Tudo bem?

tudobemQuando alguém me faz esta pergunta, assim, genericamente, sem se referir a algum acontecimento importante e mais ou menos público na minha vida — casou, mudou, doença, trabalho novo, apareceu na televisão, e outros tais —, a resposta automática é: “Tudo bem, e com você?” Geralmente vem mais um “tudo bem, também” de volta. Se estou num lugar com várias pessoas, tipo uma festa ou outro evento público, a impressão que tenho é que assim, nos meus arredores, pelo menos, está tudo bem.

Claro que sei de todas as barbaridades e terrores que estão nos jornais todos os dias, mas é tudo longe, coisas que aconteceram com uns desafortunados, por razões altamente misteriosas. Quanto mais longe esses acontecimentos, menos tempo doo do meu pensamento para tentar entendê-los. Tudo bem, então.

Entretanto, nas frestas dos dias em que estou sozinha comigo mesma, entre salas num escritório, indo ao banheiro, tomando banho, comendo, ou seja, quando não estou num relacionamento, mesmo que fugaz ou virtual com alguém, começo a sentir um desconforto indefinido. Um medo sub-reptício passa pra lá, como uma enguia no mar; um arrependimento cruza o céu do meu pensamento, uma tristeza ameaça se aproximar, ainda lá longe no mar, anunciando uma chuva fina que molha empapando. Reajo: Peraí! Como se combate mesmo isso, segundo os livros de autoajuda e congêneres, ou direto da fonte, dos filósofos, ciência ou religiões, quais os meios de enfrentar o maligno?

Ah! Pensando nas coisas boas que tenho, nas minhas vitórias, em quem me ama e em quem eu amo e nos etcéteras de cada um. Quando nada, em estar vivo! Bem. Ufa. E vou em frente que atrás vem gente, e se eu reclamar alguém vai sugerir que eu encare um tanque de roupa suja.

Quanto estou em ação, todas essas assombrações vão para um segundo plano, mas quanto mais repetitivas minhas ações, mais as tais se aproximam. E, na maior parte do tempo, vivemos o nosso cotidiano em que um dia não é muito diferente do outro. Para haver a realização de alguma coisa, é necessário continuidade, e isso força várias repetições. Acontece até mesmo com os artistas, de qualquer vertente da arte, que nos passam a impressão de que estão a se divertir enquanto fazem o que deveria ser trabalho.

Longe de mim afirmar que todos passam por esses mudos hiatos de insatisfação. Não posso conhecer o íntimo de ninguém, mas me parece que há pessoas que estão suficientemente satisfeitas o tempo todo. Ou quase. Essas não precisam de gurus, rezas, exercícios de pensamento positivo, meditação, nada para estar assim, tão descaradamente contentes! São assim, sorte deles. Sorte? Não creio nisso. Eles praticam, todos os dias, alguma coisa que os outros normais parecem desconhecer, e desconfio que o segredo está no tipo de relacionamento que mantemos com os outros, com as circunstâncias, e, principalmente conosco mesmos, já que somos nós que damos a interpretação — quer dizer, contamos para nós mesmos o que está acontecendo, julgamos e optamos por alguma ação, reação ou não ação.

Há todo um universo de interpretações. Literalmente. Quem pisou no meu pé e pediu desculpas pode estar de marcação comigo, ou é um tarado que gosta de ver a dor alheia, calculou mal, e aí o veredicto vai desde “esse FDP forçou a passagem e pisou no meu pé de propósito para abrir caminho”, até o “foi sem querer, estava distraído, não tem importância”.

E essa interpretação, companheiros, vem historicamente marcada nas nossas células desde o tempo das calendas gregas, mais todos os nossos antepassados e as reformas que foram nos moldando a partir dos nossos contatos com o mundo externo.

Pois, dá para mudar, se não gostei? Claro que dá. Copiando, naturalmente. Imitando o que parece que dá certo para os outros. Sem roubar nem trapacear. Tateando mesmo, até acertar. Geralmente, o que dá certo é o óbvio. Elementar, meu caro Sherlock!

 

 

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12 Resultados

  1. Obrigada, Lucia. Seu comentário me fez muito bem! Bjo!

  2. Lucia disse:

    Essa sensação de mal estar quando nos vemos diante das repetições que parecem tolher nossa ação -isso é da condição humana.O que varia é o quanto se tem de sensibilidade e vulnerabilidade,eu acho. Mas o humor é fundamental para a sobrevivência.No seu caso,humor inteligente e afiado.

  3. mannachado disse:

    voce realmente tocou a todos…parabens pela cronica….

  4. Agradeço seu comentário! Quase entendo o que vc disse.

  5. manuelfunes disse:

    Vivemos num universo “pessoal” pasmem de +/- três dias de consciência temporal, presos a cinco sentidos e uma telinha de projeção de 1 polegada quadrada na parte posterior do cranio e nada mais. O resto é uma ilusão de espaço e tempo criada pela mente para nos deixar tranquilos! Uma gaiola psicológica!

  6. Muto obrigada, Priscila! Apreciei muito a sua apreciação! Bjo.

  7. Priscila disse:

    Boa maneira de se encarar as adversidades. Excelente crônica.

  8. olney figueiredo disse:

    Legal!

  9. Raul Augusto disse:

    É isso aí! Mudar! Se melhorar, MELHORA!
    E aceitar o que não podemos mudar!
    Parabéns!
    E vamos em frente que atrás vem gente!

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