Saudades do meu Rodouro — tempos de carnaval

rodouroE começou de fato o carnaval. Para os que gostam, porque o meu terminou há algumas décadas.

Em 1961, quando o presidente amalucado e suas forças ocultas proibiram a venda do lança-perfume, acabando com o barato do Rodouro, Jânio Quadros que se metia em comprimento de maiô de miss, corrida de cavalos nas noites de segunda-feira, briga de galo, se as ruas estavam sendo varridas da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda começou a acabar com o carnaval dos grandes bailes.

Os bailes de carnaval, numa época em que não existia a liberdade sexual de hoje, eram um momento mágico de encontro com o desvairado. As pessoas se soltavam em busca de uma noite de amor, de um encontro, de uma simples aventura. Carnaval tinha cheiro de sexo, e era embalado em grande parte pelo nosso Rodouro. Quem não usou e tem mais de sessenta anos, não foi a um único baile de carnaval, a não ser que fosse frequentador de bailes infantis. Mas aí não conta.

E havia planejamento para dar certo. No Monte Líbano eram o Baile da Esso e o Baile da Atlantic, sem contar a Noite de Badgá, que fechava o carnaval na terça-feira. Sobrava mulher para os homens e homens para as mulheres, uma matemática que nunca foi explicada, mas que era real, isso era.

Aos do Municipal, nunca compareci mas via extasiado as fotos que saiam no O Cruzeiro, Na Noite Ilustrada e na Revista do Rádio.

Frequentei uns quatro ou cinco do Copacabana Palace, que eram monumentais. Como fui durante dois anos assessor do Oscar Ornstein, o mestre das relações públicas, o sonhador, produtor, poliglota, apaixonado pelo seu Teatro Copacabana, que explorava sob a benção do Tio Octávio como todos chamavam carinhosamente e com enorme respeito o dono do hotel, Octávio Guinle —, acabei trabalhando em dois deles, quando conheci e nos transformamos em amigos o arquiteto, carnavalesco, cenógrafo, professor e dono da voz mais bonita que conheço, meu querido Fernando Pamplona: ele e seu amigo inseparável, Arlindo Rodrigues, eram os responsáveis pela decoração dos salões do Copa. Trabalhava com ele um menino, seu auxiliar, que se tornou mais tarde marca registrada dos desfiles de carnaval, substituindo seu mestre que antes revolucionara completamente o conceito de desfiles ao apresentar um Salgueiro inovador que deslumbrou a todos. O menino que era o braço direito de Pamplona se chamava Joãozinho Trinta.

O baile do Hotel Glória era outro que não pode deixar de ser citado. O esquema era sempre o mesmo, cada um procurando fazer a melhor decoração, muita mulher bonita e com pouca roupa, algumas vezes bem pouca, muita bebida, muita lança, muita loucura, ótimas orquestras e a turma saindo somente quando acabava, às quatro da matina, salvo os casais recém formados, que, por motivos óbvios, saíssem mais cedo.

Eu estava no Glória, em fevereiro de 1964, quando o locutor parou a orquestra; houve um começo de murmurinho, até que ele pediu a todos que fizessem um momento de silêncio porque acabara de falecer o maior compositor brasileiro de todos os tempos, que com suas marchinhas muito ajudara a dar fama e brilho ao nosso carnaval. E em pleno sábado, pela primeira vez na história dos bailes carnavalescos, houve um minuto de profundo silêncio reverenciando Ari Evangelista Barroso.

Outro dos mais disputados era o do Popeye, no Marimbás, onde aconteciam coisas de deixar no chinelo o “Satyricon” do genial Fellini. E sempre com a presença mais do que marcante do nosso Rodouro, não mais o verdadeiro, mas aquele em frascos de vidro que era importado, apesar da interdição, da vizinha Argentina, entrando no país como “aromatizador del ambiente”.

O do Iate Clube terminava sempre em uma orgia aquática dentro da piscina. Ficou tão mal visto que o comodoro do clube resolveu acabar definitivamente com ele. Acho que o último ocorreu em 1990. A conferir. Se chamava Baile do Havaí.

Glória efêmera teve o Vermelho e Preto, realizado no ginásio do Flamengo. Seu prestígio durou os anos em que o clube foi dirigido pelo Márcio Braga, figura conhecida e querida da alta sociedade carioca que fora eleito com apoio maciço de diretores da TV Globo, tendo à frente outro grande rubro-negro que era o Walter Clark. Com a colaboração de Carlinhos Niemeyer, que como lerão abaixo tinha pós-graduação em carnaval, e com o conhecimento jornalístico de Marilene Dabus, transformaram o baile em um grande sucesso. A Globo entrava com a divulgação e a presença de quase todo seu popular elenco das novelas.

Mas o baile mais procurado, que movimentava a cidade, com todos ávidos para conseguir ingressos, e que foi responsável por algumas separações, era sem dúvida o Caju Amigo, baile itinerante inventado e organizado pela figura das mais queridas que o Rio já conheceu, o dono do mais aberto de todos os sorrisos o rubro-negro fanático, Carlinhos Niemeyer. Em crônica que me presenteou para meu livro Boêmios & Bebidas, Carlinhos contou a história do Caju, desde seu começo, no Cassino Atlântico, em uma festa para lembrar o falecimento do Comandante Edu que foi a última grande festa do Clube dos Cafajestes. Resolveram repetir a festa, transformando-a em um baile pré-carnavalesco.

Carlinhos escreveu: “(…) Foi o maior sucesso e com isto, o Caju pegou. E todo o ano passamos a promover o nosso pré-carnavalesco. A especulação imobiliária ia destruindo Copacabana e nós dávamos a nossa festa sempre em uma casa espaçosa que estivesse para ser demolida. Era a festa de despedida de mansões tradicionais, com muita mulher bonita, muita animação, muita lança e Caju Amigo até não poder mais. Fizemos até uma festa em pleno mês de junho,  carnaval no meio do ano para Jayne Mansfield, conhecida como ‘O Busto’. Ela encheu a cara; quanto mais Caju Amigo entrava, mais seus peitos pulavam para fora do vestido, e mais seu marido, um massa bruta descomunal, tentava tapar os saltitantes seios. Uma outra linda festa foi dada num palacete na rua Toneleros. Atendendo a inúmeros pedidos permitimos que os fotógrafos tivessem acesso, desde que nós fizéssemos a seleção das fotos que poderiam ser publicadas. Santa ingenuidade. Depois do carnaval a revista Manchete publicou uma reportagem de Darwin Brandão, intitulada ‘Vício no Carnaval carioca’, onde a maioria das fotos era exatamente as proibidas do Caju. Fotos de mulheres lindas com homens casados, deputados, senadores, todos sob o efeito devastador do nosso Caju Amigo. Foi impossível explicar o inexplicável.

Anos depois, por sugestão de Alberto Sued, promovemos um Caju sofisticado, na boate Sucata, com obrigatoriedade de fantasia ou rigor. Era fantástico ver o pessoal no meio da tarde de smoking, as mulheres fantasiadas, gente que deveria estar em São Paulo, mas se encontrava na Lagoa, marido dando de cara com a esposa, enfim, a disputa pelos convites, tudo criando o folclore do Caju Amigo…”

E Carlinhos segue contando como acabou o Caju, sua última edição no Marimbás, em 1972, a briga descomunal que nela aconteceu, levando ao comentário de Fernando Ferreira: “De amigo aqui, só resta o caju.”

Em tempo: a receita dada pelo próprio Carlinhos no começo da crônica era de que “fizemos uma bebida para dar porre em gringo e misturamos suco de caju com muito gim. Acrescentamos um pouco de limão, para cortar a cica do caju, e açúcar”.

E no quadro do famoso Clube dos Cafajestes não era admitido político. Eram todos cafajestes por diversão, nunca por profissão.

 

 

6 comentários em “Saudades do meu Rodouro — tempos de carnaval

  • 27/03/2013 em 15:09
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    E SEU FALAR PRA VCS QUE TENHO 06 RODOUROS E 02 CHEIOS E FUNCIONANDO !?

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  • 10/02/2013 em 03:24
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    Saudades mesmo ! … final dos anos 50 … Minha avó Braulina Brum , em Juiz de Fora , quando ia passar as férias …, ela dava uma caixa para cada neto … eu, Ronaldo Medeiros, Brenildo Faria, Necésio, Marcus Faria … uma caixa de madeira com 3 tubos … lindos , dourados … mágicos só de ver … ah que saudade … e … etc… etc…etc…

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  • 09/02/2013 em 23:08
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    Formidável sua crônica, Paulo! Absolutamente descritiva, com uma riqueza tal de detalhes que nos reporta à cena multicolorida dos carnavais com verdadeiro espírito de festa! Enquanto lia, pensei – por algumas vezes – em destacar sentenças que me saltavam aos olhos por sua precisão semântica. Porém, esse intento foi ressurgindo a cada novo parágrafo, e percebi que eu ia acabar transcrevendo quase a crônica inteira aqui, em alusão à sua expressividade. Portanto, seja reiterada a minha impressão de ter podido estar presente à cena, visualizando um panorama geral do requinte, da graça e da espirituosidade de tais bailes – originalmente carnavalescos! Graças à sua literatura foi possível a viagem! Saudações festivas ao cronista da visualidade! 🙂

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  • 09/02/2013 em 11:55
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    Ótima, como sempre!
    Vamos ver se com as modificações que introduzi nas configurações do Face, consigo divulgar.
    Grande abraço, Mestre Paulo!

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