Sob o céu da Babilônia*

Em algum momento da história, o ser humano passou a ser humano, isto é, de repente, de alguma forma mágica, deu-se conta de si mesmo e do mundo que o cercava.

“Estou nu!”, exclamou Adão no Paraíso, expressando a sua perplexidade. Nada mais seria como antes. Adão até se arrependeu e tentou voltar atrás, cobrindo o seu sexo com uma folha de parreira… Que bandeira! Enfim, sabemos o resto da história: viu e estava visto. Não tinha mais jeito.

Agora, restava entender. Não foi tão fácil assim. Não havia palavras que pudessem aliviar a angústia do ser humano primitivo. Hoje, é muito fácil olhar para o céu e dizer: “Céu.” Mas imaginem a loucura que deve ter sido contemplar um mundo sem nomes! É como contemplar o próprio caos!

Havia, então, apenas Eu — que estava nu — e um montão de não-Eus. Ai, que medo! A primeira noite notada, observada pelo recém-nascido Eu, deve ter parecido de trevas sem fim… O inferno,  se fosse possível imaginar tal coisa. O Eu continuava atento, tremendo. De repente, no meio da escuridão, surgem pálidas promessas de luz, em algum lugar, ali… O dia. Luz à beça, permitindo ver as formas e as cores de tudo.

Sem memória, o Eu achou que estava no que seria o Paraíso. Mas, novamente, a luz esmorece, oh, não, esmorece mais, vai escurecer… escureceu. Agora, já há memória: trevas, o nosso Eu já conhecia. E assim ele foi observando. Trevas, luz, trevas, luz.

Passou-se muito tempo. Eras, talvez. Então o nosso Eu concluiu (sem palavras, é claro): depois do escuro, vem o claro. E depois, novamente o escuro. E assim por diante.

Dá para notar quão longo foi o caminho do ser humano para tentar entender o mundo em que habita. Até hoje estamos tentando. Estudos recentes sugerem que o homem primitivo buscou nos céus a explicação para os fenômenos naturais com os quais tinha que lidar incessantemente: dia, noite, trovões, tempestades, ventos, calor, frio, secas, enchentes etc. Tentava, provavelmente, encontrar algo que se repetisse, para ter uma referência, alguma regularidade no meio do aparente caos. Corroborando esta teoria, foram encontradas inscrições ósseas do período glacial que sugerem que há 32.000 anos os homens já tinham consciência da periodicidade lunar (fases da Lua).

Além disso, existem cartas estelares egípcias datadas de 4200 a.C.

Supõe-se que a Astrologia tenha tido sua origem na Suméria, por volta de 3000 a.C. A palavra Astrologia tem origem grega. É formada a partir de aster, astro, e logos, discurso, relato, razão, definição, faculdade racional, proporção. Uma forma arcaica grega de astro teria o significado de fado, destino.

As concepções originais da Astrologia foram criadas pelos sumerianos, provavelmente na cidade de Ur, fundada no 4º milênio a.C. por um povo do norte da Mesopotâmia.

Os sumérios tinham grande interesse na observação do céu. Este parecia uma grande abóbada de veludo negro onde as estrelas estavam fixas como enfeites de brilhantes. Notaram que, além do Sol e da Lua, cinco estrelas apresentavam um movimento mais rápido do que as outras: eram os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Esses sete corpos recebiam atenção especial. Os sumérios analisavam suas posições no céu e acreditavam que a disposição dos planetas era obra dos deuses, para benefício da humanidade.

Mais tarde, foram os caldeus que introduziram a Astrologia como é hoje conhecida. As estrelas foram agrupadas em constelações, para servirem como marcadores do movimento dos planetas. O Zodíaco, ou Caminho de Anu, era a rota seguida no céu pelo Sol, Lua e planetas, sempre pela mesma massa de estrelas — as constelações zodiacais. A divisão do Zodíaco em doze partes talvez tenha vindo da divisão em doze partes de duas horas cada uma do dia dos caldeus.

A Astrologia permaneceu séculos sem muitas alterações nas suas premissas básicas. Na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, ocorreu o que se convencionou chamar de Revolução Científica. Nesse ponto, o homem se descobre construtor do próprio mundo, e a visão medieval de um mundo controlado por deuses cai por terra.

Mais tarde, com a descoberta de que era o Sol e não a Terra o centro em volta do qual transitavam os corpos celestes, Astrologia e Astronomia iniciaram inevitável separação. Com o crescente interesse pelo método científico de investigação, que é indutivo e dedutivo, a Astrologia começou a sofrer um declínio de prestígio. Suas premissas não são passíveis de verificação pelos métodos científicos. Não podem ser reproduzidas em laboratórios.

Por muito tempo, a Astrologia recebeu o estigma de “não-científica”, um saber com raízes no passado místico e supersticioso do homem. Enquanto a ciência oficial desvendava cada vez mais os mistérios do Universo físico, a Astrologia insistia em “interpretar” os acontecimentos celestes mais ou menos dentro dos mesmos moldes de um passado remoto. Nem mesmo a descoberta de ser o Sol e não a Terra o centro do sistema abalou as interpretações dos astrólogos.

Paradoxalmente, embora muito antigas, as premissas astrológicas ainda não podem ser comprovadas cientificamente, pois só recentemente, de umas duas ou três décadas para cá, é que alguns cientistas voltaram sua atenção para a observação dos fascinantes padrões de comportamento rítmico e cíclico demonstrado pelos homens, pelos animais e por toda a natureza. E é justamente neste caráter cíclico da existência que estão fundamentadas as bases do saber astrológico. Desde o começo.

*Este é um trecho do meu livro “Iniciação à Astrologia”, lançado em 2012 pela KBR e pode ser lido também aqui

 

6 comentários em “Sob o céu da Babilônia*

  • 29/08/2011 em 22:04
    Permalink

    Rosangela, compartilhei no meu face. Muita luz.

    Resposta
  • 27/08/2011 em 14:14
    Permalink

    Também gostei muito.
    Inclusive de saber da influencia dos Caldeus na Astrologia ( tenho uma admiração particular pelos Caldeus).
    A Cada crônica aprendo um pouco mais e isso é muito bom.
    Continue escrevendo, sempre, que continuarei a ler.
    Abraço,
    Raul

    Resposta
  • 27/08/2011 em 13:04
    Permalink

    excelente Rosangela, é sempre otimo ler o que voce escreve, agora aguardamos ansiosos o seu livro, bjsssssssssssssssss

    Resposta
  • 27/08/2011 em 12:50
    Permalink

    Gostei muito!
    Aguardo o lançamento do livro já desejando sucesso!!! Beijo

    Resposta

Deixe você também o seu comentário