Uma mãe para Nosferatu

Moça sorridente, pele de índia da Serra da Canastra, Thereza trabalhava na gráfica de seu pai. Entre as letras de chumbo e a impressora manual, produzia o jornal O Estado Novo. Época muito distante das facilidades da computação: cada palavra era composta letra por letra, em meio à poeira metálica e ao cheiro de querosene usado para retirar a tinta das chapas que imprimiam as páginas. Uma mistura de artesanato e trabalho braçal.

Thereza teve que parar de estudar. O pai precisava dela para o jornal e os demais impressos, como programas de cinema, convites de casamento e notas de falecimento. Quando não estava na “oficina”, ajudava na cozinha e lavava as roupas das irmãs que estudavam para professora.

Getulista, o pai da moça foi perseguido por fazendeiros contrários aos benefícios trabalhistas. De madrugada, Thereza jogou suas coisinhas num caminhão e partiu com a família. Na nova cidade, fez as primeiras páginas coloridas do jornal do pai. Todas as sextas distribuía a programação de filmes na porta do Cine Glória, onde conheceu um rapaz vigoroso, rosto meio Sinatra, pintor de automóveis.

A família de tipógrafos queria a filha casada com um homem de prestígio. A princesa índia ignorou a babaquice e se casou com o pintor lanterneiro. Anos depois, eles foram construir Furnas, a primeira grande hidrelétrica do Brasil.

No meio de um acampamento da empreiteira Mendes Júnior, no sudoeste mineiro, Thereza cuidava do casebre em que brincava o casal de filhos, Carlos e Helena. Tudo estava sempre limpinho, mas a apreensão rondava. A mãe ouvia os casos sobre trabalhadores estragados por cobras.

O marido sempre chegava tarde, e de fogo. “Os engenheiros mandaram assar um tatu. A turma tava tomando uma cervejinha”, ela ouvia quase todas as noites. Santa Natureza Provedora de Tatus, o pai precisava se anestesiar. Lixava e pintava máquinas cujos pneus eram mais altos do que a casinha onde ele morava.

Peão de trecho, o marido trocou de empreiteira. Foi para a Andrade Gutierrez. Desta vez, o casal foi construir estradas no sul de Minas, região de Itajubá. Era preciso asfaltar o progresso do país: trem nunca foi paixão de brasileiro e a indústria automobilística precisava acelerar.

Thereza não gostava da escola dos filhos. Na carroceria de um caminhão, acabaram se mudando de novo. Foram acampar perto de Sorocaba. Mais estradas.

Carlos e o filho do chefe administrativo da obra caíram do balanço da árvore. O filho do chefe foi levado de avião para a cidade. Carlos bateu a cabeça. Foi atendido na farmácia do acampamento.

Helena lia livrinhos. Só ganhava bonecas fracas.

Muitas foram as viagens feitas no vento dos caminhões frios. Thereza calava choro. Os meninos clamavam por sandálias melhores.

As coisas deram uma melhorada. Voltaram para a cidade do Cine Glória. O pai montou uma pequena oficina. Thereza passou a costurar para fora. Nasceu mais um filho, rapa do tacho, como se dizia. Paulo gungunou felicidade naquelas vidas.

Um Chevette verde parou em frente à casa da família. Lurdinha, irmã de Thereza, apenas gritava. Carlos morrera às margens da represa que o pai ajudara a construir. Não se afogou. Caiu duro depois de almoçar. A mãe não permitiu autópsia. Mãe não gosta de ver sua carne aberta na pele do filho.

Thereza consumia livros espíritas. Helena levava Paulo para andar de velocípede na praça. O quinto aniversário de Paulo a mãe comemorou com pão de queijo, doce de ovo e suco. Os amiguinhos pediram empadinhas. O pai e Helena se seguravam na força de Thereza.

A vida correu, deu uma sossegada e deixou Thereza sorrir. Ela está com cabelos de algodão prateados. A lucidez, afiada. Lê jornal diariamente. Corrige erros. A escoliose a deixou encurvada. O plano de saúde não paga a reeducação postural. Eu pago caro pelas sessões.

Tenho a sensação de que esses planos de saúde têm a sede de Nosferatu. Deveriam ter mais carinho com a mãe da gente.

 

 

Você pode gostar...

2 Resultados

  1. Jucielle disse:

    linda crônica, Paulo.

  2. Gosto de suas crônicas.

Deixe você também o seu comentário