Tenente Columbo

Queridos amigos,

Estive de férias e estou retornando. Espero que tenham passado um ótimo Natal, e tenham entrado 2012 com o pé direito. No final de janeiro entramos no ano do dragão, e espero que para todos nós seja um dragão que não exale muito ácido sulfuroso pelas ventas!
Peças fragilizadas, a  nova aventura do detetive Alyrio Cobra, foi publicada e está disponível como e-book em todas as livrarias virtuais. Este livro entrou no mercado com o pé direito! Na primeira semana já está na lista dos e-books mais vendidos da Livraria Cultura! Maravilha! E semana que vem já estará lá como POD também!

Minha última crônica antes das férias foi sobre o detetive Alyrio Cobra. Se quiserem conhecê-lo melhor, leiam aqui no Blog da KBR: Alyrio Cobra, o detetive paulistano. Durante as férias, estive com meus netinhos que vivem na Itália. Como eles são pequenos, tem três e quatro anos, não tive muito tempo para leituras, mas assisti muita TV. Lá exibem seriados antigos e aproveitei para revê-los, entre eles, várias vezes por semana, o “Tenente Columbo”. Fora o fato de que lá ele fala italiano, deliciei-me com suas aventuras. Incrível como eu me lembrava do tempo que o assistia aqui no Brasil, falando português.

Hoje assistimos “CSI”, “Lost”, “Law and Order”, “Criminal Intent”, “House” e tantos outros seriados cheios de suspense e tecnologia. No entanto, nos anos 1970 o tenente Columbo (seu primeiro nome jamais foi revelado) da polícia de Los Angeles era fantástico, um roteiro superinovador.

Aqui no Brasil já revi alguns dos episódios , mas revendo-os lá na Itália pude perceber que o ápice da arte de escrever para televisão foi atingido em Columbo. O seriado nasceu de uma peça de teatro escrita pela dupla Richard Levinson e William Link, na qual um psiquiatra cria um plot perfeito para matar a esposa rica… ou um plot que parece perfeito, até que Columbo entra em cena. A peça fez sucesso e foi filmada, já com Peter Falk no papel, anos antes de o detetive ganhar seu seriado. O primeiro episódio da série foi dirigido por um jovem de 25 anos: Steven Spielberg.

Columbo foi um seriado policial inovador na medida em que adotava não o formato “whodunnit” (quem cometeu o crime), mas sim “howdhecatchem” (sabendo quem é o culpado, como o pegaram?).

Um episódio padrão do tenente Columbo tinha o seguinte formato: no primeiro bloco, o telespectador assistia o crime muito bem engendrado sendo cometido: via o motivo, a arma, a oportunidade, as providências do criminoso para esconder seu feito, em geral, um álibi perfeito. Nos blocos seguintes — e era aí que a história ficava de um jeito que ninguém conseguia sair da cadeira — assistia-se o tenente Columbo descobrir, um a um, todos os erros cometidos pelo assassino. De uma forma bastante desajeitada, sem nenhuma tecnologia com as que conhecemos nos dias de hoje, lançava mão de uma série de armadilhas psicológicas que acabavam levando o assassino a confessar, ou a produzir a evidência necessária para condená-lo. Como já disse, era o ápice da arte de escrever para a TV, o suspense atingindo pontos altíssimos, o telespectador não conseguindo sair da frente da telinha por nada deste mundo!

Houve críticos que o condenaram: afirmavam que Columbo era um torturador, pior que os assassinos que prendia — já que a técnica psicológica do personagem de induzir o culpado a confessar muitas vezes envolvia boas doses de crueldade mental. Columbo ou dava a entender ao culpado, por meio de elipses e circunlóquios, que sabia quem ele era e o que tinha feito, causando não pouca angústia, ou se fazia de tolo, gerando um falso senso de segurança que precedia a queda. Esse era o método de Columbo.

Na época, se o compararmos à tecnologia de CSI e todo o aparato moderno das polícias americanas, Columbo só dispunha da própria inteligência e das técnicas psicológicas “torturantes”. Diga-se de passagem, ele sequer usava arma.

O seriado foi primeiro escrito, para depois virar imagem. E as contribuições de Peter Falk à construção do personagem são famosas: o ator, que tinha um olho de vidro, usava o olho ligeiramente fora de centro para fazer o personagem, dando ao detetive um ar apalermado (a estratégia básica de Columbo era fazer-se subestimar pelos suspeitos); além disso, o sobretudo amarrotado e desabotoado, marca registrada de Columbo, foi outra ideia do ator. Na Califórnia da época, ele dirigia um carro velho, cujo motor, pelo barulho, parecia prestes a fundir. Surrado, sujo e amassado, o conversível ficou famoso.

Também o charuto vagabundo que vivia em sua mão, e que ele acendia e reacendia tirando baforadas fedorentas (era possível sentir o odor através da tela!), fazia parte da caracterização. Por vezes, quando ia aplicar as técnicas “torturantes” levava seu cachorro.

O seriado teve vilões clássicos, como o enólogo interpretado por Donald Pleasance, que mata o irmão que decidira vender os vinhedos da família; o cantor gospel assassino interpretado por ninguém menos que Johnny Cash; o maestro frio e calculista vivido por John Cassavetes. Teve também vítimas memoráveis, como o escritor de best-sellers interpretado por Mickey Spillane.

O tenente Columbo era o tipo de detetive que não chamava a atenção. Não era do tipo de sair dando socos e tiros, nem de sair em loucas perseguições automobilísticas. Também não era o detetive que seduzia mulheres; muitas vezes mencionava sua esposa e era o inverso do galã americano tradicional, mas conseguia desvendar os mais complicados casos de assassinato.

Peter Falk interpretou Columbo pela última vez em 2003. Havia sido o tenente pela primeira vez em 1968: por pouco não completou 40 anos como o mais sagaz dos detetives da televisão.
Até a próxima!

 

 

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