Um artista nunca é pobre

Sobreviver de arte, fazer da arte seu ganha-pão: uma escolha sempre considerada  muito difícil, melhor escolher aquelas profissões e ofícios em que se pode ter um emprego com carteira assinada, direitos trabalhistas e aposentadoria.

Entre os que optaram por fazer arte, ouvem-se muitas histórias do cara que é pintor, poeta, escritor, por exemplo, porque teve as costas quentes, pai rico ou equivalente. Ou então o fulano tinha (porque o jogo só acaba quando termina… rs) um talento extraordinário, especial, que teve que ser reconhecido e bem pago. Ou sorte, mesmo. Depois, outras, da velhice falida de algum grande artista… Afinal, viveu demais e a velhice chegou, com suas agruras.

Um dia aí dessa semana, e isso me acontece de vez em quando, acordei com uma frase na cabeça: “Um artista nunca é pobre”. Investiguei, investiguei e acabei encontrando sua origem: foi retirada do filme “A Festa de Babette”, filme dinamarquês baseado no romance de Isak Dinesen, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988 e a que já assisti várias vezes.

Resumindo ao máximo: em 1871, num vilarejo na Dinamarca, chega uma senhora francesa fugida da guerra em Paris, na qual tinha perdido tudo, a conselho de um antigo amigo de duas beatas que lá sempre tinham vivido e pedira que a acolhessem. As senhoras eram pobres, mas tudo se ajeitou e a francesa ficou lá até ganhar um dinheiro numa loteria e resolver gastá-lo todo no jantar do que seria o aniversário de 100 anos do falecido pastor, pai das duas.

Ao final do que foi um banquete para os olhos, visão e paladar, as senhoras ficaram pasmas com o gesto da francesa: então seria pobre para o resto da vida… Ao que ela responde: “Um artista nunca é pobre… um longo grito do coração dos artistas ecoa no mundo: me dê a oportunidade de dar o melhor de mim!” E uma das senhoras comenta que sente que isso não é o fim: como ela há de encantar os anjos no Paraíso!

Fiquei muito emocionada, porque eu também tinha essa ideia de que arte é só para situações e pessoas com alguma oportunidade a mais na vida do que as pessoas comuns; mas me lembrei de outro artista que não teve nada disso, pelo contrário: Arthur Bispo do Rosário, que após um surto com alucinações e delírios aos 29 anos foi detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos e indigente; internado na Colônia Juliano Moreira, onde recebeu o diagnóstico de esquizofrênico-paranóico, lá permaneceu por 50 anos.

“Em determinado momento, Bispo do Rosário passou a produzir objetos com diversos tipos de materiais oriundos do lixo e da sucata que, após a sua descoberta, seriam classificados como arte vanguardista e comparados à obra de Marcel Duchamp”, diz a Wikipédia.

Tive a felicidade de ver a exposição das obras dele, depois de morto, no Parque Laje. Na apresentação do artista, na entrada, constava, entre seus dizeres que ele “ia criar o Universo”. O esplendor da exposição foi tal que na saída me sentei para chorar, com uma amiga, porque ele realmente tinha criado o Universo!

Agora, refletindo, penso que arte é o que nós estamos sempre fazendo por gosto, muitas vezes procurando uma ocupação rentável em outro lugar. Como disse Babette, não há pobreza em dar o melhor de si. Não é necessário procurar ganhar dinheiro. Dar o melhor da cada um no que fazemos nos trará abundância, e seremos artistas seja lá do que for.

Como disse um general que prestava contas consigo mesmo sobre as escolhas que tinha feito na vida durante o jantar, apaziguado, num pequeno discurso sobre a Graça que começa com o mantra dos velhinhos: “Piedade e verdade se unem. Justiça e paz se abraçam”.

Bom fim de semana pra vocês!

 

 Publicada também aqui

9 comentários em “Um artista nunca é pobre

  • 01/09/2012 em 15:56
    Permalink

    Mais uma vez… Parabéns, Rosângela!
    Você consegue ser poética e sucinta em suas crônicas, mesmo abordando um tema tal que daria laudas e laudas em papel Bíblia e letras minusculas…
    Obrigado!
    Eu que me sinto artista e até hoje só vendi um quadro, continuo produzindo, sempre…
    Continue escrevendo, sempre…
    Você é um Artista!
    E Um Artista nunca é pobre!
    Abraço.
    Raul Augsto

    Resposta
  • 01/09/2012 em 12:19
    Permalink

    Do outro lado obsrevamos como a industria “Mediatica” FABRICA artistas para eludir as massas..! Eles promovem “artistas” escritores, músicos, pintores de qualidade duvidosa… e deixam de lado os verdadeiros…Pessoalmente sei disto, temos grandes Artistas… que são “eclipsados” ..

    Resposta
  • 01/09/2012 em 10:20
    Permalink

    Rosângela, fiquei emocionada com a sua crônica, eu tb chorei nessa exposição. E não parei aí, fui à Colônia, conheci a Denise, que tinha sido psicóloga do Bispo, trabalhei para arrumar dinheiro para um livro do Frederico de Morais sobre o Bispo, lutei com muitos outros, que lutaram mais do que eu, para transferir os restos do Bispo de uma gaveta que precisava ser liberada e dar a ele uma sepultura decente, me envolvi loucamente com a história toda, sem trocadilho. Foi uma época marcante. Fora que a riqueza de ser artista é mesmo isso tudo aí que vc escreveu. Beijos!

    Resposta

Deixe você também o seu comentário