Transparências

cristaisNão sei por que cargas d’água comecei a pensar em coisas translúcidas, visão alongada. Pode ter sido influência de um documentário a respeito de uma formação extraordinária, encontrada no México por mineiros de chumbo: uma caverna de cristais. Viajei loucamente diante de tais imagens. São blocos e mais blocos de cristal de rocha transparente, na maioria em formato losangular, lembrando colunatas, alguns medindo mais de onze metros. Crescidos de e para todas as direções, os blocos cristalinos transformaram seu reduto em uma espécie de cenário mágico e traiçoeiro, uma floresta de troncos, com inflorescências pelo chão e pelo teto, ou de lâminas gigantescas, prontas a cortar a carne de quem as toque, assim como cortam a menor gota de luz em numerosas fatias de cor.

Tão intenso reluzimento pode ser perigoso. Visão ofuscada. Muita transparência pode ser prejudicial. Panos de vidro. Conheço diversas histórias de crianças e adultos vitimados por paredes de blindex incolor. Excesso de transparência é igual a invisibilidade. Situação muito perigosa para todos nós.

N’O Globo de domingo passado, li matéria versando sobre uma pesquisa realizada em livros didáticos israelenses e palestinos. Os pesquisadores alegaram não ter encontrado “demonizações do outro” em nenhum dos lados, mas a maioria das publicações distorcia aspectos da realidade atual, mostrando, por exemplo, mapas sem as fronteiras e boa parte das terras de Israel, e mapas sem a demarcação da Linha Verde e de territórios palestinos. Tenho preocupação com essas novas gerações. Como negociar respeito mútuo (acordos de paz) quando já se coloca a outra parte como invisível?

E toda aquela conversa, de alguns anos atrás, a respeito de livros didáticos norte-americanos mostrando a Amazônia como área internacional? É o Brasil transparente (e alguns vizinhos também).

Aliás, em nosso país, tenho visto crescer o anseio por maiores transparências em tudo. E essa ânsia se reflete em ocorrências por vezes desconcertantes. Haja vista o estrondoso número de telespectadores a acompanhar o esvaziamento de valores humanos que constituem os diversos reality shows em exibição. Ou a divulgação irrestrita dos vencimentos dos servidores públicos. Essas coisas me assustam.

No primeiro caso, o público parece possuído por um voyeurismo distorcido, já que não é o sexo a se mostrar explícito ali, e, sim, o declínio das relações entre os participantes, o desnudamento de suas faces mais brutas, como se a sociedade procurasse um espelho incapaz de refleti-la, porque fictício, mas, simultaneamente, capaz de lhe dizer não, não é você, mas, sim, há quem aja igual ou pior que você. Assim ficamos todos justificados em nossas falhas, diluídos pela imersão na máquina de liquefazer raciocínios críticos, ficamos pasteurizados, amorfos, translúcidos.

No segundo caso, a sociedade parece ter escolhido o lado errado para abrir os baús herméticos da corrupção. Publica-se a folha de pagamentos dos órgãos públicos e isso pode ser bom para motivar uma luta pela elevação do salário mínimo, mas não traz qualquer avanço na prevenção de práticas irregulares. Se a ideia era tornar bem conhecido o percentual gasto com os salários, bastava exibir (em porcentagem e em reais) a rubrica a eles destinada nos orçamentos da União, dos Estados e dos Municípios. Se a ideia era mostrar que nossos impostos pagam salários altos, minha confusão aumenta. Porque os assalariados do setor público também arcam com impostos, taxas e todos os tributos determinados. Ou seja, eles pagam parte do próprio salário. E digo mais: os servidores são públicos, suas vidas privadas não. Estamos diante de uma quebra coletiva de sigilo bancário-fiscal? Fomos capturados pela ilusão da estanqueidade? Na verdade, o dinheiro circula pelos três setores da Economia permanentemente. Basta lembrar que é com a arrecadação tributária que os governos pagam suas contas, incluindo bens e serviços de toda ordem, desde um grampeador até a contratação de grandes obras. Então os nossos impostos pagam parte dos ganhos e salários do setor privado. Devíamos saber como andam esses salários? Que tal publicá-los? Muitos cidadãos podem estar interessados. Especialmente aqueles dados a praticar sequestros e latrocínios.

Penso que navegamos por mares ilusórios. Ilusões nas escolas, fomentando a invisibilidade do outro, a completa indiferença. Ilusões de participação e reconhecimento em jogos pré-determinados, com fins lucrativos. Ilusões de transparência, invadindo a privacidade de algumas parcelas da sociedade. Todas materializando muros muito opacos a impedir uma visão realmente mais longa, mais abrangente, que nos leve à conclusão de que as departamentalizações, as estratificações sociais, as fronteiras e afins são ferramentas esquemáticas úteis à compreensão de características e modos peculiares, mas não alteram a realidade de vivermos num único planeta, com capacidade limitada de produzir as riquezas efetivamente necessárias à vida, do qual ainda não temos meios de escapar.

 

 

Rosimêre Fonseca de Moura

Rosimêre Fonseca de Moura é carioca da gema. Nasceu na Boca do Mato e foi direto para a fronteira entre o Rio Comprido e o Estácio (holy Estácio). Muitos rios passaram em sua vida, incluindo aquele desfile memorável da Portela; geraram uma cálida preferência pela combinação entre azul e branco e uma tórrida paixão por sua cidade natal. Quis ser sambista, sonhou ser astronauta. Formou-se professora de Português e Literaturas de Língua Portuguesa, publicou dois livros e centenas de crônicas e contos em veículos de circulação restrita. Assina, também, o blog Textos Curtos (http://textcurt.blogspot.com). Seu livro de contos, Além das cortinas, foi publicado pela KBR no dia 8 de março de 2013, Dia da Mulher, e estreou com destaque na Amazon .

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