Sebos

Sebos sempre me encantaram. Seus livros tiveram uma vida, guardam lembranças, segredos, alegrias, recordam viagens; trazem nas anotações feitas em seus cantos algumas informações que servem para desvendar um pouco do pensamento e do modo de ser de seu antigo leitor. Existem alguns que denomino de chatos dominantes, e que buscam, em um frenesi desenfreado, um erro do autor, uma informação incorreta, uma contradição; achado o procurado, transformam-se nos autores que nunca foram, e pondo de lado uma frustração guardada, escrevem, quase sempre a lápis, como deveria ser o que o autor pretendeu escrever.

Nos sebos encontramos inúmeros coautores que terminam frases, mudam vírgulas, acentuam palavras e corrigem nomes de personagens e suas idades; muitas vezes, promovem casamentos e criam separações que, se o autor os seguisse, encheria os romances de dramas e tragédias irreparáveis.

Entrar num sebo é entrar num mundo diferente. Numa livraria, você ou encontra o livro procurado ou um funcionário, depois de teclar no computador, informará que determinada obra está na seção x, que não foi adquirida pela livraria ou que está esgotada. Por mais simpática e sortida que seja a loja, seus livros são novos, não têm cheiro, nem vivências, são rigorosamente assépticos. Não existe na livraria a grande aventura da busca, da descoberta, de encontrar um livro que foi parte de sua infância, que alguém lhe roubou, que um distraído se esqueceu de devolver; achar aquele romance que faltava na sua biblioteca, sentir velhas encadernações com suas letras douradas, uma edição rara, páginas amareladas, algumas dobradas, autógrafos dos autores, alguns demonstrando que existia um carinho, uma amizade, uma relação mais íntima entre escritor e leitor.

Tenho uma primeira edição de Gregos e Troianos, onde o grande autor de Fogo Morto deixou para certo Carlos uma dedicatória na qual relembra momentos que passaram em alguns lugares descritos no livro. Carlos, sem sobrenome, era amigo de Zé Lins e viajou com ele. Quando Carlos morreu, sua família não teve a sensibilidade de entender aquela amizade e se desfez da obra, como igualmente o fez, sem dúvida alguma, com os outros livros que o Carlos possuía — livros que talvez tenham sido comprados ou recebidos de presente durante toda uma vida e que, de uma só penada, foram vendidos e espalhados por outras bibliotecas, onde se juntaram a outros livros, alguns também dedicados aos novos compradores e que serão, mais tarde, passados adiante.

Quando eu partir, certamente meus livros partirão um pouco depois, e o meu Carlos seguirá sua vida de judeu errante, sendo manuseado por outras mãos. Alguém comentará que encontrou um livro onde o escritor José Lins do Rego colocou uma delicada dedicatória para seu amigo Carlos. E o mesmo se passará com os livros onde autores queridos, como Thiago de Mello, Rachel de Queiroz, Ruy Castro, Antônio Torres, me dedicaram carinhosas palavras que fogem das clássicas que se usam nas noites de autógrafos. Junto com eles seguirá uma singela declaração de amizade que o poeta Manoel Bandeira fez ao Fernando José e que encontrei em uma bela edição da Flauta de Papel, que tem, como curiosidade, uma caricatura do autor ilustrando a capa feita por seu amigo, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Ao adquirir essa edição, descobri que Manoel Bandeira era amigo fraternal do Fernando José, e Drummond, um respeitável caricaturista.

Nessas andanças por sebos, acabei recebendo dedicatórias que não me foram dadas, mas das quais me apossei e que transformei em minhas: uma do Josué Montello, em Coroa de Areia, para seu amigo Alberto; uma profundamente sacana do Antônio Maria, em Crônicas Escolhidas; outra, repleta de ternura, para uma Sílvia Maria, que Orígenes Lessa esparramou em Balbino, Homem do Mar. A de Sílvia Maria dá para pensar no que sonhava o autor quando olhava para os olhos dela.

Espero que quem os compre também se aposse, como me apossei, das dedicatórias alheias; e se aposse igualmente das que me pertenciam por direito e amizade, sem esquecer — isso é mais do que fundamental — dos belos olhos de Sílvia Maria.

 

 

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7 Resultados

  1. Paulo, seu texto é a um só tempo agradável e comovente! Reportou-me, meio que sinestesicamente, aos ambientes sagrados dos sebos e das bibliotecas familiares… Quando você se refere à impessoalidade das livrarias, mesmo que sortidas e aprazíveis, mas sem o cheiro característico de livros que guardem vivência, faz o leitor se lembrar do tanto de adoravelmente histórico e peculiar que pode caber nas páginas de um livro antigo. Como você, sempre fui uma aficionada dos espécimens (principalmente os singulares) que guardam traços artísticos e sentimentos intransferíveis… Mas achei genial a sua particular (e poética) intenção de tomar emprestadas para si as dedicatórias dos livros que foi “herdando”… Formidável!
    E entendo bem a justificadíssima preferência pelos livros com história. Há alguns anos, consegui num sebo, simpaticíssimo por sinal, um exemplar raro de crítica literária de Machado de Assis. Confesso que – bem mais que quaisquer dos outros volumes da minha coleção machadiana – este se mostrou nostalgicamente valioso, com um quê a mais de simbologia, como que um ornamento valioso para as estantes do meu escritório! Constato, então, o quão grande é a sua sorte (já me falou a respeito) de possuir em sua biblioteca volumes raríssimos de grandes ícones da literatura universal. A propósito, por suas vivências e conhecimentos, sempre nos brinde com textos como este! Estaremos aguardando! Saudações bibliófilas.

    • paulo de faria pinho disse:

      Você fez um lindo comentário que virou uma adorável crônica. Mas livro tem personalidade e só as pessoas que os amam conseguem entender isso. Livro tem passado, lembranças, histórias e vida própria. Acredite, mas é verdade.

  2. alias, encontrei livros meus de 1984, primeira ed do Rabino …………..em sebos

  3. amo sebos, os de sampa ,então, são otimos! bjsss e parabens

    • paulo de faria pinho disse:

      Obrigado pelo parabéns, mas a verdade é que livros tem vida própria e os dos sebos tem muita mais vida.

  4. Teresa Meirelles disse:

    Paulinho eu tb gosto de sebos e tdo q vc escreveu e bastante poetico e verdadeiro.parabens!! bjsssssss

  5. manuel funes disse:

    Eu também sou “fan” de sebos. Podemos encontrar edições esgotadas.
    Na semana passada por exemplo, encontrei “A ARTE DA VIDA” de LIN YU TAN.
    Creio que o livro em papel…dentro de alguns anos será uma raridade…so encontrada em sebos…

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