Um homem simples

Numa cidade pequena do interior mineiro, vivia um homem simples de nome José de Arimateia. Trabalhador rural por muitos anos, conhecia tudo sobre plantar e colher. Não era uma pessoa com grande cultura formal, mas possuía um conhecimento prático que adquirira na lida. Era comum ser procurado para ensinar como plantar num terreno difícil, numa encosta ou num brejo, e a todos respondia com medidas práticas e corretas. Não cobrava por seu serviço, pois dizia que o que aprendera fora-lhe dado por Deus, ele só tinha observado e escutado o que Ele dizia. A cor da terra, o vento e sua direção, algumas plantas que por ali nasciam lhe diziam segredos que para muitos eram indecifráveis.

Com o tempo e com a aposentadoria, começou a atender também aqueles que o procuravam para aliviar uma dor por meio de um chá ou outro recurso do qual era conhecedor. “Seu Zé”, como o chamavam, aprendera na infância a fazer uso das plantas, mas costumava dizer que elas não substituíam um médico quando o caso era de corte ou então de muita dor. Dizia que sua finada mãe só tratava da prole com o que colhia na horta na precisão, pois doutor era luxo que não existia na região. Mas nenhum dos doze filhos que teve sofreu dos males que, na época, todos diziam ser sem solução.

Assim, com o passar dos anos, os cabelos ficaram totalmente brancos, contrastando com a cor negra de sua pele, parecendo algodão no campo. Mas o que cativava a todos era o sorriso fácil e a alegria natural daqueles que vivem em paz, atributos que ele dizia que desde menino trazia, pois para todo lado que olhava só via beleza e deslumbramento. A mãe às vezes implicava com ele:
— José, para de olhar o passarinho e vai à venda buscar o que pedi!

— Mas, mãe, ele está fazendo o serviço com um capricho que nunca vi!

A mãe olhava o menino, que sorria para ela como se tivesse descoberto um milagre. Não conseguia resistir à alegria do garoto e, sorrindo, chamava sua atenção:

— Está certo, está bem feito de dar gosto! Mas vá fazer o que pedi! Vá logo, seu moço!

— Agora mesmo, mamãe! — O garoto lhe dava um beijo e, correndo pela estrada no sentido, ia cumprir o prometido.

Com a aposentadoria, José só ficara por conta do ajudar. Habitava uma casa pequena num terreno que comprara na periferia do lugar. Morava só. A companheira de vida partira há alguns anos, tranquila, mesmo com a dor doída. Deus não quisera que tivessem filhos, mas eles aceitaram essa tristeza com resignação, e viam em todas as crianças da vizinhança os filhos que não puderam ter.

Agora José saía pouco, mas continuava atendendo a quem o procurava. Se não tinha o remédio na horta, oferecia uma palavra para aliviar a dor do amigo que sofria. Na verdade, mais escutava que dizia. Quanto mais velho ficava, mais sua mansuetude crescia. Seu sorriso generoso a todos acolhia:

— Vai melhorar, meu filho! Tristeza é erva daninha que dá em todo lugar. Mas o sol que brilha de Deus não deixa ela espalhar. Confia Nele!

— Não, menina, não briga com sua mãe! Ela te trouxe ao mundo pequenina, igual muda em flor. Agora que você está crescida, não esqueça quem protegeu sua vida e lhe deu calor quando você dormia, quando a noite era fria. Ela agora está mais velha, é como uma árvore bonita que já não dá flor, mas precisa do carinho daqueles a quem deu amor.

Sua casinha simples abrigava a todos, com a palavra amiga e o desejo sincero de aliviar o padecer. Já não cuidava do corpo, mas ouvia a alma. O verão estava chegando e começou a chover forte na região. Uma moça da cidade, formada em Direito e de boa educação, chegou à casa de seu José olhando-o com admiração:

— Bom dia, seu Zé!

— Bom dia, menina, entra!

A moça entrou devagarzinho; seu Zé estava sentado na cadeira de balanço que ficava na varanda, encostada em um canto. Sorriu para a visitante e lhe ofereceu um banco, que compunha com a cadeira tudo o que tinha e mais um tanto. A casa ainda tinha uma pequena sala, um quarto menor ainda, uma cama e um jardim. Havia também um banheiro, só com o necessário. No fundo, o fogão de lenha, e bem perto, um casco de jabuti. Cobria todo o conjunto um telhado de duas águas, que já mostrava, sem as mágoas, que o tempo morava ali.

Adriana — era assim que a moça se chamava — tinha adoração pelo senhor à sua frente. Conhecia, desde menina, o homem que naquele instante lhe sorria. Num tempo não tão distante, sofrera um grande abalo com a perda de um ente querido. E ali, naquela casa pequenina, encontrou um grande coração, que a acolheu e escutou aquilo que ela contou quando tudo lhe parecia sem remédio. Ela não sabia como, mas, ao encontrar tanta paz e consideração, pôde chorar sem receio e dizer o que lhe apertava o peito. Seu Zé não falava, mas a escutava com atenção. Quando, enfim, falou, segurou suas mãos: “Minha filha, deixe suas lágrimas levarem a dor que ficou presa em seu coração. O tempo, devagarzinho, vai se ocupar com carinho do que parece sem solução.” Levantando os olhos e encontrando os dele, ela viu que era verdade. Viu que o que fica com a gente é o carinho que se chama saudade.

— Seu Zé, vim ver como o senhor está, se precisa de alguma coisa e se eu posso ajudar — disse a moça, retornando do passado, respirando devagar.

— Não, menina, eu estou bem! Protegido pelo Deus menino, não precisa se preocupar!

Nesse instante ouviu-se um barulho forte, um raio cruzou no norte e a chuva, sem cerimônia, desceu de uma vez, molhando a única rês que pastava, sem ligar. Debaixo da varanda, os dois amigos protegidos não se importaram de esperar. Mas as telhas, com o vento, deixavam entrar um pouco do tormento que estava do lado de lá.

— Seu Zé, eu queria pedir uma coisa, se eu lhe puder falar!

— Diga minha filha, fale sem se avexar!

— Eu queria poder arrumar seu telhado e a casa, pois tenho medo de que, com esse tempo, o senhor possa se molhar — ela disse, olhando para dentro e vendo que um pouco do tormento se espalhava por todo o lar.

Seu Zé sorriu com seu sorriso de menino. E lhe disse, assim sorrindo, que, se ela quisesse, podia ajudar. Ela  partiu dali quando a chuva amainou, prometendo voltar.

Quando o sol chegou, todos os que tiveram notícia da necessidade vieram num rompante trabalhar. E trocaram o telhado, as portas e os batentes, até o fogão doente eles se deram ao trabalho de arrumar. A casa ficou uma belezura, as paredes pintadas de branco  e as janelas de verde.

No dia seguinte, quando tudo ficou pronto, a menina retornou à varanda de seu benfeitor. E, vendo o homem que tanto amava, perguntou:

— Seu Zé, não ficou lindo! O que o senhor me diz?

— Ô filha, ficou lindo demais. Estou muito feliz!

— Gostou da casa?

— Muito! Ela, mesmo machucada, junto com Deus, sempre me protegeu. Mas sou mais feliz agora, porque você fez o que lhe apeteceu. Eu agradeço de coração o que você me deu!

 

 

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