Sem dias, por favor

(breves considerações sobre a sincronicidade universal)

Então tá, passou o Natal, é o tempo de idílicas resoluções e coisa e tal, mas não vou falar sobre isso agora, só na próxima crônica, já sob os influxos positivos do ano novo, me aguardem.

Me impressiona o dinamismo da vida (um parêntese para o meu nobre marido, que quer que eu discorra, em português, sobre os múltiplos sentidos do vocábulo “dinamismo” antes que o café da manhã se acabe, numa manhã de domingo, e de Natal, a gente tendo que sair pro Rio nesse calor infernal, francamente; quando solto um prosaico “coisa em constante movimento” ele se enfurece, diz que existem mais de 40 definições, larga o café pelo meio e sai batido, nem presta atenção ao enorme e impactantemente sutil bicho-pau no canto direito do pano de vidro (parêntese do parêntese: nada é tão gostoso na nossa vida conjugal quanto o café da manhã no sofá de frente para a Maria Comprida, entre nuvens ou não sempre tão bonita, olhando os gatos, pássaros e insetos multicoloridos que nos rodeiam em nossa idílica existência, idílio, palavra-chave, fecha o segundo parêntese) só pra me irritar, pensa que me engana, vai direto ao Google pra logo depois pelo skype me humilhar com sua erudição bacana, fecha o primeiro parêntese), quero dizer, eu já tinha alinhavado uma crônica sobre as maravilhas sincrônicas desta vida — entrega ao universo, o universo responde, o universo não existe —, mais sobre isso adiante, quando me deparei no jornal com uma novidade instigante, “Uso regular de diurético aumenta a expectativa de vida de hipertensos”. O tema me interessa de verdade, já que Alan, além de velho e gordo — ops, desculpem, maduro e encorpado —, é também hipertenso como vocês sabem, os motivos estão todos lá, no artigo — hereditariedade, excesso de peso, sedentarismo, fumo, consumo de sal e álcool em excesso, mais o envelhecimento, cortem mais recentemente o fumo e o excesso do sal —, ah, o envelhecimento, este fantasma morrinhento com que ambos convivemos nos últimos tempos, fazer o quê. Não fosse isso e estaríamos mortos para sempre.

Mas voltando à pressão do Alan — não a que ele exerce sobre mim 24 horas por dia, certo, ninguém é amado impunemente, apesar das ilusões em contrário —, que tem estado finalmente controlada graças ao deus sob o nome de Dr. Ricardo Ribeiro — thanks, doc, valeu aí, feliz ano novo para ti —, sigo lendo o artigo para chegar a esta pérola de seriedade científica: “O ganho de expectativa de vida depois de 22 anos foi de 158 dias para mortes por doenças cardiovasculares e 105 dias para mortes por todas as causas”, grifo meu, mas como é que é? Será que ninguém percebeu o ridículo da coisa ao escrever?

Meu deus… o que são cem dias em 22 anos, em troca do preço pago por tantos medicamentos? E não me refiro, obviamente, ao preço em reais, que já é significativo, mas em dietas restritivas — coisa que tira o gosto de qualquer vida —, o obrigatório exercício que a maioria abomina, vamos combinar, ao controle do ex-sexo (por efeitos colaterais), do álcool, do fumo e segue a longa lista, isto lá é vida?

Sob a perspectiva zen, devo concordar, bom mesmo é o caminho do meio. Mas sabe-se lá se depois de tantos séculos de experiências vividas o zen dita ainda o bom caminho a se trilhar, ou se se enfia por artes de uma resumida contemporaneidade no mesmo saco de gatos daquele universo que citei aí em cima, que nada tem a ver obviamente com o universo natural em si, cada vez mais amplo e intrigante, com os dois novos planetas passíveis de vida ativa e a nova partícula do Grande Colisor, embora a existência de Deus, digo, de Higgs, continue nos escapando. Dizem as más línguas que dentro em breve nosso querido Hitch mandará de seu divino iPad um recadinho à web sobre isso.

Ops. Me perdi, acabei me perdendo. O caso é que em tantos casos como este a gente se deixa iludir, cai na teia do marketing nem sempre iluminista e acaba trocando 12 por uma dúzia, sabem como é. Como aquela minha linda amiga, mais bem-disposta e bem de vida, digo, de bem com a vida, do que noventa por cento de suas caquéticas contemporâneas reprimidas, gastando suas derradeiras energias — derradeiras, mas ninguém sabe quão longas, por mais que se proclamem delongas — num esforço supremo de “entrar em forma” ainda este ano custe o que custar, e é sempre muito caro o preço a pagar.

Ah, tudo bem. Não vou sair por aí apregoando que na curva definitiva a gente deve se tornar indulgente de repente, como é meu caso depois de milhares de dietas, horas de exercício e tão variadas insatisfações comigo mesma que fica difícil listá-las todas de uma vez, e pra quê eu quereria me lembrar disso?

O fato é que depois de uns poucos anos sendo amada e tendo finalmente encontrado um objetivo na vida que excede as artes enganosas do meu próprio umbigo, sempre seduzida por quem pretende apenas me empurrar mais meia dúzia de incômodos comigo que me levem sem escalas ao delírio consumista que é na verdade o que eles querem em primeira instância, ufa, nem é que me larguei, me “abandonei ao comodismo”, mas simplesmente que não consigo me exceder mais, por mais que eu tente, nem na bebida, nem na comida, e, bem, nem no exercício — pra dizer a verdade mal me exercito e me sinto mal com isso, ah, deixa pra lá, deve ser mais um resquício de moralismo físico pseudocientífico, não é mesmo? Introjetei a moralidade zen no meu organismo, sei lá, mais uma inescapável autoridade interna pra me apoquentar no que já era um triunvirato ditatorial de arrepiar — a criança interior, o pai interior, a mãe interior —, me deixem em paz, por favor.

E neste momento lindo, por exemplo, eu que deveria, com Paris ou sem, estar em férias totais de uma semana pelo menos — sob o risco de pifar de vez e nem ir a Paris, afinal de contas, Alan grita lá de dentro, nothing ever goes right in business (nem no lazer, fazer o quê) —, me pego pega (ui!) nas malhas do universo em descanso — pra não falar de meu terminal desencan(t)o — maravilhando-me uma vez mais com o fato de a vida, parafraseando John Lennon, ainda ser aquilo que acontece enquanto estou ocupada com outras coisas, ocupadíssima, pois é. Tudo dá certo no final.

E um bom domingo procês.

 

 crônica também publicada no Noga Sklar e no PQAGEA

 

4 comentários em “Sem dias, por favor

  • 25/12/2011 em 09:40
    Permalink

    Fui citada, portanto tenho direito de resposta:
    “Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa. Depois, quando eu estiver uma sílfide correndo pelo Bosque do Morumbi certas pessoas que só ficam admirando a paisagem da serra vão dizer: Ohhhhh!
    De minha caminha so som do Arnaldo ressonando.

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