Tief in drerd arain

Meu novo livro vem aí. Deve sair até o final de março. Oba.
Meu novo livro vem aí. Deve sair até o final de março. Oba.

Na minha carreira de autora que já vai ficando vasta, contra qualquer prognóstico, por mais otimista que eu ousasse ser — vamos combinar que escrevi em algum lugar, sei lá onde, já me perdi, que do mato onde me meti quando escrevi sem graus de separação não sairia mais cachorro nenhum… —, sempre me pautei por apenas dois ou três princípios, o resto beirando o precipício, vamos lá:

1. Não ocultar nada e optar pela transparência total, decisão muito bem representada neste novo livro que ora termina (embora os leitores não saibam que estão acompanhando um novo livro a cada domingo e blablablá), sorry, pelo infame neologismo do título, Autorradiografia (ser infame é o que interessa, o resto é chato à beça).

2. De todo o rotineiro emaranhado autoconfessiográfico, publicar apenas aquilo que julgo ter valor para outras pessoas, uma ou duas, pelo menos, você que me lê… e a Ivete, minha faxineira.

3. Nunca, jamais, por medo algum, deixar de ir fundo, cavoucar fundo o fel e a ferida, tief tief in drerd arain — que no iídiche de vovó significa “pro inferno”, mas, literalmente, “fundo fundo pra dentro da terra”.

E por que escrever sobre isso agora?

É que cá entre nós eu sempre pensei que fazia isso, e fazia bem, sendo até meio única no ofício. Ledo engano. Tem mais gente, e agora que bati com a concorrência de frente não sei bem o que fazer, então, pra começar, exponho, comento.

O livro que estou editando, e que ainda nem sei bem, mas recomendo  — ao menos pra quem aposta alto na falta de qualquer limite da indecência íntima humana, e cruzando os dedos por trás —, é das coisas mais indigestas que já li, bem, ao menos no primeiro quarto. Depois fica até fluente, gostoso, mas não faço uma boa ideia de onde vai parar todo esse verborrágico autogozo, mal tendo atingido um terço da epopeia até o momento.

Depois eu conto, mas agora é melhor me esconder na escuridão do meu próprio parto, pois para os salões não caem assim tão bem tão profusas confissões, já em termos de autorretrato humano… senão vejamos: tudo o que se tenta ocultar mas que nos vaza por todos os nossos prantos.

O autor, paulista do interior e por profissão médico ginecologista, analisante, embora em certo instante se qualifique também como  analista treinante, e não creio que seja um farsante, pretende já no prefácio ir mais fundo na merda humana — ops, desculpem, alma — do que mesmo Freud ousou. Se consegue, não sei, mas, nossa mãe, quanto pensamento obscuro! E muitos deles já tive também… é de estarrecer.

Pouco a pouco o sujeito vai sob as frases se revelando, e não é um sujo, criminoso, sujeito a tudo que é tipo de humilhação e revidando com estupefação, já que de grande ação não se revela capaz, ferindo fundo apenas a própria imagem que ali jaz, moribunda, a um passo da autotumba — um relato surpreendente, pelo menos para mim, que deixou na minha boca seca uma perturbadora pergunta: será todo adolescente calado assim tão conturbado?

Nada escapa à sanha purgadora desse ególatra enrustido: a rotina frustrante do gozo autoinflingido, o desejo de morte daqueles que o amam menos que o permitido — incluído o sofrível “si mesmo” tão sofrido —, o desgosto pelo filho recém-nascido e por aí vai. Todo e qualquer falso sorriso resta espremido e desmascarado sem dó, custa ver-se em tal espelho irreprimido a natureza humana em seu mais fiel retrato, que vis somos, bem, talvez não tantos entre nós. Alguns poucos somos bem limpinhos, comportados, bem ajeitadinhos, até que se destape a nossa caixa de penhora, por curto prazo embora, e nos exiba sem pejo em nossa miséria em pelo, profunda e comum, normal, apascentados pela sociedade formal.

Somos todos bichos, taí, a nossa falsa modéstia é que nos corrompe, desculpem aí.

O que posso afiançar é que se trata da mais profunda falta de preconceito pela própria vileza de que já tive notícia, urdida de forma ardida por um autor articulado e inteligente, traumatizado até o rabo animal que nossa natureza humana reduz a um ossinho coaxial, sabem como é, pelo menos até que o cavalo da nossa grosseria interna nos derrube sobre ele, e aí é que a coisa pega de vez, mas deixemos de lado a dor da vez e planemos por plagas mais ensolaradas.

Como eu, mas sem ter nada a ver comigo, o autor dessa saga que não nomeio, pois poderia vir a se aborrecer como outros poucos por aí, mais fracos de espírito, ao bordejar a maturidade torna-se fera amansada, adocicada até, e passa (depois de muita terapia) a se qualificar como o pai de um casal de filhos que, diferente da grande maioria, não é cego nem coxo, mas autoconsciente, e sobre essa atitude não pode pairar dúvida de que tem a minha aprovação.

No mais, há entremeada à coisa uma intenção velada de troça que Alan expôs à luz enquanto eu, por minha própria natureza traumatizante, só via o sofrimento: todos os personagens citados — assim, por um oficial sem justiça num tribunal sem cabeleira postiça —, com a exceção que faz a regra do autor, são protegidos por pseudônimos hilariantes, que dizem mais de si do que a própria visão do escritor que é meio delirante, sendo “Bordelböerg” um de meus favoritos. Um conselho: não comam antes de ler.

E os deixo à deriva ao final deste décimo livro, literário mandamento. Sem pena nenhuma, mas não por muito tempo: se a vida me der saúde e disposição por mais de um desses rounds dramáticos e violentos, começo o próximo já na semana que vem, sem nem bem tomar tento, pois, vocês me entendem muito bem: do caminho do inferno tiramos a intenção de nossas mais profundas publicações, e vamos em frente.

Zol zein gezunt e tchau procês.

 

 

Um comentário em “Tief in drerd arain

  • 27/01/2013 em 12:49
    Permalink

    Até que bate com minha definição de arte: “Arte é aquilo que de alguma forma “bate com força” dentro de você, que altera sua percepção da realidade, é que certa forma é perfeitamente inútil para outras finalidades, que não seja a contemplação.”

    Resposta

Deixe você também o seu comentário