Trombada

naobrigueEra um sábado de carnaval muito calmo para uma cidade da Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro. Havia gente na orla, mas não havia excessos. Talvez fosse cedo para foliões bebuns. O relógio ia se aproximando das vinte horas, quando o céu finalmente perdeu o azul, no horário de verão.

Famílias inteiras se reuniam em volta de taças coloridas na sorveteria, homens e mulheres saiam da padaria com sacolas de pão francês quentíssimo, da última fornada, pais e filhos se divertiam no parquinho, bebedores de cerveja conversavam e riam nos quiosques, casais se abraçavam, sentados na areia, a apreciar as primeiras estrelas.

Quem dobrasse a esquina dos sorvetes, adentrando a perpendicular à praia, se afastaria de modo quase instantâneo do burburinho, e veria o homem simples, de estatura mediana, camiseta “machão”, bermudão e havaianas no pé, caminhando tranquilo até o instante do esbarrão.

O tranco foi forte. O corpo ia sereno com a passada larga e o ombro esquerdo ficou pra trás, forçando o caminhante, que vinha de frente, a cambalear de leve e parar de súbito e de lado. O cenho franziu-se totalmente, indicando a contrariedade do sujeito, o olhar cravou-se firmemente no suposto agressor, a postura ficou rija na espera do pedido de desculpas, formal ou informal, um sinal mínimo de respeito para salvar a paz da noite de sábado. E nada.

O silêncio absoluto recebido exasperou o aparentemente pacato cidadão. “Que que é isso, rapá?”, foi a primeira frase do agredido. “Tu vai passando assim, quase leva meu braço e tudo bem?”

Uma senhora que vinha em direção à orla olhou com desconfiança e passou pelo asfalto, evitando o local do conflito iminente, enquanto o homem continuava a exigir retratação em tom mais alto.

“Aí, meirmão, num vai pedir desculpa? Pelo menos fala aí que foi mal. Que que é? Vai ficá parado, olhando na minha cara? Tá me achando bonito?”

Três senhores, carregando suas sacolas de pão, pararam a curta distância, talvez dispostos a organizar a turma do deixa-disso. O ofendido não queria deixar daquilo.

Cumé que é, ô punga! Num vai falá, não? Num tô gostando disso. Quem fica encarando caladinho é mulé e tu tem ombro duro. Só se tu é viado. Sabe o que mais? Tu é um paspalho!”

A última palavra deu ao pequeno grupo masculino que se formara ao redor da cena uma pista do real estado do reclamante. O “s” soou arrastado e o “p” quase ficou preso entre os lábios, resultado provável dos estágios iniciais da famosa voz pastosa. Os primeiros sorrisos apareceram nos rostos voltados para baixo dos transeuntes, que se afastavam discretamente. O cidadão injuriado também retomou seu caminho, ainda falando alto. Foi diminuindo o tom e a velocidade da voz, enquanto aumentava a intensidade dos xingamentos. “Cara de pau, bunda mole, sacana, abusado”. Pisava duro e ainda olhou pra trás duas vezes antes de fazer a curva e sumir no calçadão. O poste continuou onde estava, firme e silente.

 

 

Rosimêre Fonseca de Moura

Rosimêre Fonseca de Moura é carioca da gema. Nasceu na Boca do Mato e foi direto para a fronteira entre o Rio Comprido e o Estácio (holy Estácio). Muitos rios passaram em sua vida, incluindo aquele desfile memorável da Portela; geraram uma cálida preferência pela combinação entre azul e branco e uma tórrida paixão por sua cidade natal. Quis ser sambista, sonhou ser astronauta. Formou-se professora de Português e Literaturas de Língua Portuguesa, publicou dois livros e centenas de crônicas e contos em veículos de circulação restrita. Assina, também, o blog Textos Curtos (http://textcurt.blogspot.com). Seu livro de contos, Além das cortinas, foi publicado pela KBR no dia 8 de março de 2013, Dia da Mulher, e estreou com destaque na Amazon .

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