Semana Santa

A Semana Santa sempre era vista com zelo e cerimônia em minha família. Com antecedência de dias, minha mãe já preparava o bacalhau para o sábado de aleluia e eu sabia que, quando este peixe chegava à nossa casa, era o momento de rezar intensamente e fazer orações.

Eu não entendia o significado das palavras, mas, contrito, as repetia, unido às várias pessoas que visitavam o lar paterno para a novena e eram, em sua maioria, mulheres e crianças. Tampouco essa atividade eu compreendia; acompanhava minha mãe, porém, à casa dos vizinhos, que, por sua vez, viriam à nossa morada mais tarde. Então, reinavam a solenidade e a tristeza: era clara a sensação de que algo muito grave acontecia, eu só não sabia dizer do que se tratava. Diziam-me que celebrávamos a paixão de Cristo, que por nós morrera na cruz. Eu fingia um falso entendimento, mas me perguntava por que tão grave martírio lhe fora imputado. Nessa ocasião, eu ainda não fizera a primeira comunhão e nem tinha idade para tal, por isso o conhecimento cristão vinha-me aos ouvidos picado, num código que eu estava longe de decifrar.

A sexta-feira era o dia mais impressionante. Tudo era silêncio e comedimento. Quando a tarde chegava, minha mãe saía para participar da procissão que percorria as ruas do bairro. Eu não podia acompanhá-la — isso era privilégio de minha irmã mais velha; mas permanecia aguardando o cortejo, pois também diante de minha porta ele passaria. Agarrado ao gradil de ferro do portão de entrada, quando o grupo finalmente se aproximava eu me encontrava num estado de vigília e terror.

A lembrança da procissão do ano anterior me surgia confusa e desconexa, sua espera me provocava uma mistura de sentimentos. Certa vez, mal acabava de pensar nos fatos de outrora, escutei os sinos que precediam o cortejo. Com o rosto enfiado entre as grades, segui ansioso a evolução das pessoas: à frente o sacristão, carregando uma cruz processional de cobre, revestida por uma faixa de veludo roxo, no qual um enunciado em latim dourado se destacava; em seguida, entrava o padre da paróquia, junto com os coroinhas, fazendo uma barreira dos dois lados, determinando o limite da caminhada; e atrás, os fiéis, entoando os hinos religiosos, primeiro os homens depois as mulheres.

Eu, diante desse espetáculo barroco, afastado pelo cuidado materno, acompanhava a evolução. De repente, uma mulher que vinha com um pano nos braços entoou um grito ou um canto que fez arrepiar todos os pelos do meu corpo. Num lamento choroso, abriu-o, e vi que o tecido mostrava a imagem de um homem com o rosto ensanguentado. Aterrorizado e, ao mesmo tempo, fascinado, eu não conseguia tirar os olhos daquela aparição: a mulher, num movimento circular, exibia a todos a razão do seu sofrimento. Depois de uma breve pausa, ela se virou e seguiu adiante.

Ainda não havia me recuperado do impacto daquelas imagens, quando uma nova surgiu na minha frente. Num caixão de vidro, vi o que parecia ser o cadáver de um homem seminu. Sem compreender o motivo de ninguém ajudá-lo, e paralisado com o sangrento espetáculo exposto a todos, eu apertava com mais força as barras de ferro do portão.

Sem parar diante de mim, contudo, o sofrimento contemplado acompanhou o ritmo das pessoas e se deixou levar.
Paralisado, como se tivesse sido congelado no tempo, eu não conseguia processar todo o acontecido. Só acalmei meu coração quando vi passar a mãe e a irmã, compenetradas e silenciosas. Minha mãe por um instante me olhou, sorriu de modo contido e continuou a caminhar.

Consegui soltar as mãos das algemas invisíveis que me prendiam e corri de volta para a varanda. Depois de uma hora, minha mãe retornou com meu pai e minha irmã. Vinham felizes; meu pai me tomou nos braços e me beijou, entramos em casa e fomos jantar. A alegria de todos me contagiou e, em pouco tempo, eu já havia me esquecido do terror que tinha vivenciado.

Passados tantos anos, quando esta semana se aproxima, um quê de fascínio e terror toma conta de mim. Fecho os olhos e ainda vejo a criança que fui agarrada a um portão. Revejo as imagens e mesmo hoje, compreendendo os símbolos, algo assustador ainda me acompanha; algo que fala de um sofrimento incompreensível em sua totalidade, de um homem que, para muitos, ainda continua indecifrável.

 

 

2 comentários em “Semana Santa

  • 11/04/2012 em 13:05
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    Gustavo, me lembro da infância em BH quando na sexta-feira da Paixão só tocava música clássica no rádio. A gente gostava. Não sou cristã, nem religiosa, mas aprecio a seriedade de outros tempos quanto aos temas filosóficos e morais. Acho que as coisas estão pela hora do caos hoje em dia, um pouco de sobriedade nos faria bem. Boa crônica. Bjs

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    • 11/04/2012 em 16:18
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      Era uma época de ritos.A religião tinha um papel forte dentro das famílias,em especial as mineiras.
      Obrigado pelas palavras e pelo carinho.
      Beijos.

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