Tieta… gem

por Cláudia Vasconcelos

 

Novelas? Assisto sim.

Não me venha dizer que é anticultura. Elas sempre acrescentam algum conhecimento, principalmente por mostrarem pedaços e culturas brasileiras que desconhecemos: esmiúçam o palavreado, o jeito, a gastronomia, os lugares típicos, os preconceitos, os grupos sociais, o recato, a malandragem, as sutilezas, as delicadezas, os dramas, os segredos e tantos outros adjetivos que nos enredam em entendimentos.

A experiência de ser telespectador, na prática, nos coloca na posição de críticos; e haja talento do autor(a) para que seja prazerosa. A construção do texto, os personagens, os diálogos, o suspense, a continuidade, a direção, a escolha das locações, dos atores e atrizes, dos figurinos, a caracterização, a trilha sonora — tudo que envolve a produção em si — é um processo meticuloso, e seu objetivo é entreter aquele que as assiste.

Jorge Amado era um construtor de histórias com personagens marcantes, e isso foi constatado pelos milhões de leitores de seus livros. Um, em especial, teve desdobramentos em outras mídias: “Tieta do Agreste” virou novela da Rede Globo em 1989, filme de Cacá Diegues em 1996, além de musical em 2008, estrelado por Tânia Alves.

Eu, leitora voraz, não fiquei impune à leitura envolvente do livro, e vibrei no lançamento da novela. Ah! Essa novela… a adaptação televisiva do romance me cativou, ou melhor, me transformou em prisioneira da tela, uma refém do horário das oito.

Tieta é expulsa de casa por Zé Esteves, seu pai, devido ao seu comportamento liberal. Humilhada, foge para São Paulo. Reaparece em Santana do Agreste vinte e cinco anos depois, com o intuito de se vingar da família e daqueles que a maltrataram no passado. Rica e poderosa, seu aparecimento causa furor na pequena cidade e muda a rotina dos moradores locais.

Eu poderia assim resumir a novela, mas este não é o meu propósito, até porque grande parte da população brasileira conhece o enredo. O que me levou a escrever este texto foi uma sensação única e privilegiada, que me impressionou durante a aula de hidroginástica da última quarta-feira. Stella Torreão, nossa professora, colocou a música “A Luz de Tieta”, de Caetano Veloso; e na plataforma da piscina encontrava-se Betty Faria, a personagem — era a “criatura” e sua trilha sonora!

Fiquei observando a cena e fui assaltada pelas emoções da época da novela. Naquele instante, me dei conta das facilidades cariocas, da proximidade dos artistas a quem admiramos. Betty/ Tieta me arrebatou durante 196 capítulos, e hoje privo de sua amizade.

É, isso aconteceu. Deu-se no banheiro da academia. Ali, as mulheres se desnudam duas vezes todos os dias: primeiro para tirar o maiô, e depois do banho, quando sacam suas toalhas sem pudores, para vestirem seus modelitos. E, entre nós, não foi diferente: no tapete úmido, os pés descalços e a indiferença com o corpo alheio; só as conversas e consequentes risadas importam.

Ficamos amigas. Na nudez, somos todas iguais. Mas mesmo assim ela é um ícone, e na plataforma a reconheci como a grande atriz que eletrizou o Brasil.

Fiz Tieta.. gem. Confesso.

 

Cláudia Vasconcelos é escritora e poeta. Nasceu em Porto Alegre, na penúltima meia hora do dia 18 do mês de agosto. Ainda menina, tomou gosto pelas redondilhas das palavras. Não parou mais. Sua alma de viajante a levou aos quatro cantos do planeta, nas asas dos aviões da Varig, onde foi comissária de bordo por 30 anos. Pela KBR, publicou o best-seller Estrela Brasileira.

 

 

 

 

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