Um doce diferente

A casa de minha avó era grande; maior, porém, era seu coração. Junto dela, eu sentia um conforto e uma ternura difíceis de expressar. Acho que seu perfume de aroma floral e seus olhos azuis, que sempre pareciam estar sorrindo, ajudavam.
Lembro-me de que, por eu ser pequeno, ela acreditava que meus banhos nunca era bem tomados. Assim, de vez em quando, ela me colocava em sua banheira com pés de bronze (que imitavam as patas de uma ave) e me lavava “de acordo”. Apesar de eu não ser fã de água, como ocorre em geral com as crianças, eu me deliciava quando ela ensaboava meus cabelos com Phebo e os enxaguava sem pressa e com cuidado: tenho para mim que esse é o aroma do amor. Depois de me secar do jeito certo, inclusive atrás das orelhas, era a hora do abraço. Era gostoso abraçá-la: o aconchego em seus braços me envolvia numa onda de calor e de carinho.

Nunca me castigou, apesar da certeza que guardo comigo de que ela sabia quem era o coelho que arrancava e devorava parte das cenouras de sua horta e depois as devolvia meio comidas à terra, deixando um pedaço do furto para que este não se desprendesse e denunciasse a travessura de menino.

No domingo íamos à missa: ela colocava o véu, me levava em uma das mãos e seu terço em outra. Tinha sempre em casa um doce de tacho ou uma compota de fruta para receber os amigos. Embora não cozinhasse com tanta frequência como outrora, ainda era famosa pelos doces de leite e pés-de-moleque, que eram suas especialidades.

Meu avô prosperara com o trabalho árduo. Ela, por sua vez, o ajudara, cozinhando para aqueles que trabalhavam na fazenda onde ele era capataz. Pelo marido, abandonara a vida suave que seu pai lhe dera, para seguir seu amor e seu coração. Foram morar numa casa simples no campo, num lugar solitário. Quando vieram as crianças, ela continuou batalhando e auxiliando o marido. Em vez de desanimar com as condições difíceis, se fortaleceu e trabalhou mais.
Com o tempo, a bem-aventurança chegou à casa dela. Não se esqueceu, todavia, de ajudar aqueles para os quais a sorte não havia sido benfazeja. A todos socorria, relembrando os tempos duros; mas o fazia sem ostentação. Seu bom humor e alegria eram igualmente famosos.

Recordo que, numa dessas idas ao interior, o ônibus em que eu viajava chocou-se lateralmente com um caminhão de carvão que vinha em sentido contrário. No acidente, sem consequências trágicas graças às janelas abertas, grande quantidade de pó de carvão entrou para dentro do veículo. Quando desembarquei na cidade, vovó riu-se da situação junto com Dinha Fia, sua fiel aliada:

— Olha, Fia! O menino tá igualzinho o neguinho do pastoreio!

Seu sorriso desarmou meu emburramento. Todo amuado com a situação, me senti bonito e fui com ela lavar minha tristeza de viajante.

A melhor hora era à tarde, quando ela se deitava na rede da varanda para ver o sol se pôr. Eu buscava seu colo, que jamais me faltou, e, embalado por seu afeto, me deixava levar olhando para o céu, sentindo o dia sair para descansar. Antes de deitar, um copo de leite e um pedaço de rosca eram certos, bem como o dom de um dos meus abraços prediletos. Em seguida, ela me levava para dormir. Eram dias tranquilos e noites seguras as que vivi ao seu lado. Era um tempo de menino criado com carinho, uma época singela, na qual os doces eram mais doces e tinham gosto de felicidade.

 

8 comentários em “Um doce diferente

  • 06/01/2012 em 14:05
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    Nossa amei ! Foi uma sessão nostalgia ! lembrei da minha avó a quem eu era muito apegada, recordei do sabonete Phebo, da colonia Alfazema, do pé de moleque, do copo de leite com rosca – hum que saudade… tempo bom e inocente …. PARABENS !!!

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  • 06/01/2012 em 13:00
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    Lindo!!!! E eu nem sabia deste lado escritor….parabéns

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    • 06/01/2012 em 21:16
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      Toda quarta eu escrevo no Blog da Editora KBR Digital.
      Vai ser um prazer se vc me acompanhar,
      Abs,
      Gustavo.

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  • 06/01/2012 em 12:02
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    Uma delicia de texto, assim como deveria ser os quitutes da doce avô…

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    • 06/01/2012 em 21:13
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      Eram ,porque eram feitos com amor,como voce os faz hoje!
      Bjo
      Seu Tio predileto!

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