Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher foi um filme famoso a que assisti em minha juventude. Não me recordo bem da história, mas me lembro de que o enredo versava sobre o relacionamento de um casal.

O que ficou da película na minha memória foi a sensação aflitiva que o relacionamento dos protagonistas despertava em mim: era como se aquele amor não fosse possível ou estivesse destinado a terminar inesperadamente.

Essas lembranças retornam quando analiso a conversa de um pai com um amigo do filho, em uma festa em que me encontrava. Por estar perto, não pude deixar de acompanhar o diálogo:

— E aí, Pedro, tudo bom?

— Tudo, seu Jorge!

— Tá namorando?

— Não…

— Igual ao seu amigo. Vocês são ruins de namorada!

— Acho que nós temos é muita opção!

O inusitado de tudo não está apenas no diálogo em si, mas na inversão de papéis. Antes, a preocupação era das mães com as filhas. Agora é dos pais com os rapazes. Pergunto-me se as moças estão mais disponíveis, se os homens estão mais seletivos ou se existe, por trás disso, algo mais do que uma mudança de costumes ou revolução social.

Se antes, no filme evocado, a aflição era a premência de uma relação que podia acontecer, mas que de repente poderia encontrar seu fim, atualmente, na verdade, parece que ela nem sequer se inicia.

“Costuma-se confundir atividade física com exercício. Pegar um copo de água, por exemplo, é atividade, mas não é exercício” — usando uma analogia com a fala de um médico, conclui-se que ter uma relação sexual não é ter um relacionamento amoroso. Hoje tudo me parece um pouco descartável. Copo descartável, fralda, aparelho de barba, cílios, unhas… e também o amor. Muitos professam que este seria o verdadeiro sentido dessa experiência, “posto que é chama”: apagou, descarta.

Tenho outra percepção; vejo nessa troca incessante de parceiros — e vamos ser justos, não só por parte exclusiva dos rapazes, pois as moças de há muito também reivindicaram essa possibilidade, e a praticam — uma desilusão com o amor.

O risco desse encontro afasta aqueles que dele se aproximam. O medo da traição afasta os corações, mesmo quando os corpos estão próximos. A regra instituída por uma geração cobra seu preço; como tudo é permitido, não existe relação “segura”, e é verdade, não existe proteção para o sentimento que surge. A vida é imprecisa, frágil e inconstante. Estar diante dela requer aceitar a impossibilidade de guiar o destino, mas isto não nos impede de nos encontrarmos com o outro sem tantas defesas ou armadilhas.

A coragem para se lançar do porto em direção ao desconhecido é recompensada pela sensação de que é possível alcançar um destino. No final, talvez um homem encontre uma mulher; ou, talvez, ela o veja primeiro. Nesta descoberta de uma terra desconhecida, em que o primeiro passo pode mudar um destino, não há certezas, somente a oportunidade de ser feliz.

 

 

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