Tipos inesquecíveis

Cresci lendo Seleções do Reader´s Digest, e confesso que lá aprendi várias coisas úteis. Um amigo do meu pai, que colecionava a revista, foi o patrocinador involuntário dessas leituras. Naquela época as crianças acompanhavam os pais, sem discussão ou democracia, e era comum minha família acabar as tardes de sábado ou domingo na casa do tal amigo. Ler Seleções era infinitamente mais agradável do que assistir em silêncio à conversa dos adultos.

A revista tinha várias seções fixas, entre elas “Meu tipo inesquecível”.  Os autores costumavam louvar uma figura edificante, com expressões do tipo “Ninguém fazia um bolo de chocolate como a minha avó” ou “Ele estava sempre disponível para ajudar os vizinhos”.  Eu me desesperava, imaginando que, se tivesse de apontar um único tipo inesquecível, não conseguiria, mas ficar por baixo em relação àqueles americanos todos, nem pensar!  Foi assim que montei uma galeria de candidatos a tipo inesquecível, embora nenhum seja exatamente o que a Seleções esperaria dos seus leitores.  A Rosineide, por exemplo:

— O homem foi à Lua.

— Foi nada! É armação da Rede Globo. Acha que eu sou boba de acreditar nisso?  Tudo por causa do Ibope.

— Mas há provas. Trouxeram pedras de lá.

— Pedras?! Pedras tem em todo o lugar.  Qualquer um pode arrumar um monte de pedras e dizer que trouxe até do Céu.

— Os cientistas estão estudando as pedras e aqui não há nada parecido.  São da Lua, mesmo.

— Onde já se viu estudar pedras?!  Lá no meu quintal tem um monte. Tudo igual. Pedra é pedra. Não tem daqui ou dali. Eu vim do interior e não vejo a menor diferença entre as pedras daqui e as de lá.

— Você não acha que, se fosse mentira, alguém já teria descoberto?

— E você pensa que a Rede Globo não é esperta?  Ela comprou as testemunhas.

Discutir com a lógica implacável da Rosineide era inútil.

— Tome cuidado com os pratinhos debaixo dos vasos de plantas.  Pode criar mosquito da dengue nessa água parada.

— Até pode ter mosquito, mas como é que um mosquito pode causar doenças?  Um mosquitinho de nada. No máximo ele te morde e faz um calombo.  A gente só tem que ter medo de bicho grande. Leão, por exemplo, se eu topar com um, vou morrer de medo. Mas mosquito, eu dou um tapa nele e acabou.  Ele é que tem que ter medo de mim.

Rosineide desconfiava mesmo de tudo.

— Os médicos matam a gente com tanto remédio. Eu não tomo.

— Graças aos progressos da medicina as pessoas estão vivendo mais.

— Minha avó viveu até os cem anos e nunca tomou nada disso. Agora há um monte de doenças novas que eles inventam só pra vender remédio.

— Essas doenças sempre existiram, mas não eram estudadas.

— Bobagem. É conversa pra assustar o povo.  Ficam falando nessas tais de bactérias.  Nunca vi uma bactéria.  Eu não acredito.

— Mas você acredita em Deus e também nunca viu.

— Ah, mas isso é diferente. Todo mundo sabe que Deus existe. Você duvida porque não vai à missa. Se fosse, ia saber.

 

Rosineide morreu sem acreditar em bactérias nem que o homem foi à Lua. Deus deve tê-la recebido de braços abertos. Eu continuo sem conseguir eleger o meu tipo inesquecível, mas posso, de imediato, nomear uma dúzia de tipos que gostaria de esquecer.

 

 

 

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