Temer ou Trump: quem vai cair primeiro?

 

Arábia Saudita se prepara para receber Donald Trump.

Arábia Saudita se prepara para receber Donald Trump.

Durante a semana li esta pergunta circulando pelas redes sociais, e a esta altura, embora nada de radical ainda tenha acontecido, creio que a resposta está bastante clara para todos os brasileiros.

Refiro-me à renúncia de Temer, claro. Porque, francamente, não posso imaginar nada mais radical do que essa delação dos irmãos Batista, o mais chocante episódio do Brasil da Lava-Jato até agora, embora, como todo mundo sabe, no Brasil da Lava-Jato tudo sempre pode piorar. Como assim, Temer e Aécio agiram com tanta desfaçatez, num cenário já intensamente vigiado pelas investigações de Curitiba? Para criminosos experientes, me parecem bastante ingênuos, para dizer o mínimo. Temer, principalmente, depois do episódio da gravação de Marcelo Calero, já devia estar escaldado com essa história de  gravadores escondidos. Para nem mencionar a falta de discernimento e escrúpulos por parte de um presidente em exercício.

O Brasil está mesmo envolvido numa espiral de decadência oficial. O único remédio parece ser a extirpação total, mas, como insinuou Vânia Gomes em sua crônica desta sexta-feira, dá medo a possibilidade de virmos a “experimentar o gosto amargo de um derradeiro golpe”. Só loucos, como temos visto muitos vociferando na rede social, podem advogar a volta do poder militar, sejam quais forem as circunstâncias. Vade retro.

O desgosto que estou sentindo não quer dizer que não lamente a (futura? inevitável?) queda de Temer. Com todo o tumulto à sua volta, bem que ele estava ajudando a tirar o país do lodaçal em que estava metido, lodaçal econômico, pelo menos. E por isso tentamos, enquanto foi possível, advogar sua permanência no cargo até as eleições de 2018. Mas agora, infelizmente, estamos ao deus-dará.

A situação de Donald Trump nos Estados Unidos é radicalmente diferente. Também aqui parece que tivemos um agente determinado a colaborar para a queda do governo, como fez Joesley Batista, o açougueiro do Planalto, com relação a Michel Temer: relatos recentes mostram que o ex-diretor do FBI James Comey estava disposto a derrubar Trump, como informa o Washington Post: “Comey se preparou extensivamente para suas conversas com Trump”. Antes e depois, quando se sentava em seu carro e fazia meticulosas anotações sobre tudo o que havia sido conversado entre os dois. O problema é que, diferente de Temer, Trump nada fez que incorresse em algo vergonhoso e desafiasse a lei; apesar das múltiplas insinuações da mídia de resistência, a sugestão de que Comey parasse de investigar Mike Flynn não configurou obstrução de justiça nem o deixou vulnerável a processos de impeachment.

A diferença fica ainda mais acentuada quando analisamos os recursos oficiais de um país para investigar a comprometibilidade (se é que esta palavra existe) de um presidente: sem que Trump nada pudesse fazer a respeito, o vice-procurador-geral Rod Rosenstein nomeou um agente especial para investigar todo esse imbróglio com a Rússia, que sérios especialistas acreditam, como eu, que seja completamente inventado. Presenciei a bola de neve se formando, desde que começou com um floquinho insignificante em outubro do ano passado. A partir daí, os argumentos foram sendo repetidos e engordados até chegarmos no ponto em que a história está hoje, quando poucos se lembram de como começou e menos pessoas ainda duvidam de sua veracidade.

Voltando ao agente especial: embora muitos ressaltem o perigo que uma pessoa imbuída de tais poderes ilimitados de investigação representa para a Casa Branca, há unanimidade em torno do nome escolhido, o ex-diretor do FBI Robert Mueller, tido como um modelo de isenção e retidão. Num primeiro momento, Trump se declarou favorável à guinada na investigação, dizendo que não havia, absolutamente, conluio nenhum, e que uma investigação apurada, independente e, principalmente, rápida era tudo o que ele desejava, para poder seguir em frente. No dia seguinte mudou um pouco de disposição, qualificando todo o caso de investigação de interferência russa como uma “caça às bruxas”, mas, no fundo no fundo, isso libera a presidência para seguir com sua agenda desenvolvimentista e se descolar da intensa rede de intrigas que vem tentando diligentemente paralisar o governo, tecendo ao seu redor uma teia quase impenetrável de falsas afirmações.

Outra provável unanimidade deve ajudar o governo a se “liberar para poder funcionar”: a que está sendo construída em torno do nome do independente Joe Lieberman para a diretoria do FBI. Quer dizer, aos trancos e barrancos, Trump está experimentando o peso de Washington, aprendendo a interagir com os podres poderes de Washington e cumprindo sua principal promessa de campanha, que não, não é construir o muro na fronteira com o México, mas “drenar o pântano” de Washington.

Com tais medidas urgentes que emergiram da constante crise, agravada esta semana por graves acusações e denúncias, a mídia de resistência deve aos poucos se acalmar. Afinal de contas, estão conseguindo colher o que plantaram com tanta dedicação, bem, quer dizer, aquilo que podem colher: uma diligente investigação que irá tão fundo quanto for preciso, a salvo de corrupção. Mas, por enquanto, ainda viciados na provocação, preferem afirmar que “Trump está com medo de viajar”.

Sim. Na tarde de hoje, embora o New York Times afirme que Trump não está com vontade de embarcar e contrariado porque “não vai dormir em sua própria cama ou em algum de seus resorts”, a família Trump — incluíndo a primeira-dama e a primeira-filha — decolará para uma viagem de nove dias que se inicia na Arábia Saudita, segue para Israel, para o Vaticano, depois para a Bélgica para uma reunião da OTAN e terminando na Sicília com a reunião do G7.  E esta é a notícia importante do dia.

A mídia americana prefere enfatizar que, por conta dos graves acontecimentos que a precederam, a primeira viagem do presidente ao exterior deverá mostrar um líder abalado e enfraquecido. Mas para o meu marido Alan, que passou boa parte da noite conferindo fontes na Arábia Saudita, a percepção local é radicalmente diferente: estão super empolgados com a perspectiva de um acordo de fornecimento de armas no valor de 110 bilhões de dólares durante os próximos 10 anos, uma negociação que, segundo o New York Times, traz a marca pessoal do genro de Trump, Jared Kushner.

Trata-se da resposta (e antídoto) de Trump para o perigoso acordo nuclear com o Irã assinado por Obama, além do esperado apoio americano a uma espécie de OTAN à moda saudita reunindo os países do Golfo em torno de interesses de segurança em comum. No Irã, aliás, país onde reina a mais absoluta demo… ops, teocracia,  a sexta-feira será marcada por uma eleição presidencial que contrapõe o atual presidente Hassan Rouhani ao favorito do Líder Supremo, o linha-dura Ebrahim Raisi.

Como se pode ver, o mundo está em ebulição e os poderes se revolvendo em franca revolução, para qualquer lado que se olhe. Dá quase para acreditar nas predições de uma velha amiga espiritualista, quando afirmava que passaríamos por um longo e duro período de provações antes de desembarcarmos numa “brilhante nova era para a humanidade”.

Inch’allah.

Quanto àquela comparação entre Trump e Temer lá do início, bem, parece que a única coisa que os dois têm em comum, além do ódio que lhes dedicam parte de seu próprio povo, é a inicial do sobrenome.

Foto Divulgação.

https://www.washingtonpost.com/world/national-security/comey-prepared-extensively-for-his-conversations-with-trump/2017/05/18/e53b1734-3bf1-11e7-a058-ddbb23c75d82_story.html

https://www.nytimes.com/aponline/2017/05/18/us/politics/ap-us-melania-trump.html

https://www.theguardian.com/world/2017/may/19/iran-election-chose-president-relatonship-with-west

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