Sorte

amuletosVi um filme algumas vezes, porque gostei, e o que achei mais interessante foram algumas partes da trama que me fizeram pensar. O filme se chama “Crupiê”, resumindo o título em português. É a história de um homem que quer ser escritor, mas não sabe sobre o que escrever. Como estava desempregado, volta a ser crupiê num cassino em Londres, a contragosto. No primeiro dia de trabalho, ele diz a si mesmo: “Bem-vindo à casa do vício”.

Distribui cartas e fichas, e coloca o dinheiro dos apostadores numa fenda própria para isso na mesa. Começa então a refletir, como que olhando de fora, tudo o que está acontecendo ali, o ponto de vista dele sendo completamente externo: “O mundo girava ao seu redor milagrosamente ,sem tocá-lo. Agora ele se tornara o centro imóvel da má sorte. Ele já não ouvia o som da bola. O crupiê havia atingido o seu objetivo.”

Má sorte. É sabido que todos os jogadores – que jogam a dinheiro – acabam perdendo, e, muitas vezes, muito dinheiro. Entretanto, continuam voltando, até não poderem mais pagar as dívidas que fizeram para poder continuar a jogar, esperando aquela sorte que irá tirá-los da miséria e torná-los ricos, vencedores. Muitos deles já ganharam muito alguma ou algumas vezes, mas não pararam até perder tudo de novo.

De outra vez fiquei sabendo de uma conhecida minha que já estava frequentando sistematicamente grandes casas de bingo, e isso preocupava os amigos. Que lhe falaram e ela ouviu, pois era uma pessoa já treinada para ouvir, principalmente se fosse a última coisa que queria escutar.

Todos perguntavam: “Por que você continua indo lá se sabe que no final sempre vai sair perdendo?” Ela pensou, pensou e um dia respondeu. Nas vezes em que ganhou, que foi sua a primeira cartela a fechar todos os números, ela se levantou e gritou BINGO! E então as duas mil pessoas que estava na sala voltaram seus olhares para ela, a ESCOLHIDA pela sorte, a única vencedora entre duas mil pessoas! E todas aquelas pessoa desejavam estar no lugar dela! Porém, a SORTE a havia escolhido, por nada, apenas por ser o que ela é, mesmo que não tivesse manifestado o esplendor da sua pessoa e seus talentos na vida prática, fosse na vida profissional, amorosa, na família ou em qualquer outra área que lhe fosse importante.

Essa “Síndrome do Escolhido” aparece em várias ocasiões da vida comum, e vem a reviver repetidamente o desejo de ser o escolhido, o predileto da Mamãe, mesmo que outra pessoa tenha ocupado esse papel na sua infância. É o desejo do amor incondicional que vem do outro, de fora.

Em outra ocasião, também um cara que se dizia mágico se apresentou num grande teatro aqui no Rio de Janeiro.  Antes de começar, para aquecer os ânimos, ele pediu à plateia que fechasse os olhos e pensasse na cor verde. Passado o tempo, as pessoas abriram os olhos, e ele então vaticinou: “Obrigado, Obrigado! Mas alguém aqui na frente pensou em vermelho! Sinto que alguém pensou em vermelho!” E perguntou: “Quem pensou em vermelho, por favor levante o dedo.”

Quem me contou isso foi o que se levantou, impressionadíssimo com o poder do mágico, e confessou: “Eu pensei em vermelho!” E foi o centro das atenções, inclusive do mágico, por talvez alguns minutos. Talvez sejam estes os 15 minutos de fama de que falava o Andy Warhol.

Aí, ou a pessoa cai no vício ou cai em si, e vê como é que a banda toca aqui na Terra. Começa a repetir ad infinitum algo que lhe deu a sensação de êxtase, de ser amado por si só, pela maravilhice do seu ser, ou vai à luta atrás das maravilhices que lhe são possíveis.

O resultado de ir à luta e perseverar junto com todo mundo não lhe concede apenas 15 minutos de glória.

 

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