Sexo, nosso grande tabu

nogatopNão tenho que dar satisfações a ninguém, mas me deu um desejo enorme de explicar a vocês por que tirei meu livro sem graus de separação da categoria “erótica” da Amazon Brasil (onde, como editora, a princípio o classifiquei, e onde ele se manteve no topo por quase 30 dias seguidos, registrei para a posteridade), no meio da noite de uma asfixiante sexta-feira.

Não conseguia dormir. E vamos combinar que nem foi devido à enxurrada de propostas indecentes que recebi na KBR por causa do nosso sucesso de vendas, que ainda persiste, felizmente. Indecentes, digo, textos que primam pela leviandade, obscenidade, porcaria, pornografia. Isso, sem contar que o próprio algoritmo colabora, deixando os “picantes” de fora da Grande Lista, e com razão. Custei, mas finalmente entendi o motivo.

Quem trepa são os gatos lá fora, e como trepam, nossa mãe. O gato não larga a gata que já pariu faz pouco, tendo concebido, provavelmente, de dois gatos diferentes. Agora há 3 gatinhos e o pai já “busca” a filha pequena incessantemente, essa coisa cria vida em progressão geométrica, vocês entendem, mas eis que a gente descobre como a vida pode ser inconveniente.

Pois a gata sumiu de repente, e a querida vizinha da Rua A, com quem compartilho o sustento da “família” crescente, viajou no fim de ano com todos os parentes, e agora o “nosso” gato — explico as aspas, é um gato que adotamos do mato, não nos “pertence” realmente, como, aliás, tudo nesta vida passageira —, sem ter com quem se esfregar diariamente, se satisfaz com a língua, às vezes sobre os próprios testículos (provocando inveja vocês sabem em quem), às vezes nos vidros, batentes, qualquer fresta deixada aberta em portas ou janelas para aliviar sua fome premente. Outro dia, imaginem, ansioso por amor e carinho (leia-se, abrigo e comida) caiu sobre meu corpo que relaxava na banheira, ah, foi demais, devo confessar.

E tudo que é demais, enoja. Enjoa. Além do mais, sexo com animais não faz sentido pra mim, e o que era vida e simpatia tinha virado praga doentia. Muita gente, a maioria, tem “amor” verdadeiro aos animais, que, acreditam, lhes correspondem em igual medida. E para evitar os abusos que relato, adequá-los a seu prático dia-a-dia, castram sem piedade suas crias. Custei, mas finalmente entendi o motivo.

Entendi Javé com sua sanha fogosa, primitiva, justiceira, incomodado com Sodoma e Gomorra em seu universo idealizado, a perturbar uma harmonia antes tida como sem mácula, perfeita. É um inferno essa copulação infindável, inconsciente, infinita.

Todavia, os gatos que aqui vivem são gatos do mato, como já disse. Não lhes cai nada bem uma atitude urbana que os adapte à nossa rotina repressora e moralista, sabem como é: “quem ama, liberta”, e ao mato liberamos sua orgia, liberdade total, ainda que tardia, para eles e, principalmente, para nós, invasores, que respeitamos sua plena energia.

E por que lhes conto tudo isso? Uma amiga recomendou que não o fizesse, “todos temos nossos segredos”, ela disse, que garantem que a gente saia bem na fita — com bichos gostosos no colo e muitos orgasmos todo dia, se é nisso que você acredita. E é aí que volto a falar sobre o meu livro. Que, obviamente, nada tem a ver com pornografia e não cabe, portanto, na mesma prateleira da livraria.

Enquanto o sexo é animal, pois somos animais igualmente e, via de regra, através do sexo criamos vida, o erotismo, meus amigos, é uma arte que a muitos abate e que só aos fortes, entregues, artistas, entesa o arco de um prazer que não obriga, mas abrange, convida.

O erotismo é humano somente, e quando praticado, nos eleva moralmente. É sobre isso que escrevo no meu livro, e foi o que me levou a uma descoberta surpreendente. O erotismo é nossa base latente, e sobre ela erigimos um amor que não morre com a gente. É muito mais do que ritmo e rima, e sobrevive, faz com que sobreviva um casal intermitente, que por vezes se odeia com unhas e dentes. E foi por isso que escrevi o meu livro, justamente, e então? Ainda acham que eu poderia abandoná-lo à própria sorte, entre xoxotas inchadas e enormes pintos intumescentes?

Muita gente, e já escrevi sobre isso, se ofendeu com o tema comum que compartilho sem limites evanescentes, por amor a uma humanidade buscadora espiritualmente e moralmente decente, honesta, transparente. “Todos temos os nossos segredos”, diziam, querendo dizer nas entrelinhas que o sexo de verdade deve estar entre eles, guardado a sete chaves sob um manto civilizatório e deprimente. Nossa mente naturalmente devassa deve ser mantida discreta, calada, no fundo dos quartos onde a perdição é praticada, secreta e solitariamente, sem que afete a nossa fachada — que a protege do lixo que compartilhamos explicitamente, me desculpem se mais uma vez me excedi.

É meu estilo, meu trabalho, a missão que tomei para mim: provocar algum tipo de choque em quem volta a me ler semanalmente, é o que espero, torço para que aconteça quando me sento e escrevo crônicas regulares, com a disciplina de um operário obediente.

Quem ama liberta, mas só se liberta quem goza o amor sem fronteiras, se entrega sem barreiras, confia no parceiro que por pura sorte mantém em seu leito com muito deleite, alguma lealdade e a paciência necessária, portas e janelas abertas sem que nos tolha a carência e limitação alheias. Quem passa por isso e a isso sobrevive tem que passar sua dor e alegria para frente, até que — como o centésimo gato, ou crítico macaco — nos tornemos uma sociedade mais disposta, sensível, verdadeira e prazerosa. Coerente, pelo menos, pois foi assim que nos imaginamos como seres humanos.

Ah, sim, meu livro erótico, mas muito decente (posso garantir), continua sendo lido e apreciado por muita gente, ainda bem, fora da classificação que o igualaria a outros em nada a ele semelhantes — por sua própria proposta ou tibieza menos poéticos ou emocionantes, sorry, pornográficos de plantão, uma trajetória gratificante, escrevam aí, “sem graus de separação” entre o que somos e pretendemos ser externamente.

Pronto, entreguei. E um bom domingo procês.

 

 

3 comentários em “Sexo, nosso grande tabu

  • 06/01/2013 em 11:55
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    A culpa é sem dúvida devido ao obscurantismo religioso que nos envolve. Perceberam que as religiões correntes, sem pecado e sem sexo deixam de existir. Porque, segundo eles, a condição “vital” para entrar na rodinha é ser “pecador”, caso contrario nada feito. Continuar com a especie é o instinto mais forte de toda forma de vida. Pecados a parte, é bom!

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