Sem medo de ser feliz

O casal já tinha perdido as esperanças quando a mulher engravidou, depois de mais de 10 anos de espera. Pedrinho nasceu cercado de todo cuidado depois de uma gravidez de risco.

Foi sempre uma criança protegida pelos pais; não aquela proteção natural, mas a que nada permitia, impedia a criança crescer naturalmente: nada de brincar no chão que era sujo, por exemplo, muito menos no quintal onde tudo poderia acontecer. O menino era preservado de tudo e de todos. Para pais tão zelosos, tudo trazia risco para a integridade do filho, afinal, o mundo é muito “perigoso”.

Depois de muita discussão com parentes e amigos, a criança foi matriculada na escola do bairro. Mas depois de tantos anos sem companhia, Pedro se tornara uma criança tímida e sensível, o que favorecia a distância das outras crianças. No colégio, tinha poucos amigos, e apenas Clara, uma menina alegre e vivaz, que coincidentemente era sua vizinha de bairro, conversava e brincava com ele. Sua casa era em frente à do garoto, e por serem seus pais muito amigos e quase tão zelosos quanto os dele, era-lhe permitido frequentar a casa e brincar com o amigo recluso. Com as outras crianças, suas atividades e relacionamentos eram restritos à sala de aula.

O tempo passou, Pedro cresceu; e junto com ele, a preocupação dos pais. Não podia jogar bola, pois poderia se machucar; não podia brincar na chuva, pois poderia adoecer; enfim, sua única atividade era ficar em casa sob a proteção paterna.

A adolescência chegou, e diferente dos outros rapazes e moças do bairro, ele não ia às festas. Sua timidez só aumentava. Pedro era um rapaz bonito, forte e de boa constituição, mas era tratado como a mais a frágil das criaturas. Via o mundo através do vidro da janela de sua casa, que dava para a rua do bairro, escondido atrás da cortina da sala.

Até Clara, sua única amiga, com o tempo se afastou. Percebia, ao sair de casa com um grupo de amigos para se divertir ,o semblante do rapaz no parapeito da janela, mas depois de tanto tentar convidar o tímido amigo para sair com os colegas e  se divertir, percebeu que a maior barreira eram seus guardiões paternos:

— Desculpe, Clara, Pedrinho está estudando — dizia sua mãe ao abrir a porta.

— Ah! Clara, ele não pode sair, está um pouco resfriado.

A barreira que os pais do rapaz erguiam ao redor dele era quase intransponível. Mas, apesar de tudo, era com pesar que Clara saía para se divertir deixando o amigo solitário para trás.

O tempo seguiu seu curso. Com a morte dos pais, Pedro se viu só no mundo. Vivia de casa para o trabalho e do trabalho para casa, numa rotina restrita. Não tinha amigos e vivia só. Morava na mesma casa, no mesmo bairro. Suas únicas atividades eram a leitura, ouvir musica clássica, fazer exercícios com pesos e correr numa esteira que comprara para se exercitar, colocar  para fora um pouco da energia contida.

Via Clara quando ia para o trabalho. Se cumprimentavam em silencio, mas com amizade. Sem que o rapaz percebesse, um outro sentimento surgia, um amor tímido e simples brotava em seu coração. Clara, agora já uma bela mulher, vez ou outra conversava com ele quando coincidia de se encontrarem a caminho de casa. Pedro, ao mesmo tempo em que ansiava por isso, temia tal acontecimento. Esses momentos lhe traziam uma alegria que ele mal podia compreender. Vinham caminhando juntos, conversando um pouco, o que, para ele, era como um raio de sol entrando pela janela num dia frio. Não era comum que isso ocorresse, mas, quando acontecia, o mundo mudava de cor, o azul do céu ficava mais nítido. A amiga aceitava o amigo recluso e tinha por ele uma  estima real.

Um dia, Pedro estava em casa, à noite, quando ouviu uma discussão na rua. Era Clara, e junto a ela estava um homem. Ela tinha saído do carro dele e se dirigia para sua casa. Ele a seguiu e a pegou pelo braço. Ela tentou se desvencilhar, e ele a segurou, agora com as duas mãos. Pedro, vendo a cena, sentiu seu sangue ferver. Algo estava errado. Então ouviu:

— Me solte, me deixe entrar!

— Só se voce me der o beijo que quero — respondeu, rindo, o homem que a acompanhava.

— Você ficou louco! Me solta! Só te pedi uma carona!

— Pare com isso, eu sei o que você quer — disse o homem, com um tom de raiva na voz.

Pedro viu Clara empurrar seu agressor e este a forçar um beijo. Abriu a porta e gritou:

— Clara!

— Pedro, me ajude! — Pediu a garota.

Pedro correu em direção a ela e àquele que a molestava. O homem largou a garota e lhe disse:

— Você vai aprender a não se meter onde não é chamado! — E lançou um soco contra o rosto do rapaz.

Pedro sentiu o golpe e caiu no chão. Algo molhado e quente escorria de seu nariz. Instintivamente, levou a mão ao rosto e, vendo a mão ensanguentada, sentiu uma raiva surgir dentro de si. Levantou-se, agarrou o braço do agressor e lhe desferiu um murro com uma força que desconhecia. Sem esperar qualquer reação do adversário, o homem foi atirado longe. Protegendo a amiga com o próprio corpo, Pedro encarou com o olhar o covarde agressor. Este, vendo a resolução do rapaz, levantou-se ameaçando:

— Isso não vai ficar assim! — Entrou dentro do carro e partiu.

— Oh, Pedro! — Foi o que Clara conseguiu dizer. Retirou da bolsa um pequeno lenço e limpou o rosto do amigo.

— Você está bem, Clara? — Ele conseguiu dizer, sentindo a mão delicada dela em seu rosto.

— Sim, graças a você! — Ela disse, olhando em seus olhos com gratidão.

— Eu conheci o Paulo no trabalho, e quando ele se ofereceu para me trazer em casa depois da festa de fim de ano, não tive maldade para perceber as intenções dele.

— Não se preocupe. A coragem dele é do tamanho do caráter, ele não vai mais molestá-la.

— Mas como você viu que ele estava me machucando?

— Eu não durmo enquanto voce não chega! — Respondeu o rapaz, com o coração.

Ela olhou para o amigo como se o visse pela primeira vez. Aproximou-se de seu rosto e o beijou delicadamente na face.

— Obrigada, Pedro! — Sorriu e entrou em casa, lentamente .

Ele a seguiu com o olhar. Levou a mão até o rosto, onde o beijo ainda queimava. Se viu diferente, e, pela primeira vez em sua vida, não teve medo de nada.

 

 

 

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