Transar: verbo intransitivo

A filha de Elói Custódio tem treze anos. Treze. E ela… transou: é este o verbo que debilmente tenta manter sob um eufemismo as escancaradas construções vocabulares da rapaziada. E com treze anos, ninguém “faz amor”. Só a Brooke Shields. Então, a filha do Elói “concedeu-se” a um rapaz do colégio. Do ensino médio. Ela está no oitavo ano. Nossa Senhora.

A mãe veio com essa conversa. Elói tinha acabado de chegar do sacolão, feliz com os espinafres que ia pôr na omelete. Ia até tomar um conhaquinho, ver a reprise de Milan x Real Madrid, pés pra cima. A cerveja gelando desde ontem. Mas a filha de treze anos fez o favor de transar. O celular dela ainda é rosa. Ela deu sua florzinha rosa. Meu Deus do Céu.

A esposa, com seu ar de Marta Suplicy nos tempos da TV Mulher, disse que sexualidade precoce na adolescência é símbolo da pós-modernidade. Adolescência?! Para Elói, a Rafa é uma criança! Tudo bem que ela é grande e maravilhosa e tem um cabelão, mas os tecidos de seus lábios ainda estão se apertando! E o Gustavo, do primeiro ano, comete tal vilania com seu anteprojeto erétil de músculo!

Elói Custódio queria diminuir a ardência. Tentava não se lembrar da Rafa gungunando no seu colo em Ubatuba. Não a estava vendo colorir um gatinho, nem se recordando do dia em que ela lhe disse “Eu te amo” depois de ganhar o primeiro computador. E o dia em que ganhou a edição especial de Iracema? Ela xingou tão bonitinho… Foi a cara feia mais bonita que ele já vira. Não, Elói não tinha mais esse tipo carrasco de reminiscência.

O pai também nunca mais pensou no dia em que viu Rafa na tentativa de se inaugurar mulher, com cara maquiada de fatal. Não projetou que Rafaela, doutora, lhe daria um relógio da 25 de março no Dia dos Pais. Elói realmente não era de ficar encucado com esses lances melosos. “Eu batizei essa menina, Gustavo”, ele não resmungou.

E a esposa veio lhe dizer que seria preciso abrir o diálogo, pois hoje em dia não existe mais esse negócio de dar corretivo, de fazer escândalo por algo tão comum. E aquele papo de salão: “A Luísa viveu o mesmo problema e administrou tudo com a maior naturalidade. Levou a menina ao médico e marcou um encontro com a mãe do rapaz, para que tudo fosse resolvido em alto nível.”

Elói queria mandar o mundo para a multa que extorquiu, moer o chinelo na filha, enfiar a mão na cara do cara e na cara do pai do cara junto. Queria melar a peixada na casa do Itamar da farmácia, acordar todos os padres da casa paroquial, jogar um sapato no Obama, entrar pra legião dos fiscais da dengue.

Elói se imaginou matando, na unha, os hormônios sacanas da filha, um por um, como se mata piolho. E a esposa diz que não se pode falar palavrão, que é preciso ser um pai moderno, manter a classe…

Elói Custódio Salgado estava maquinando o pessoal da sauna. Ficaria pior se ele parasse de frequentar. Já se imaginava lá, no fundinho, totalmente coberto pelo vapor, o peito queimando. E o pessoal só entrevendo, só cumprimentando, sem puxar nenhum papo, sem fazer nenhuma brincadeira, afinal, não se brinca com a desgraça dos outros.

O pior é que a Rafa vai querer transar de novo, porque o negócio é bom pra caramba. E Elói projetava a mansidão de pai a recomendar: “Põe a camisinha na bolsa, minha filha. Agora pode ir com Deus”. E Elói ficaria naquela paranoia durante toda a noite, viajando que a camisinha poderia estourar, que um espermatozoide escaparia no meio do rala-e-rola para cruzar o canal da mancha. No outro dia, acordaria com todo o rigor para tomar a providência mais enérgica: dar o beijinho de sempre na testa da Rafa.

Atenção, civilização do descolamento! Elói Custódio já vai avisando que não vai ter esse negócio de transar em sua propriedade!  Pai que é homem não leva desaforo pra casa!

O interfone está tocando na cabeça de Elói Custódio. “Se for o Gustavo, eu mato ele”.

 

 

4 comentários em “Transar: verbo intransitivo

  • 06/09/2012 em 14:54
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    Uma ótima visão sobre esse tema. Meu irmão acabou de conhecer o primeiro namorado de sua filha de (13 anos) agora fiquei imaginando a cara dele quando souber que ela transou.

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  • 06/09/2012 em 10:51
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    Ótimo texto, tratando de forma leve um tema que é sempre espinhoso para quem está diretamente envolvido. Recentemente, em conversa com um amigo, perguntei o que ele achava de meninas de 13, 14 anos transando, e ele me respondeu com uma pergunta: “Você está falando da MINHA filha ou das filhas dos outros?”. Realmente, tudo é hilário até acontecer com a gente. De novo: ótimo texto!

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    • 06/09/2012 em 15:46
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      Muitíssimo obrigado, Celso!

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