Tem sexo no samba

Já que o assunto é nostalgia, eu de havaiana junto ao oldsmobile de vovô

Já que o assunto é nostalgia, eu de havaiana e cara fechada junto ao oldsmobile de vovô

(Happy birthday, Mr. Sklar)

 

Todo mundo sabe que nostalgia não é muito o meu negócio. E é fácil entender por quê: embora tenha circulado bastante por aí, só encontrei minha voz de cronista faz pouco tempo, ao mesmo tempo em que encontrei meu gozo e meu personagem favorito, Alan Sklar, que no momento goza sozinho (espero!) das delícias do Havaí, nem me ligar me liga (hoje, por falar nisso, é aniversário dele, 69, imaginem, e nem posso mandar aquele beijo, vai só aqui mesmo, droga).

Com esses dois, três componentes apostando corrida, lutando pela hegemonia em meu ocupado dia-a-dia, é tanto caso novo pra confessar que não sobra muito pra recordar, et voilà, mas tem sempre aquela carta escondida, alguma história inédita que restou na manga discreta e esquecida, a não ser que eu já tenha contado e me esquecido, ops, se for o caso peço desculpas, leitores enxeridos.

Alan não foi meu primeiro querido, nem a crônica minha primeira aproximação com o universo do livro. São gostos de longa data, longamente cultivados ao longo da longa lida, ui: paixão por homens e livros, e é o que me faz, abaixo a modéstia, uma boa editora — a paixão, digo, e eu sendo arquiteta por formação, me deu o pontapé inaugural pra que eu seguisse fazendo o que sempre deveria ter feito, desde a carteira de madeira do Colégio Estadual: viver da escrita.

A boa escrita tem sempre um toque de nostalgia, prazer e sofrimento, e entre estes três elementos circulo afoita neste carnaval, sem nenhum samba no pé mas como muita energia na cabeça, principalmente por estar completamente livre de marido e família pra me dedicar ao que mais gosto de fazer: trabalhar. É. Tem gosto pra tudo nesta vida bandida, fazer o quê.

Mas nem sempre foi assim. Dois bons textos que editei neste fim de semana lembram o brilho antigo do carnaval do Rio, do qual nunca participei, francamente, pois naqueles bons tempos eu morava em Minas e desde menina odiava carnaval. Lança-perfume, tudo bem, era aquela sensação geladinha, e eu muito criança para entender de onde toda aquela animação vinha (calma aí, gente, que era tudo legal, “molto legal”, como Alan aprendeu a dizer em seu capenga português de gringo).

Mamãe me obrigava todos os anos a vestir uma ou outra fantasia, uma delas uma havaiana que meu primo mais novo apenas uns 20 dias — nascido, aliás, no Rio e no carnaval —, por pura inveja, talvez, fez questão de despalhar fibra por fibra, eu me arrebentando de chorar, taí um trauma de infância a mais, ou eu nunca teria escrito nada demais. O pior de tudo era o baile da AIB, ah, gente, confesso a vocês que sempre fui de ficar sozinha no meu canto, desde pequenininha, mas mamãe nunca aceitou essa minha idiossincrasia, onde já se viu? Nem adiantava eu me esconder no armário do quarto, era obrigação, tinha que ir a um baile por dia e estávamos conversadas. O negócio era torcer pra que aquela mania de folia passasse bem depressa. Respira fundo e me deixa quieta, que não vou por aí.

Mesmo depois que me mudei para o Rio não me tornei carnavalesca de jeito nenhum. Fui ao Sambódromo uma única vez com o Nelson, meu primeiro marido, e achei muito cansativo, e uma vez antes disso tinha ido “à Avenida”, mais para fotografar com um amigo querido, bem, um pouco mais que amigo… mas deixa pra lá. Não é nada disso que eu quero contar, mas sim que uma vez, ao menos uma vez na vida, tive um carnaval de verdade, com sexo e todas as veleidades, afinal de contas, não sou ruim da cabeça e sou boa gente, na verdade.

Foi na Bahia, em Salvador, ah, aquilo sim, era carnaval, um verdadeiro bacanal que já nem sei se resiste na Praça do Povo, digo, Castro Alves. Lá por acaso encontrei de novo aquele mesmo amigo por quem fui apaixonada, dei uma bicada na cerveja dele mas fui em frente, queria algo novo e fui atrás, atrás do trio elétrico, claro.

Viajei com uma amiga e reservamos hotel bem no meio da bagunça, escapar, quem há de, não nos demos chance de desistir. Era barulho a noite inteira, nem sei se batuque, não lembro mais. Só lembro que logo no desembarque alguém nos vendeu uma “mortalha”, pois é, morremos e fomos pro céu durante quatro longos dias, embora hoje em dia quando me lembro disso se pareça mais com o inferno na terra, sem fantasia — a gente nem pensava em nada disso, nem pensava, saía da cama todo dia, vestia a mortalha sem nada por baixo e corria atrás do trio elétrico, de preferência na “barra pesada”, grudadas no carro principal, onde com alguma sorte a gente escaparia de ser esfaqueada mas por pura diversão acabava esmagada, se é que vocês me entendem. A coisa contagia, contagiava, sem droga nenhuma, ninguém se esconderia no banheiro por causa disso.

Pra quem não entende, explico. Naquela época era tudo numa boa, tranquilo, no Rio e na Bahia, a gente não pensava que poderia sair na rua e correr o risco de acabar sem quarta-feira, terminar no “verdadeiro paraíso” de onde não se volta jamais, mas deixa isso pra lá. Nem moro mais no Rio, quem sabe com tanto bloco na rua a cidade ficou segura outra vez? Se mudou o carnaval, eu não sei, mas sei que me mudei, e vivo muito feliz com isso.

E pra resumir a conversa, que essa história já tá ficando chata: Raquel e eu passamos quatro dias em Salvador atrás do trio elétrico vestindo um camisolão branco de algodão e bebendo cerveja, sem nos preocuparmos com nada mais. Foi uma delícia. Na terça à noite encontrei um sujeito que eu não conhecia, deixamos a multidão para trás e pulamos o portão de uma casa na periferia, periferia da praça, evidentemente, e lá ficou claro para quê uma mortalha realmente servia. Trepamos no jardim de alguém que eu tampouco conhecia. Não gozei. Não contei pra ninguém.

No dia seguinte, quarta-feira, caí de exaustão no quarto do hotel a caminho do banheiro. Joguei fora a mortalha, que estava um trapo, e voltei para o Rio onde acabei me casando, não uma, mas três vezes. Nunca mais pulei carnaval, nem aqui nem na Bahia, já tinha esgotado em mim a veia da folia.

E um bom domingo procês.

 

 

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1 Resultado

  1. mannachado disse:

    Te entendo Noga. Nunca fui a nemhum baile carnavalesco. Nunca me fez falta, mas ver o desfile ,isso sim eu gosto, passo a noite toda, tentando nao dormir. Conheci o lanca-perfume, mas nunca mais escutei falar dele, nem sei o que aconteceu com ele….proibido nao????.

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