Tem vezes que a gente se sente como quem partiu ou morreu

por Cláudia Vasconcelos

 

Era para ser uma tarefa prosaica, daquelas que não pesam, não consomem muito tempo, sem hora marcada, um item a mais em minha agenda rotineira. Afinal, a recomendação da médica fora explícita: “Recomendo que você faça uso do Actonel de 150 mg, essa medicação irá interromper o processo de osteopenia”. Aceitei brandamente, até porque a ingestão de um comprimido mensal, com o cuidado de tomá-lo em jejum e permanecer em pé durante meia hora, em nada afetaria a minha vida, ou melhor, contribuiria para que no futuro a preocupação com a osteoporose fosse quase nula. E os meus ossos agradeceriam.

Por volta de duas horas da tarde, com o sol de verão comendo solto, fechei a porta da casa e, “pernas para que te quero”, fui pesquisar a quantas andava o preço do medicamento milagroso nas farmácias de Ipanema, e aqui tem mais de uma por quadra. Julguei que seria tarefa fácil, mas, qual nada, cada estabelecimento pratica o preço que quer, e sempre abusivo, como é praxe neste Brasil desgovernado, principalmente em se tratando de produtos para pessoas com mais de cinquenta anos.

Uma, duas, três, quatro visitas e o suor escorrendo rosto abaixo, a indignação aumentando, já pensava na médica gentil com certa raiva. Poxa vida, será que aquela criatura não lembrou que sou aposentada pelo Aerus? Sacanagem, essa merda de remédio tá pela hora da morte. Mas bastou eu lembrar que futuramente poderia sofrer uma queda — e lá se foi o fêmur —, para contemporizar meus pensamentos.

Já andava pela altura da Vinicius de Moraes quando vi uma drogaria a la Duane Reade de New York, bonitona, limpa e cheirosa. Levantei os olhos para ver o nome no letreiro: Venâncio, ops, a outra que conhecia ficava na Bartolomeu Mitre, uma farmácia com preços mais acessíveis. Quando pus o pé, adentrando o ambiente, eis que uma sensação estranha tomou conta de meu corpitcho… eu conhecia aquele lugar. Parei horrorizada. Era o endereço da Livraria Letras e Expressões, e, no segundo andar, havia o Café Ubaldo, onde podíamos ficar até altas horas da madrugada para tomar um café, ler livros e conversar com os amigos. A livraria era perfeita, livros descolados e “normais”, revistas do mundo todo, jornais, canetas e presentinhos bacanas, local de notívagos antenados e cultos.

Boquiaberta, assim permaneci por alguns minutos. Que profanação! Imaginei os livros sendo embalados, alguns pulando caixa afora, fugindo da prisão em forma de papelão, as letras revoltadas escorregando das páginas e se agarrando nas paredes do lugar, as vozes alteradas dos autores se misturando à poeira da mudança, os versos mudando de lugar, os poemas modificando suas rimas, uma manifestação coletiva de indignação: sabiam do futuro daquele templo da criatividade, da cultura.

Entre não contaminar minhas lembranças e a questão óssea… a dúvida: prossigo?

Em passos compassados, pesados pela dor da perda, me dirigi ao balcão. Meio envergonhada, perguntei o preço do maldito Actonel. Pimba! Preço justo e ainda com desconto. Sucumbi, meti a caixinha na bolsa e saí apressada.

A troca de livraria por farmácia reflete o quanto o Governo estimula a educação, e, por conseguinte, futuros leitores. Será que é preciso uma bola de cristal para antever uma nação doente e aculturada?

Meus ossos estão supimpas, minhas lembranças não morreram, mas, atualmente, quando ingiro o tal comprimido todo dia 4, sinto letras se aglutinando em minha garganta.

 

Cláudia Vasconcelos é escritora e poeta. Nasceu em Porto Alegre, na penúltima meia hora do dia 18 do mês de agosto. Ainda menina, tomou gosto pelas redondilhas das palavras. Não parou mais. Sua alma de viajante a levou aos quatro cantos do planeta, nas asas dos aviões da Varig, onde foi comissária de bordo por 30 anos. Pela KBR, publicou o best-seller Estrela Brasileira

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

4 comentários em “Tem vezes que a gente se sente como quem partiu ou morreu

  • 04/04/2012 em 17:51
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    Querida Claudia, voce escreve tão suave que a gente entra na história, Não sei se realmente voce esta passando por esse problema ou se foi o inicio de um novo conto. Te desejo saúde e melhoras, tem um remedio que estou tomando que custa $ 266,00 com 28 comprimidos e também foi um sufoco, acabei encontrando o mesmo por R$ 139,00
    E o Governo ó…. em nós
    Beijão e se cuida
    Daniel Ricarde

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  • 04/04/2012 em 16:31
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    Olá, Cláudia!
    Trabalhei na Varig tb, de 86 a 2010, qdo recebi alta do INSS, devido a um acidente de trabalho. Mas estou te escrevendo porque, ao mencionar osteopenia, lembrei-me de minha prima, hoje com 53 anos e que há +ou- 4 anos, recebeu esse mesmo diagnóstico. Não sei se ela fez uso de alguma medicação na época, só sei que ela zerou a osteopenia dela, fazendo musculação. Ficou boa, sem o risco da osteoporose. Pelo sim, pelo não, tornou-se adepta dessa atividade e vive muito bem. É isso…boa sorte!!! Um beijo.

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  • 04/04/2012 em 15:44
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    Mais uma vez , parabéns !

    Beijinhos carinhosos .

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