Sapatos de perlet

Não sou de chorar pelo passado. Costumo dizer que, como ainda não morri, meu tempo é agora.  Porém, ao longo da vida, a gente acumula uma série de histórias, que em geral não interessam a mais ninguém nem tem serventia na chamada “vida prática”. A não ser que você resolva, deliberadamente, contá-las em detalhe para se livrar de algum chato.

No entanto, tais informações podem vir a ser úteis para o nossos biógrafos, e por isso aconselho a colocá-las no papel antes que você as esqueça e seja tarde demais.

Por que vocês estão rindo? Acham que não merecemos biógrafos? E todos aqueles professores universitários que precisarão fazer pesquisa para sobreviver? Vai haver tanta gente estudiosa no mundo que a falta de temas para investigação científica se tornará um problema. Nos Estados Unidos já se encontram muitos brasilianistas, perdão, Brazilianists.  É até possível que algum deles esteja, agora mesmo, dando palestras para esclarecer que não falamos espanhol e que a música típica do Paraná não é a rumba. Quem pode garantir que a única coisa que escapará de um cataclismo mundial não será uma coletânea de crônicas a partir da qual os especialistas precisarão reconstituir a vida no século XXI?

Se deixarmos informações demais, retiraremos dos futuros biógrafos toda a graça de remontar o quebra-cabeças de nossa cultura, mas é bom fornecer algumas dicas aqui e ali para incentivá-los, e minimizar os riscos de que eles concluam que falamos espanhol e dançamos rumba todos os dias.

Por que eu estava falando nisso, mesmo? Ah, sim, sapatos de perlet.

Num passado não muito distante, meninas se vestiam de forma bem diferente de hoje.  Não existia esse negócio de criança usar salto alto nem imitar roupa de adulto (também não existia esse negócio de adulto se fantasiar de adolescente).  Era sapato baixo, saia franzida, cores primaveris, laços de fita no vestido e no cabelo.

A autonomia para escolher seus próprios modelitos começava, timidamente, na adolescência, e só se completava na maioridade.  Quando eu estava prestes a completar quinze anos, minha família foi convidada para uma festa de bodas de ouro, com direito a missa, discurso e jantar sentado. Era uma ocasião especial e, por causa disso, fui autorizada a usar meu primeiro salto alto, ridículo de tão minúsculo, nada além de dois ou três centímetros. Mais ou menos como os que uso agora, por razões completamente diferentes.

A permissão foi também concedida a algumas amigas que iam àquela festa.  O assunto ocupou nossas conversas e planos durante os dois meses que antecederam a grande noite. A expectativa da festa não era nada, comparada à ideia de usar saltos altos. Discutimos exaustivamente a forma de calçá-los, como caminhar, como cruzar as pernas de forma que todos vissem os nossos maravilhosos sapatos.  Diante do espelho, treinamos andar nas pontas dos pés, com medo de perder o equilíbrio e pagar mico. Nos imaginávamos entrando na festa como rainhas, descendo escadas majestáticas, todos os olhares concentrados em nós. Fizemos reuniões e concursos para eleger quem se saía melhor com o novo acessório. Estávamos felizes, porque já nos víamos deixando para trás e para sempre os calçados infantis.  Os vestidos continuavam rodados e cheios de laços, era querer demais que nos deixassem usar cores escuras ou saias justas. Mas pouco importava, porque iríamos conquistar o mundo com nossos pés.

A moda da época eram sapatos de perlet, um tipo de couro nacarado em tons de branco, bege ou gelo. Deslumbrantes, na nossa avaliação. Acho que perlet vem do francês perle, e significa perolado. Eu e minhas amigas somos unânimes: apesar da variedade e quantidade de sapatos que temos atualmente, nenhum consegue desencadear em nós as mesmas sensações, que continuam sendo vivenciadas por todos os adolescentes na nossa cultura ou em qualquer outra. Cada geração tem seus sapatos de perlet.

E se hoje em dia dificilmente alguém sabe o que é perlet, imaginem daqui a alguns séculos… Então me digam: esta é ou não é uma coisa sobre a qual se deva escrever antes que a gente esqueça? Os biógrafos nos agradecerão.

 

 

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2 Resultados

  1. Virginia Borja Pereira disse:

    Claudia. Recordar é viver, não é? Conforme algum dito popular. Então, voltei aos meus quinze anos, quando usei meu primeiro salto e meia fina presa com ligas, totalmente desconfortável. Um horror. Depois a gente acostumou com tanta “parafernália” e ainda bem que hoje voltamos a colocar o calcanhar quase que no chão.
    Adorei.

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