Se eu quiser falar com Deus

Todos os domingos sou convidada para ir à igreja com meu marido e, invariavelmente, não aceito. Como já dizia um japonês muito louco nos meus tempos de faculdade: “no Patropi cada um é cada um”. Tenho procurado me pautar por estes dizeres, pois embora ele tivesse aquela cara de hippie mal resolvido, suas palavras eram certamente sábias, já que para estar estudando ali não poderia ser um relaxado.

Confesso, entretanto, que não é fácil. Temos a tendência de não aceitar muito os diferentes, e é com relutância que somos impelidos a aceitar certas preferências.

Eu e meu marido acabamos de sair de um torneio de tênis que é muito bom. Tudo lá é bonito e o clima convidativo, mas na volta de carro viemos conversando sobre a paciência com que alguns amigos assistem  aos jogos durante dez dias, dia e noite, se esquecendo de que ao saber que ele é um pescador, sempre exclamam: “Credo!!! Como você tem paciência para isso? Eu jamais conseguiria ficar horas esperando quieto que o peixe viesse fisgar.”

Muito embora o tipo de pescaria que ele pratique não tenha nada a ver com paciência, pois é, inclusive, chamada de pescaria esportiva, vê-se que os outros não entendem que pegar o peixe não é o mais importante: não tem nada a ver com o Sol se pondo no meio do rio, tingindo suas águas de um amarelo dourado da cor do dorso do peixe que ele adora pescar; não tem nada a ver com o ruído que os bugios fazem ao crepúsculo enchendo a mata de medo.

Os cheiros diferentes das flores e do mato também fazem parte das delícias de uma pescaria. Os diferentes ruídos das águas correndo céleres para seu destino, ou o do vento nas folhagens, não podem ser reproduzidos nos mais espetaculares estúdios de som, pois somente o conjunto é que faz a obra-prima. O cheirinho do café sendo preparado dentro do barco, com o motor desligado, já de noitinha e vendo as primeiras estrelas piscarem suas tímidas pálpebras, jogando conversa fora e sempre falando dos que não estão presentes, nostálgicos de sua falta, completa o exercício dos cinco sentidos.

Bem, se me perguntarem, eu prefiro falar com Deus ali, no meio de sua criação, e não nos arremedos de maravilhas de catedrais ou simplicidades de oradas. Me sinto envolvida e abraçada por Ele. Devo dizer que são raros esses momentos que dedico exclusivamente para essas conversas tête-à-tête, só mesmo nos momentos mais trágicos, pois no dia-a-dia estou sempre procurando reparar nas belezas da natureza e agradecendo por poder estar viva e pertencer a ela.

Bem, amigos! Como diria certo comentarista, hoje a crônica é curta, pois estou viajando e as condições são adversas. Boa semana!

 

Publicado também no meu site

 

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4 Resultados

  1. Berenice Gazoni disse:

    Querida amiga,

    Mesmo viajando você encontra tempo para nos presentear com uma linda crônica! Obrigada e boa viagem !

  2. Aldi Matarazzo disse:

    Sempre considerei a natureza a maior igreja do Universo e realmente o lugar mais adequado de conversar com Deus.
    Compartilho em genero, numero e grau com a sua filosofia religiosa.
    Para mim “DEUS” esta presente em todos os lugares que o procurarmos sem distinção Arquitetonica.
    Parabéns pela crônica,curta porém com muita essência.

  3. bel disse:

    Oi Pri!
    Confesso que tambem não vou à templos porque basta olhar a minha volta e inconscietemente me pego agradecendo por tudo que meus olhos vêem. Esta é minha maneira de conversar e agradecer ao nosso bom Deus por tudo o que ele me oferece, o que não é pouco, boa viagem e bjs no pescador.

  1. 30/03/2012

    […] Publicado também no Crônicas da KBR […]

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