a maturidade, os dois irmãos, o mais novo até legalmente emancipado a seu pedido pelo pai de verdade — que, divorciado, não sabia da história a metade — cada um a seu tempo, fugiram de casa para a adoção pelo serviço militar, onde se tornariam “gente”.

Doces meninos. Tudo de bom que se pode querer num filho, e tratados pela mãe, que só pode ser meio demente, como se fossem indigentes. Momentinho que vou ali vomitar e já volto pra terminar a crônica, ok?

Um deles, mais forte que o outro por sorte e por natureza, vai indo muito bem, mas o mano, já quase aos trinta, ainda se debate nas tristezas de antigamente —  um homem lindo, louro, cachos de anjo e um coração doente. Quem me dera dar alívio a quem sofreu o que nem se sabe exatamente.

Quero vomitar novamente com a coluna de Maureen Dowd sobre os avanços “inocentes” do marido de Dottie Sandusky há 45 anos, aquele técnico de futebol igualmente demente que teve seu passado revelado esta semana à revelia do pódio heroico da Penn State. O que há de errado com essa gente?

Converso com o Alan cedo de manhã sobre a inutilidade dessas discussões ecologicamente corretas de reuniões como a Rio +20, não tenho nada contra, mas não nos levam a lugar nenhum e nem melhoram de verdade a vida da gente, a não ser, é claro, pelos caros momentos de diversão que proporcionam aos visitantes e ecológicos de jornal que a seu respeito se manifestam. “A melhor solução para a fome do mundo”, Alan lembra, “é dar-se a comer as criancinhas, cuja carne  é tenra, doce, fácil de cozinhar e digerir”, como já sugeria em famoso tratado do século XVIII o contundente Jonathan Swift (*).

Bom apetite, canibais dos próprios descendentes. Quero a máxima distância de “gente” que não é gente. Francamente.

Se ainda sobrar no estômago alguma coisa que se aproveite depois de tanta história deprimente, desejo ao que restou de vocês um bom domingo. É de amargar.

 

 

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4 Resultados

  1. Manuel Funes disse:

    Bem… Uma certa Virginia Wolf… fez o mesmo com as publicações desconhecidas de um certo ruso…..

  2. “A função do artista não é sucumbir ao desespero, mas sim encontrar um antídoto para o vazio da existência.
    Você tem uma voz clara e vibrante. Não seja tão derrotista.”

    Woody Allen

  3. manuel funes disse:

    A VERDADE OFENDE!
    Todos sabemos, ninguém é IDIOTA TOTALMENTE, que 1/4 dos seres humanos do planeta estão literalmente morrendo de fome e que outro 1/4 não se alimenta como deveria, sobrevive. Todos “NOS” sabemos de la violência contra as crianças, 25000 por ano aqui no Brasil… E…. NINGUÉM FAZ NADA QUE REALMENTE MUDE. A fome no mundo é produto directo da distribuição desigual dos recursos, COMIDA COMIDA. E claro as POLITICAGENS descaradas das famosos “CONCLAVES”. ELES NO QUEREM PROTEGER O PLANETA, somente LUCRAR MAIS…MAIS…

    “Quem tem fome não tem escolha. O seu espírito não vem de onde ele gostaria, mas da fome.” (Max Frisch)

    Sartre, talvez, estava com a razão em acreditar que a literatura deve ser ter como foco MUDAR AS COISAS…

  1. 24/06/2012

    […] resto, aqui. Compartilhe isso:FacebookCompartilharEmailImprimirDiggRedditStumbleUpon Categories: […]

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