Solitária Patrícia

Foto Bruno Lima

por José Roberto Padilha

Não é difícil entender as dificuldades encontradas pela presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, para exercer com competência suas funções à frente da maior nação esportiva do país. Desde os 3 anos de idade, quando deu as primeiras braçadas no Botafogo, até 1991, quando terminou sua carreira nas piscinas do Flamengo, foram 29 anos praticando um esporte individual — tão solitário que o churrasco de confraternização, ao final de cada ano, contava apenas com a sua presença e a de seu treinador.

O nadador, o fundista, o Jadel Gregório e a Maurren Maggi, para superar seu tempo, só precisam de dedicação e determinação. E, quando alcançam índice e um clube para representar, do privilégio da companhia de um técnico. Patrícia Amorim, Cesar Cielo e o Djan Madruga não desenvolveram qualquer aprendizado coletivo para aprender a lidar com sua modalidade ou entender um jogo de equipe. Até o revezamento 4×4 é cada um com seus tempos, que, somados, podem reuni-los no pódio, jamais treinando e compartilhando táticas e estratégicas comuns. Até nas competições, quando mais de um cai na água, colocam raias para garantir o isolamento.

Como a presidente rubro-negra, que cresceu guiada por um cronômetro,  entenderia aquela prancheta enigmática de seu  atual treinador, criada para entrosar 11 jogadores em prol de uma tática comum? Como alcançaria a inteligência de seu treinador anterior, Wanderley Luxemburgo, que reviu conceitos e trocou seu treino forte da manhã por uma recreação, só para ter a presença do seu ídolo maior, oriundo de outra noite maldormida e esperar o treino da tarde, após o cochilo e o almoço, para  lhe dar condições mínimas de ajudar o grupo a alcançar o título carioca.

Quando defendi o Americano FC, nos anos 1980, fui convidado pelo preparador Paulo Nascimento, após minha terceira cirurgia no joelho, a trocar o campo pela piscina. Lá, no parque aquático do Parque Tamandaré, passei a percorrer diariamente, aos 30 anos,  1500 metros que garantiram meu fôlego e preservaram minhas articulações para continuar exercendo minha profissão. Meus companheiros, que não me viam mais subindo montanhas e disputando coletivos com os juniores, até ensaiavam alguns gracejos, que eram abafados por 90 minutos de intensa luta e os ajudavam a levar preciosos bichos para casa.

Fui nadando e me afastando dos gramados e, infelizmente, por consequência, me isolando dos amigos, dos churrascos, aproximando-me do individualismo que transcede o esporte e nos remete ao egoísmo cidadão. As águas frias, o silêncio apenas quebrado pelas braçadas, por meses e anos, foram substituindo os gritos das arquibancadas, tirando a emoção única que já não deixava sequer uma gota de suor num colete que eu nem vestia mais.

Pedi ajuda a psicólogos, comprei uma bike, tenho  revezado a natação com caminhadas. A Patrícia, pelo visto, não. Só assim, reclusa,  isolada, da piscina pra casa e dos jeans pro maiô, com os cabelos ainda impregnados de cloro, posso imaginar que alguém possa conceber que de uma coletividade, especialmente a saudável e esportiva, possa emergir um delator, um atleta que se preste a acusar um companheiro de profissão.

Não, Patrícia Amorim. Em meus 44 anos de futebol, como atleta, treinador, dirigente e jornalista,  jamais encontrei um só deles, premiado que fosse, porque em nosso meio não tem bandido para ser entregue. Objetivos, sim, como as vitórias, a serem buscados e recompensados. Há até ídolos que não souberam lidar com sua idolatria, que não tiveram o privilégio de estudar para entender seu papel social, mas seus maiores crimes foram se apaixonar por algo, ou alguém, que não tiveram referência na família para avaliar.  Daí, abusaram. E daí sucumbiram. Mais daí a emergir um Judas, um Joaquim Silvério dos Reis, um Cabo Anselmo?

Em nome de uma nação, do próprio futebol, deixe, Patrícia, o Flamengo ser presidido por um ser coletivo. Um Zico, por exemplo, que jogou, e como, com a 10 e conviveu com mais de 1000 companheiros. E volte para a solidão de uma piscina que a fará, mesmo no Master, em nome da sua irretocável carreira esportiva, novamente respeitada e reconhecida.

 

José Roberto Padilha é técnico de futebol, jornalista e ex-jogador de futebol profissional, com passagens pelo Fluminense, Flamengo e Santa Cruz de Recife. Em 1971, defendeu a Seleção Brasileira de Futebol Sub-20, campeã do I Torneio de Cannes. Foi tricampeão estadual pelo Fluminense, bicampeão da Taça Guanabara e bicampeão pernambucano pelo Santa Cruz. Crônicas de um ex-jogador, seu 4º livro, recebeu medalha de bronze do I Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo 2010. Atualmente é Secretário de Esporte e Lazer da Prefeitura do Município de Três Rios, RJ.

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Solitária Patrícia

  • 15/06/2012 em 13:45
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    “A dor, frustração e solidão faz parte do uniforme do atleta”
    Que leva no seu coração as alegrias que deu ao povo!

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