Seja o que Deus quiser!

De vez em quando recebo e-mails com dicas de como evitar envelhecer.  Achei uma boa — ótima! — ideia seguir esses conselhos.  Mais econômico do que cirurgia plástica e nada a perder.

Comecei pela recomendação de treinar o cérebro, mudando a rotina sempre que possível.  Mais ou menos assim: se você escova os dentes com a mão direita, tente fazê-lo com a esquerda.  É claro que os dentes não ficam bem escovados, talvez você gaste no dentista o que economizar com a plástica.  Mas se esse é o preço da juventude eterna, que seja.

Pior foi com as chaves: sempre as coloquei no mesmo local, resolvi variar.  Claro que esqueci onde estavam.  Achei-as, depois de algum estresse, na gaveta do banheiro junto com os sabonetes.  É ou não é um lugar diferente para guardar chaves?  Parabenizei a mim mesma por essa solução brilhante.

Infelizmente, não tive a mesma sorte trocando o lugar onde costumo guardar o dinheiro das despesas da casa.  Até agora não encontrei os duzentos reais que saquei do banco na segunda-feira, mas tenho certeza de que vou encontrá-los assim que recuperar a calma.  No banheiro tenho certeza de que não estão, porque o esquadrinhei palmo a palmo enquanto procurava as chaves.  Olhando pelo lado positivo: aproveitei para faxinar e arrumar o armário do banheiro.  Ficou um espetáculo.  No próximo sábado farei o mesmo com a despensa da cozinha.  Se os duzentos reais não estiverem lá, vou tentar o armário da roupa de cama.  Posso não ficar mais jovem, mas a casa fica arrumada.

Outro e-mail me aconselhou a jogar fora todos os números inúteis da minha vida.  Comecei pela idade, é claro.  Até que fui ao cinema e me cobraram inteira.  Inútil, coisa nenhuma.  Peguei de volta os meus sessenta anos e todos os outros números, incluindo o da minha conta bancária.  É pequena, mas não dá para viver sem ela.  Esse conselho não funciona.

Nova tentativa: manter-me atualizada e conviver com jovens.  Produzi-me toda e fui a uma balada da moda.  Todo mundo só me chamava de “tia”, e o golpe de misericórdia foi quando arranjaram uma cadeira para eu sentar.  Foi ridículo e, ainda por cima, odiei a tal balada.  Um saco.  Assumo que gosto mesmo é do balé do Theatro Municipal, de preferência com música do século retrasado.

Alimentação natural radical?  Pode rejuvenescer, mas me deixa muito infeliz.  Cheguei a ter pesadelos: sonhei que me afogava numa sopa de bertalha.

Exercícios para a memória também não servem.  Chatíssimos.  Além do mais, não estou certa de que desejo uma boa memória.  Pelo contrário: em muitos casos esquecer pode ser melhor do que lembrar.

Por falar em memória: eu já disse que tentei um médico ortomolecular?  Era tanta pílula que se eu colocasse tudo numa mala e fosse viajar, talvez recebesse voz de prisão na receita federal por contrabando de drogas.  Não achei razoável.  Voltei a tomar uma vitamina basiquinha de manhã e estou me sentindo ótima.

Ainda não penso em soluções radicais como me mudar para um lugar que valorize o velho.  No Japão, por exemplo, dizem que é assim.  Esquece.  Aqui, pelo menos eu falo bem a língua e sei quem são os bons médicos.  Geriatras, inclusive.

Querem saber?  Cansei.  Alguém me diga que vantagem há em correr atrás de uma falsa juventude.  A gente fica nessa ilusão e se esquece de que tem direito a viver a velhice em paz.  E se eu ficar gagá, o problema passa a ser dos outros, da família, dos amigos, do governo, sei lá.  Se você me conhece pessoalmente e não quer assumir o risco, a hora de brigar comigo é agora.  Depois não diga que eu não avisei.

 

 

 

3 comentários em “Seja o que Deus quiser!

  • 30/03/2012 em 19:22
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    Um conselho de amigo: faça como eu que desisti logo no início de não querer envelhecer e só assim consegui meu intento, agora, como não envelheci é que me esqueci de tudo,mas ainda me lembrarei de você quando envelhecer.
    Estou me lembrando que a crônica está ótima.
    Abração Milton

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  • 18/03/2012 em 12:19
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    Envelhecer, acredito eu, é parte da jornada como um todo. Se for com saúde e uma memória apenas razoável, sem trocar demais os nomes dos amigos, dos clientes… sem confundir ruas, remédios, datas, horas, lugares… e se puder se manter uma pessoa bem-humorada e espirituosa, pode passar até desaper cebido ou batido, como se dizia há… quantos anos mesmo?!

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