Só para garantir

Meu amigo, aquele adeus ficou na minha memória. Indelével! Já faz doze anos e não há um só dia em que eu não me recorde daquele aceno e o sorriso. Puro escárnio.

Quanta dor! Tudo doía demais, mas aquela recordação era o que mais me fazia sofrer. Vou te contar o que se passou.

A situação financeira naquela época estava terrível, e era dia de pagamento. Sabia que muitos dependiam de mim, então resolvi por segurança ir pessoalmente ao banco, que estava quase vazio: no estacionamento só se encontrava um carro — o meu — meio velhinho, nem chamava a atenção. Entrei e fui rapidamente atendido, saindo em seguida. Coloquei o pacote com as notas debaixo do banco dianteiro, certo de que não estava sendo observado. Em poucos minutos pagaria os empregados e iria mais cedo para casa descansar, pois a sexta-feira era muito bem-vinda naquela semana infernal de trabalho, você sabe, São Paulo logo após o carnaval, quando o país realmente começa a trabalhar, é caótica.

Estava no meio de uma avenida movimentada e o calor estava infernal. Os vidros abertos garantiam um pouco de brisa para cima de mim. Já estava pensando na pizza com cerveja em casa com a patroa e os meninos e qual sabor novo a molecada iria inventar.

— Dó logo o dinheiro que está debaixo do banco que você acabou de tirar! Anda! Anda!

A ficha custou um pouquinho, mas caiu. Nem retruquei. Vagarosamente, me abaixei, olhando nos olhos daquele homem muito grande, montado em sua moto. A arma não me atemorizava tanto quanto aqueles olhos frios e injetados. As ventas estavam alargadas, e eu quase podia sentir seu hálito vindo do inferno. Por baixo do capacete ainda vi uma gota de suor escorrendo para seu queixo com a barba por fazer. Os poros do nariz eram muito abertos e sua pele manchada. Percebi que havia outra pessoa do lado do passageiro, provavelmente seu comparsa. Mas mesmo se ele estivesse sozinho eu jamais me atreveria a contestar, tal pavor aquele homem me inspirava. Seria difícil reconhecê-los, já que estavam com roupa impermeável, preta como a de tantos.

O coração batia na minha garganta, as costas arrepiadas, a respiração acelerada, em meu corpo tudo preparado para lutar ou fugir. Eu só queria fugir. Entreguei o pacote como o recebera do banco; e até aquele momento não emiti um som.

Ele apanhou o dinheiro, baixou a arma para facilitar a colocação do embrulho no cós da calça; mesmo assim eu continuava a encará-lo, como que hipnotizado. Senti um pouco de alívio pensando que havia conseguido me livrar do problema com eficiência, quando ele levantou novamente a arma em direção de minha cabeça e atirou. Não pude acreditar que nada aconteceu. O tiro falhou. Implorei: Vá embora, tenho família. Mais uma vez pensei que estava livre, quando ele novamente apertou o gatilho e descarregou todo o revólver em mim.

Meus olhos o seguiram quando ele arrancou, virou para trás e acenou com um sorriso.

Um ano e meio no hospital, quase dois meses na UTI, e aquele sorriso continuava a me perseguir. Não havia morfina suficiente para aplacar aquele tipo de dor. Nunca perguntei, mas até gostaria de saber se alguém sorriu para ele na hora em que recebeu os tiros que tiraram a sua maldita vida e a do seu comparsa.

Agradeço à minha família por tudo.

 

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5 Resultados

  1. Luiz Boz disse:

    Muito Bom! prendeu atenção até o seu final.

  2. Erica disse:

    “Nunca perguntei, mas até gostaria de saber se alguém sorriu para ele na hora em que recebeu os tiros que tiraram a sua maldita vida e a do seu comparsa.”

    Quer dizer que alguem da famila matou os criminosos?
    Se for isso, adorei. Que morram os criminosos e vivam os inocentes…

  3. Vanessa disse:

    Muito bom o texto, triste por ser verdade, assustador por ser nossa realidade, mas muito bem escrito, parabéns!

  4. Priscila.
    Olha você entrando nas histórias policiais!
    Parabéns! Está ótima!

    beijo grande

  5. AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
    AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
    CARAMBA!

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