Só os radicais são livres

Um povo é o rodeio da natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. Sim, e para depois evitá-los.

Nietzsche

 

De acordo com o Princípio da Incerteza de Heinsenberg, é impossível se determinar a posição de um elétron; no máximo, o que os físicos quânticos podem fazer a respeito é calcular a probabilidade de sua trajetória. Quando desgarrado da partícula, além da incerteza de sua órbita, o elétron solitário passa a roubar elétrons das moléculas vizinhas. A molécula que perde um elétron reestabelece seu par roubando o elétron do vizinho, e assim sucessivamente -— dando origem aos radicais livres.

Também os radicais do gênero humano, mesmo rodeados de gente, estarão sempre solitários no seio da cultura. Os radicais livres do corpo manifestam-se em decorrência de uma vida desregrada. Do mesmo modo, os radicais da sociedade surgem em ambiente conturbado. Em lugar de uma vida recolhida, os radicais apresentam-se para a desgastante tarefa de revolucionar o mundo, transformando primeiro a si mesmos.

Se Jesus, o primeiro dos radicais, tivesse dado ouvidos aos Fariseus, provavelmente não teria morrido na cruz, e sim de velhice, pescando tranquilamente no mar da Galileia, como se deu no filme “A última tentação de Cristo”.

Nelson Mandela preferiu passar vinte e sete anos na cadeia a aceitar o regime do apartheid. Livre, divorciou-se da mulher e casou-se com a Presidência da África do Sul. Marx, que nunca trabalhou, revolucionou o mundo teorizando sobre as relações entre o Capital e o Trabalho. Morreu na miséria, sem nunca ter apertado o parafuso de uma máquina.

Ainda que um grande homem só apareça a cada cem anos, a receita para se transformar em um deles pode ser adquirida em qualquer banca de revistas. Procure algo com o título “Como se Tornar um Novo Homem”; se você for mulher, é só trocar o gênero do título.

Porém, o que distingue o homem de verdade de um artista que rebola na televisão é sua vontade inabalável. Para o homem, grande, médio ou pequeno, cada dia é uma batalha; o pior inimigo mora dentro de nós mesmos. Experimente traçar qualquer meta para sua vida, por mais idiota que lhe pareça ser, tal como parar de comer batatinha frita, deixar de fumar, emagrecer, abster-se de álcool, virar vegetariano, ou até mesmo promover uma cruzada contra a Coca-Cola, qualquer coisa em que você acredita: já dizia Sartre que “até a decisão de não fazer uma escolha é uma escolha”.

Para Nelson Rodrigues, todo líder era um canalha. E para comprovar sua tese, o anjo pornográfico propunha-nos a seguinte experiência: “– ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto”.

Steve Jobs foi um canalha, gênio da informática, líder empresarial ou apenas um chefe babaca? Difícil definir. Há versões para todos os fãs e críticos dos produtos Apple. Se todo líder é um canalha, o radical está mais para o tolo na colina: louco, ingênuo. A princípio, como se fosse um espelho refletindo a si mesmo, o radical não quer liderar ninguém, o radical não quer transformar o mundo exterior.

— Deixe tudo e me siga.

— Que garantia você me oferece? — perguntaria o homem comum ao Mestre.

— Se você precisa de garantia, procure no supermercado.

Disposto a buscar a raiz das questões, o radical abre túneis no subsolo de nossas certezas. Como se antevesse o que está por vir, inconformado com as explicações aclamadas pela tradição, a linguagem das palavras não lhe seria suficiente para explicar o mundo que ele traz em mente. Os radicais são visionários; expressam-se para atingir o inconsciente por meio da arte, música, gestos, parábolas, aforismos, ditirambos, fé, crença, amor e poemas. “No conformismo da Academia”, dizia Nietzsche, “nenhuma verdade completamente radical é possível”.

O mergulho na incerteza é alimento para o espírito livre. Como se dá com o elétron desgarrado da molécula, é difícil precisar o próximo passo do humano radical. Quantas vezes os seguidores de Ghandi imploraram para que ele se alimentasse?

Jejuando, o Mahatma dominava a si mesmo — domando seu egoísmo, disciplinando a própria vontade, ninguém poderia governá-lo, a não ser ele mesmo. Enquanto Freud baforava o seu charuto, o carretel de fumaça que embaçava o conhecimento da mente humana dissipava-se diante de seus olhos.

Seja na teimosia pacifista de um Mahatma, no naturalismo utópico de um Henry David Thoreau, ou na fixação sexual de um Freud, a diferença entre um grande homem e o homem médio é que o primeiro cultiva sua imperfeição ao extremo, enquanto o “normal” se envergonharia por não ser igual aos demais. Foi com gestos simples, o radicalismo da não-violência, e não por se adaptar aos termos propostos pelos ingleses, exortando o povo da Índia à resistência pacífica, fazendo sal ou tecendo as próprias roupas, que Ghandi torceu a espinha do Império Britânico.

A qualificação do que se enquadra como defeito ou virtude fica a critério dos padrões estabelecidos pelas castas dominantes: na interpretação moral dos fenômenos, a eterna luta entre Apolo e Dionísio. O mundo de hoje nos quer todos iguais: sarados, esquálidos, antenados, globalizados, belos e educados. Contudo, as personalidades veneradas da história, cada uma em seu tempo e à sua maneira, eram homens atípicos, trágicos, radicais ao extremo.

Tiradentes subindo os degraus da forca: um símbolo da liberdade tardia ou uma ameaça aos interesses da Coroa? Depende do distanciamento histórico, da necessidade do momento e dos Interesses de Estado, como, por exemplo, a morte de Tancredo Neves no dia 21 de abril de 1985 (ah, conta outra, Tancredo já estava morto quando sua morte foi anunciada, e Tancredo nunca foi um radical).

Nietzsche, que durante toda sua vida foi desprezado pela Academia, dizia ter um medo terrível de um dia ser declarado santo. Os radicais são tão odiados que normalmente são eliminados. Como as baratas. Foi assim com Ghandi, com Sócrates, com Cristo e com tantos outros menos amados.

Um homem que vive radicalmente incomoda muita gente; montado em um elefante, com um martelo na mão, destruindo todos os símbolos de consumo, o radical incomoda muito mais. Não fosse pelos loucos visionários, esse mundo cão não teria a menor graça. Se os radicais saíssem de suas tumbas, nós os assassinaríamos de novo, quantas vezes fosse preciso, “nada pessoal”, diria Capone. “São apenas negócios”.

Em nome da propaganda oficial — um símbolo para se fundar uma igreja, o slogan para uma bandeira, religião, o mote para fundar um partido político, uma marca de calça jeans —, o homem radical é mais útil para a Cultura depois de morto. Do alto de sua ironia, a Esfinge cospe um novo enigma: o homem morre e acaba ou cada morte individual é o melhor adubo para a vida da cultura? Morre o homem para passar a viver na eternidade do corpo e da cultura? Ou morre a cultura em cada corpo que se deteriora?”, questiona  Cleide Riva Campelo em Cal(e)idoscorpos, um estudo semiótico do corpo e seus códigos.

Para servir de estátua, argamassa, pedra, alicerce na construção de um novo templo, as mudanças de paradigma requerem um novo homem. Contudo, para que o novo homem possa nascer, de forma que tudo continue como antes, não há outra saída: há que se encontrar um radical para ser executado.

No seio da Cultura, o novo homem já nasceu póstumo. Quantos Francelmos terão que atear fogo ao próprio corpo para que a preservação da flora e da fauna seja mais importante do que a instalação de usinas de álcool no Pantanal Mato-Grossense?

O mundo muda, mais pela visão dos radicais do que pela obediência dos normais. Só os radicais são livres.

 

 

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2 Resultados

  1. Impressionou mesmo, parabéns.

  2. Priscila disse:

    Oi Carlos.
    Quanta cultura, quantas citações. Impressionou.
    Priscila Ferraz

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