Se

Conjunção mais desgraçada, safada, condicional sem eira nem beira, a servir de muleta para os erros de toda uma vida.

“Se não tivesse bebido, não teria dado esta santa cacetada com meu carro”, e o pobre do “se” fica com toda a responsabilidade que deveria ser atribuída única e exclusivamente ao uísque ingerido, ou melhor, culpa inteiramente sua, visto que o uísque nunca pediu para ser bebido e principalmente em uma quantidade tal que fosse deixá-lo alcoolizado.

“Se não tivesse saído não teria caído nesse buraco e quebrado a perna”, e mais uma vez vai o “se”  pagar o pato por ter você saído porque quis, pensando sei lá em que, e nem reparando nesses buracos que dominam completamente nossas tão bem conservadas calçadas.

E assim seguimos nós, colocando culpas, e também desculpas, na infeliz da conjunção, como “se” fosse ela a palmatória do mundo, causa única de todos os fracassos, derrotas e infelicidades que nos tenham acontecido. Decididamente, quanto foi criada, nasceu a pobrezinha para ser a mais responsabilizada de todas as palavras existentes.

Pior ainda é ser ela inteiramente injustiçada. E tome injustiça nisso! Duvido que você conheça alguém, pode ser amigo ou desafeto, católico ou ateu, honesto ou político, que tenha a honradez de dar ao nosso “se”  o crédito por um momento de glória ou de felicidade.

Você sai, entra naquele bar, encontra aquela linda mulher, ela se encanta pelos seus olhos, a vida segue seus caminhos, vocês terminam juntos, numa dessas loucuras de noites de verão, mas no dia seguinte, quando se recordar dos maravilhosos momentos que passou, duvido, com toda a força da dúvida, que em algum momento tenha tido a coragem de dizer:

— “Se” não tivesse saído ontem, não teria encontrado aquele mulheraço.

Em nenhum momento você dá ao “se”  um pouco da consideração que ele merece. Realmente, o “se” não foi uma palavra bafejada pela sorte.

Um dia, se escrevesse algum dicionário — nossa!, olha o “se” aí de novo — garanto que iria defini-lo assim:

“Se” — conjunção de desculpas, de falta de coragem, de falta de responsabilidade e de caráter. A mais infeliz e injustiçada palavra criada pelo homem, em todos os idiomas e em todas as línguas, vivas ou mortas.

 

 

4 comentários em “Se

  • 25/06/2012 em 17:33
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    Verdade mesmo, Paulo!…rs. Embora eu sempre haja lamentado que “o ‘quase’ tenha morrido na praia”, visto sob esse ângulo, realmente, ele apresenta a prerrogativa do “quase” haver sido feliz no seu objetivo, diferentemente da amarga conjunçãozinha que – em vez de concessiva – tem sido uma tremenda impeditiva nos caminhos linguísticos e dos humanos 😉 Como leitora assídua desta coluna, aceito que você não nos brinde com a encomendada crônica, mas continuo na expectativa da próxima, não importando seu objeto de escolha da vez; seja de palavras ou de gentes, aposto que me agradará com o gosto da boa leitura!
    P.S.: Você me deixou pensando que o “quase” é mesmo simpático, um sujeito adverbial quase conclusivo em suas funções, afinal – “garganta” ou não – quase sempre logra êxito!… Hehe 😉

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  • 23/06/2012 em 14:41
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    Paulo, adorei ser brindada com mais uma de suas deliciosas crônicas!… Diverti-me muito ao lê-la, ante as ilações pra lá de verdadeiras que você fez! Achei muito interessante a perspicácia linguístico-semântica com que você uniu a coerência à irreverência, sem que a lógica de uma impedisse as evasões imaginativas da outra! Formidável!!!
    Ao final, fiquei pensando em encomendar ao querido cronista, na continuidade da série (se vir correlação), o texto “Quase…” Afinal, esse advérbio é outro primo sofrido da conjunção (erroneamente – rs) dita concessiva, concorda?
    Saudações de defesa das classes injustiçadas de palavras… 😉

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    • 25/06/2012 em 16:46
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      As palavras na realidade não têm muito sentido. O sentido somos nós que damos, algumas vezes corretamente e em outras prevalece um equívoco sem precedentes. Enfim, sempre tive uma certa implicância com o SE. Já o QUASE até que me é simpático, porque quase sempre estamos quase fazendo algo que deveríamos ter feito, ou quase sempre também nada fizemos por pura preguiça ou diletantismo. Resumindo, não dá para implicar com o QUASE, mesmo que o desejasse, porque ficaria quase falso o que não seria muito correto da minha parte.

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  • 23/06/2012 em 12:07
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    Realmente, “SE” encerra estes significados. 100% dos humanos lamentamos o que “PODERIA TER SIDO”. Creio também que seu significado de “provável” nos incita a rever o potencial do “poder fazer”. Têm uma frase do Camus:

    “O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade”.

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