Tristeza no sertão

Quando o tempo era antigo e as pessoas moravam de forma simples, uma menina vivia com a família nas terras de um senhor, onde seu pai trabalhava como peão e lenhador: corria atrás do gado, tirava leite, consertava as cercas. A esposa cozinhava para a peãozada. Eram mais de quinze, sim, senhor; arrumava a casa grande e vivia com o marido e dois filhos naquele labor.

É. Naquela época eram dois: Rita, a mais velha, e Antônio, o caçula. A fazenda era de gado e ficava às margens do Rio São Francisco, no centro-oeste mineiro. A menina não tinha bonecas, coisa de luxo que só se encontrava na cidade, mas quando fez oito anos, o pai lhe deu para companhia uma linda porquinha.

A menina adorava o bichinho, rosado igual flor do campo. A danada da porquinha era esperta e atrevida; corria e seguia a menina para todo lado. E assim iam as duas, correndo pelo quintal e cuidando só de brincar. À companheirinha, a dona deu o nome de Chica, pois era quase uma mocinha. Assim eram os dias de Rita, sempre bem-acompanhada.

Era um tal de “Chica vem cá”, “corre aqui”, e um tanto mais de brincadeiras e gritaria. A mãe achava engraçado ver tanta alegria, enquanto estendia no varal a roupa da pequerrucha de cabelos loiros. Mas no mundo nada é perfeito, e, como era época, começou a chover em abundância. O rio amigo se avolumou, escureceu e começou a se esparramar além de suas margens. Na fazenda havia um córrego que corria manso no fundo do quintal, mas que começou a mudar ao receber água da vazante, crescendo na largura e se aprofundando. A mãe de Rita, vendo que a cada dia a chuva descia com mais força, disse à filha com rigor:

— Rita?

— Sim, mãezinha!

— Não quero te ver perto do córrego, ouviu?

— Ouvi, sim, senhora! Não vou, não.

Porém, apesar de a menina ter escutado o aviso da mãe, a porquinha não prestou atenção. E ia que ia brincar no barro nas margens do ribeirão. Rita ficava brava, pois o animalzinho desobedecia a uma ordem dada e ainda sujava o laço que a dona lhe dera de coração:

— Chica! Você sabe que não pode ficar aqui! — Dizia a menina olhando para a  porquinha rosa, que ouvia e grunhia baixinho e dava dó de olhar. Ela ia fazendo assim, até a menina se abaixar e levar a mocinha de volta para o lugar.

Mas a chuva não deu trégua; começou a trovoar. Descendo devagar pelo rio, uma cobra grande encontrou nas beiras o lugar onde o córrego, sem saber, ia desaguar. A serpente resolveu entrar por ali, procurando, do seu jeito, algo fácil de caçar. Era das grandes! Uma sucuri de respeito, de mais de 12 metros, se fossem medir com jeito. Sem perceber o perigo, a porquinha brincava no barro. Veio a cobra deslizando, coleando lentamente e chegando devagar. Enquanto isso, a porquinha, satisfeita, metia a barriga na lama, sem se preocupar.

Nesse entremeio, Rita notou que estava faltando algo, parecendo mesmo que uma coisa estava fora do lugar. Quando se deu conta do que tinha desaparecido…

— Chica, aquela porqueira de brincar! — Ouviu um guincho de arrepiar.

Correu em direção do córrego, assim, desabalada. Chegou à margem. Foi aí que viu o bicho mais feio que já se vira naquele lugar. A cobra, grande e grossa como um pau, mordia a perna de Chica, que gritava sem parar. A menina, num rompante, segurou sua amiga pela ponta que a cobra não conseguia pegar. Começou uma batalha: de um lado, a criança puxando, puxando sem parar. De outro, a sucuri animada com o jantar. A cobra percebia que a menina ia vindo, vindo junto, num só arrastar.

Mas eis que o destino, ou foi o Deus-menino, ninguém sabe explicar, fez surgir naqueles lados a Geralda lavadeira, carregando o tacho com as roupas para lavar. Quando se aproximou do córrego, aí começou a gritar:

— Acode, acode, gente, tem cobra grande neste lugar!  Acode, acode, que ela está querendo a menina levar!

Foi gritando e descendo o barranco sem parar:

— Acode, acode, gente, que ela vai nos matar!

Sem saber o que fazer, Geralda jogou o tacho no bicho, para ter um modo de separar a menina e a porquinha da cobra e seu jantar. O tacho voou sem rumo, acertou a Rita de raspão e caiu longe da cobra, por azar ou emoção. Rita gritou de dor:

— Ai! — E caiu devagar.

Soltou as pernas da bichinha, que a cobra engoliu num piscar. Geralda puxou a menina, enquanto o povo do lugar, reparando a gritaria, se apressou com corda e pau ajudando o pai  a resgatar.

A cobra, engasgada com o que acabara de jantar, não teve força nem ligeireza para escapar. Os homens a laçaram com a corda que alguém trouxera, pensando que a filha do homem tinha caído em algum lugar. Amarraram a boca do monstro e arrastaram o bicho, tirando o rabo, o corpo e o tronco das águas, bem devagar. A tal era grande e, mesmo engasgada, começou a fazer força para ao rio voltar.

Don’Ana, a mãe da menina, chorando, abraçou a pequena, que olhava para o rio, para a cobra, para o lugar. Na mão dela, pendendo assim, dolente, ficara o laço cor-de-rosa, resto de um doce sonhar. A Rita olhou então para a mãe, com os olhos cheios de água. Nas águas onde Chica brincava, Chica já não estava lá!

A mãe não gritou com a filha; abraçou-a junto ao peito e agradeceu a Deus e à amiga Geralda (que não parava de chorar). Os homens carregaram o bicho para a casa grande da fazenda; alguém trouxe um caixote grande, destes que carregam coisa pesada, sem assustar. Puseram a cobra lá dentro, pregaram na abertura tábuas grossas e fortes, com pregos dos grandes, para ela não ter mais surpresas nem chance de escapar.

Naquela noite, dois barulhos bem distintos surgiram sob o luar. No quarto, uma menina chorava, chorava bem devagar. Os olhos vermelhos e o cansaço esperavam o sono chegar. Do seu lado, zelando por seu sossego, a mãe debulhava um terço, parte da promessa que teria que realizar. No porão, o baque seco de uma cobra revoltosa querendo escapar. Mas o caixote resistente prendia o bicho, descontente com o desfecho no lugar.

Quando o dia amanheceu, um tanto de homens apareceu. Empurraram o caixote para a carreta do trator; levaram o malefício direto para o trem e pagaram o trocador. A cobra foi entregue no instituto da capital e tratada com respeito. Ali permaneceu, manjando um tanto de bicho, como era seu direito.

A menina, com o tempo, se acalmou. Mas nunca se esqueceu do bicho assustador que comera o seu bichinho, criado com tanto amor.

 

 

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