Sem medo de sofrer

Sua alcunha era Trovão, pelo tom grave e reverberante de sua voz.

Era um homem bom, de idade aparente indefinida, mas que há muito passara dos sessenta. Tinha um pequeno rancho na beira de um rio, uma casinha simples: quarto, banheiro e um puxado que abrigava um velho fogão a lenha. Vivia de uma pensão do governo por ter sido, durante muitos anos, auxiliar da coletoria fiscal. Aposentou-se por causa dos males da bebida, única companheira fiel após a morte da esposa.

Dizem que a moça morreu de desgosto, por não ter tido o filho que tanto queria e também pelo vício do marido. Quanto a este, vendo o sofrimento da mulher e se sentindo culpado por ter parte nele, se refugiava no bar, tentando fugir daquela dor. Nesse círculo viciante, via a amada mais doente a cada dia, até que ela partiu numa noite fria de outono.

Neste dia ele saiu para a rua, desorientado pela dor e pela bebida. Sem perceber, esbarrou num policial que fazia sua ronda e o desacatou violentamente. O soldado Juliano e o cabo Francisco, pegos de surpresa pelo ataque de fúria do bêbado enlouquecido, tentaram contê-lo, num primeiro instante, com palavras e advertências. Mas quando um tremendo tapa no pé do ouvido estalou no rosto da autoridade militar da região, eles não tiveram dúvida: desceram o cacete no agressor, sem dó nem piedade.

Após o ocorrido, levaram o nosso amigo para a cadeia, e ali ele permaneceu até o dia amanhecer. Ao acordar, Trovão se viu só; como companheira de infortúnio, apenas a tristeza. Vendo o homem refeito da sua atitude desmedida, o cabo resolveu libertá-lo, não sem antes adverti-lo de que se contivesse, a fim de não sofrer novamente os rigores da lei.

Assim foi feito. Trovão voltou para seu rancho e para a sua solidão. Mas, uma vez por mês, retornava à cidade, bebia e discutia com a guarnição. Dali para uma briga faltava um quase nada; depois da altercação, vinha a prisão e o arrependimento. Certa vez, cansado de vê-lo sofrer, um velho amigo do trabalho se dispôs a visitá-lo. Aproximou-se da casa com cuidado, bateu palmas e chamou:

— Trovão! Ô Trovão!

— Quem é que está aí? — respondeu a voz já conhecida, que retumbou nas paredes.

— Sou eu, Trovão! Alcides, seu antigo colega!

— Ô Alcides! Entra para cá, rapaz! Estou aqui atrás, trançando uma rede.

Alcides entrou; atravessou o quarto até se ver no fundo da casa. Ao lado do fogão, sentado num banco de madeira, se encontrava o pescador. Seu rosto guardava ainda as marcas da última briga com a polícia.

— Ô Trovão! Você está todo machucado!

— Estou, rapaz! Aqueles cachorros do governo têm a mão pesada!

— Mas, homem de Deus, por que tanta briga e desavença?

— Ah, Alcides! Primeiro, é a tal desta desgraça — disse, apontando para a garrafa de pinga pela metade, ao alcance da mão. — Segundo, é culpa daqueles cabras. Não podem me ver, que vêm me aporrinhar! — Prosseguiu, olhando o amigo com certa tristeza, mas com um sorriso maroto. — Mas eu dou trabalho para eles! — Advertiu ao visitante.

— Que trabalho, Trovão!? Me disseram que da última vez te deram uma coça para valer, e para terminar passaram uma corda no seu pescoço e foram te puxando até a cadeia…

— É verdade, camarada! Eles me fizeram essa maldade! Mas cada vez que me puxavam, eu dava um esticão para trás! — Bravateou, rindo da própria façanha. — E tem mais! Eles eram uns quatro, e me bateram para valer. Eu já estava prejudicado pela malvada e não pude reagir muito, isso é que foi a salvação deles. Além do mais, eles têm uma sorte danada! Eu estou com um furúnculo enorme, aqui nas costas, e se aqueles cachorros me encostam a mão nele eu ia brigar demais!

Os dois amigos se entreolharam, e riram sem parar. Riram da valentia singela e simples de um homem que não tinha medo de seu sofrimento. Alcides passou a visitar o amigo regularmente e por causa disso (ou por coincidência?) Trovão diminuiu o consumo de bebida e parou de brigar com a polícia.

O antigo companheiro convidou o velho para ficar com ele e a família por uns dias e parece que a atitude reforçou a cura. Trovão se aprumou, fez a barba e, com o tempo e a convivência com outras pessoas que lhe queriam bem, redescobriu o carinho e o afeto.

Em um dado momento parou de vez com a bebida; ainda tinha a voz que lhe dera o apelido, mas da dor e amargura que carregava no peito só ficou a lembrança, que os anos devagar e silenciosamente devolveram para as águas do rio de onde o velho pescador tirava seu sustento.

 

 

2 comentários em “Sem medo de sofrer

  • 19/10/2011 em 18:32
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    Olá Gustavo.
    Comovente a sua crônica. De forma bem escrita e singela nos mostra quanto faz falta a convivência com o amor e o carinho. Parabéns.
    Beijo grande

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    • 19/10/2011 em 18:35
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      Oi Vera.
      obrigado por suas palavras sempre carinhosas e gentis.
      Beijo Grande.

      Resposta

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