Um dia o prédio cai…

É difícil de acreditar. Fiquei chocada, abismada, perplexa, e, acima de tudo, insegura diante da tragédia que aconteceu no Rio na última semana, algo dentro da categoria de fatalidades não anunciadas: fica difícil de imaginar que um dia isso pudesse acontecer.

Um prédio não cai de repente. Um prédio não cai sem um motivo plausível. Um prédio não cai, e ponto final. Essa história de morrer trabalhando, estudando, passeando na rua, é inadmissível. Ninguém sai de casa de manhã com medo de não voltar porque o prédio em que vai cumprir sua rotina diária tem chances de desabar. E, por fim, desaba.

Quando escutei aquela musiquinha do plantão na televisão, coloquei a revista de lado e pensei como a maioria: E agora meu Deus, o que foi? Eis que surge William Bonner nos contando que o caos tinha sido instalado no centro da cidade do Rio devido à queda de um prédio. Taí, tinha que ser em janeiro. Estava tudo ótimo, o mês quase indo embora despercebidamente, e pronto, mais uma vez fez questão de deixar sua marca registrada no âmbito das tristezas. E quanta tristeza! A mãe que deixou a filha, a mulher que deixou o marido, o filho que deixou os pais, o pai que deixou os filhos e a tragédia que nos deixou sem ar.

Impossível não comparar ao 11 de setembro dos EUA, afinal, as principais vítimas eram trabalhadores e estudantes tranquilos, certos de que estavam em ambiente seguro (ao menos aparentemente). Mesmo assim, morreram, com toneladas de entulho e fogo em volta. Sorte de quem escapou com vida, sorte daquele que saiu 15 minutos mais cedo do trabalho, sorte de quem teve a irônica imprudência de se jogar dentro do elevador, sorte de quem atravessou a rua segundos antes, sorte que era nove da noite e não nove da manhã.

No dia seguinte, vêm as histórias noticiadas pela mídia. Duas em especial chamaram a minha atenção: a do rapaz que atendeu o telefone da namorada desesperada, três horas depois do desastre, e disse apenas: “Oi, meu amor”. A linha caiu  e ele segue em silêncio até agora; outra, foi o depoimento mais infeliz e impróprio que já escutei na vida, a dona do edifício Colombo, o terceiro a cair, sinceramente devastada e triste, porque o prédio art déco de 1930, cheio de “rococó”, construído pelo avô, tinha vindo abaixo e virado pó. Sei, e as famílias das pessoas que viraram pó? Vamos apresentar para ela a velha e sábia expressão: vão-se os anéis, mas ficam-se os dedos. Talvez a senhora, que não perdeu parente nenhum na tragédia, se arrependa de ter falado isso em público e em rede nacional, perante tantas outras pessoas que, sim, perderam seus “dedos”, enquanto ela perdeu apenas o “anel”.

Mas é isso. Talvez quem tem síndrome do pânico é que esteja mesmo certo: o teto cai quando menos se espera.

 

 

4 comentários em “Um dia o prédio cai…

  • 31/01/2012 em 18:32
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    Pois é Júlia, aonde nós vamos parar!?Vc arrasa sempre!Faço minhas as palavras do Gustavo!Amo suas crônicas.Bjão querida!

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  • 31/01/2012 em 18:10
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    Obrigada Gustavo! Fico feliz de tocar as pessoas com os meus textos. Eu adoro os seus também.

    grandes bjs

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  • 31/01/2012 em 17:02
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    Oi Julia

    Seu texto mexeu comigo.Sincero e triste.Você escreve com o coração,e por isso suas palavras são tão verdadeiras!
    Abs,
    Gustavo.

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