Sonho de Verão

O sol forte e implacável a seguia pelo quintal, o calor e o peso do tacho acrescentando intensidade ao sofrimento. Colocou o peso no chão e começou a estender no varal as roupas recém-lavadas. Enquanto criava um mural multicolorido, deixava seu pensamento fluir, divagava. O som do rádio, na beira do tanque, embalava seus devaneios. Ao buscar mais uma peça, tocou na água que se acumulara no fundo do balde de latão. O contato lhe trouxe a lembrança de um tempo passado.

Corria a criança, em alegria desmedida, atrás dos irmãos. O primeiro lugar era disputado palmo a palmo. Apesar das pernas pequenas, Judite era ágil e disposta; ultrapassou a irmã do meio, emparelhou com o mais velho e o superou também. O salto no ar foi precedido de um grito de alegria: Iiiiiiiiphh! Em seguida, o contato com a água do rio, transparente e fria, o choque de alegria e surpresa após o mergulho. No retorno à superfície, a euforia estampada no rosto da criança:

— Ganhei, ganhei! — gritava a pequenina.

— Não valeu, Judite! Você me empurrou! — Reclamou, com um sorriso nos lábios, o rapaz, jogando com as mãos um tanto de água no rosto da campeã.

— Para, Paulo! Você não sabe perder!

— Ei, vocês aí! A água tá fria?

— Pula logo, Ivone, você tá perdendo!

A menina, ressabiada, desceu devagar o barranco até a margem do rio e, com o pé descalço, tocou as águas, receosa.

— Tá frio! — disse a medrosa.

— Entra logo, menina, para com isso! — falou a pequena, decidida.

Dois anos mais nova que Ivone, Judith era  diferente da irmã em tudo. Embora menor em tamanho, mostrava uma capacidade de liderança natural e conduzia a outra como se fosse a responsável por ela.

Paulo observava ambas com gosto; aos 17 anos, amava as duas de forma diferente: Ivone, toda carinho e dengo; Judith, a espevitada, um passarinho preso no alçapão que não se entregava. Enquanto observava a discussão das duas, aproveitava o rio, que o pai, dono daquele pedaço do chão, tão bem preservava.

A família tinha poucos recursos, mas era unida. Seu Juca ensinava a todos a necessidade de ter cuidado com a terra e as águas. Era daí que lhes vinha o sustento, o alimento e o pão. Enquanto pensava no pai, Paulo viu a menor das meninas sair e empurrar a irmã indecisa em direção à água. Mal teve tempo de acompanhar o diálogo:

— Para, Judith! Eu não quero entrar! A água tá fria!

— Você quer, sim! Só não sabe ainda! — Dizendo isso, Judith empurrou a irmã em direção ao rio. Entre os gritos e discussões que vieram em seguida, todos começaram a molhar uns aos outros, e o que era reclamação se tornou brincadeira. Um sorriso iluminava o rosto de Judith.

— Mãe! O pai quer falar com você!

Despertada do sonho de verão, a mulher pediu à filha caçula que avisasse que ela ligaria dali a pouco, pois estava terminando de pendurar a roupa. Voltou o olhar para sua obra: as blusas, saias, camisas, calças e lençóis tremulavam ao vento. Vez por outra, um pingo de água lhe atingia a face. Abaixou-se e recolheu o tacho.
O sol tocou seus cabelos: onde antes era ouro, hoje se via prata. Seus olhos da cor do céu brilharam radiantes; eram vivos e sorriam por si sós.

Ela se viu de novo, por um instante, como uma menina que o tempo não conseguiu apagar.

 

 

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