Um dia qualquer

Em determinados dias, acordamos com uma sensação estranha. Sabemos o que temos que fazer, mas a vontade nos abandona mal levantamos da cama. Olhando a pessoa diante de mim, não a reconheço. O espelho se desembaça e faço a barba; uma certa tristeza me faz reconhecer aquilo que o tempo se encarregou de mudar. O que me consola é saber que esse sentimento não perdura, pois a vida é mais determinada do que a melancolia.

Tomo o café ainda pensando no fazer inadiável; todos saíram, ainda tenho dois minutos para a última olhada no jornal. Levanto os olhos e vejo as horas que o relógio preso à parede descreve; por terem passado, já me definem a rotina. O ritual diário me acompanha: chaves, carteira, relógio de pulso; verificar na pasta se tudo está onde devia estar. Felizmente, o ânimo, nesse momento, começa a ser outro, afinal, um café quente afasta a tristeza remanescente e o sol que contemplo da janela me aquece a alma.

Enquanto aguardo o elevador, penso que o tempo também pode ser amigo. De fato, se estamos vivos, significa que ainda continuamos, diariamente, a escrever nossa própria história. A porta se abre; já estou decidido a aproveitar o dia. Enquanto desço alguns andares, me deixo levar sem ressentimentos. No quarto andar, uma pausa: minha vizinha, com o filho, entra nesse mundo até então solitário e me saúda com um “bom-dia”. Respondo amável. A criança, que traz nas mãos dois carrinhos de brinquedo, me olha sem pressa e inicia uma conversa.

— Eu gosto de carrinhos!  diz o menino, com o sorriso da certeza das coisas.

— Você gosta?  dou corda.

— Muito!  retruca, e seu sorriso sem preocupações alegra o meu dia.

Sorrio de volta. Ele retoma a função, dirigindo seus veículos em estradas imaginárias. O elevador chega a seu destino. Toda uma nuvem cinza se desfaz pelo olhar de uma criança. Uma sensação tranquila e de esperança calmamente toma conta de mim.

É verdade, não sou mais aquela criança que brincava com seus carrinhos sem preocupação, mas este outro que ocupa agora o espaço e o tempo presente tem um novo lugar; neste mundo adulto, há coisas novas a realizar. Meu passado não me condena; o futuro me espera e irei ao seu encontro. Vejo-me subitamente rejuvenescido e determinado em minhas decisões.

A porta se abre. Mãe e filho saem à minha frente. Vejo-os partir. Olho a criança que, com seus gestos simples e palavras doces, me trouxe o bom ânimo da juventude perdida, que me leva de volta para casa. Mas eis que meu novo amigo se volta, lá na frente, e com um novo sorriso se despede:

— Tchau, vovô!

 

 

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4 Resultados

  1. Cinthia de Castro disse:

    É isso, as vezes demora um pouco para o dia começar sem o peso do ontem, as crianças levam consigo um segredo de simplicidade e confiança, a rotina se torna nova, o percurso de carro para o trabalho é o mesmo mas, se desperta a Luz,( ou sei lá como chamar) tudo tem um valor diferente, a gente comprimenta aquela conhecida árvore o que torna diferente de quando por ela passamos sem ver…
    Um bom dia para você também!
    Cinthia.

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