Sandyces

Que o brasileiro não sabe votar, todo mundo já sabe. E como já vimos com a execração pública dos réus do mensalão (com maiúscula ou sem?), não há furacão que faça os acólitos do partido sem exceção se desviarem de seu firme intento de elegerem até detento, não se deixam convencer por simples comprovação da realidade, é tudo mera fatalidade, imaginem. Uma religião.

Eu até me perguntaria se esse artigo recente que vi no outro dia online — sobre ação do Ministério Público pedindo a Lula uma explicação de uma assinatura indevida qualquer — viria a mudar alguma coisa, são apenas 4 milhões, sabem como é, algo como provar que o… deixa pra lá.

Já me enrolei demais por causa de tanta indiscrição, tudo isso por nada, mas voltando a Lula e ao artigo online, seria como, eu dizia, fazer o mesmo que tanto critico no Alan, que vive me aporrinhando com artigos apócrifos contra Obama para me convencer de que o presidente americano não vale um grama, ih, tô apóstata demais hoje, mas, tudo bem. Nunca fui adepta desse tipo religioso de fidelidade, mesmo. Esconjuro. Abomino. Como dizia o Raul: prefiro não ter opinião formada sobre tudo isso que está aí, e tenho dito.

Como andei confessando, embora nas eleições passadas eu tenha me empenhado tanto que quase garanti um divórcio com meu ganho de causa — marido, vocês sabem, não gosta de perder pra mulher nem quando sabe que está se enganando —, desta vez estou me cuidando mais, mal abro a minha boca pra dizer de que candidato gosto mais, mas tenho um problema: não sei desligar o meu olhar, e muito menos a mente que nunca deixa de pensar.

E Alan, devo lhes contar, aprendeu a ler corpos e mentes com seu treinamento de anos em terapia de encontro — encounter, digo, embora soe quase a mesma coisa todo mundo sabe que “encounter” significa o contrário, confronto, a análise última do grave desencontro, dos gravemente desencontrados, pelo menos, ih, digressiono.

Uma amiga me perguntou indagorinha por que Alan tem tanto medo de Obama. Não é medo, eu acho, é raiva, não sei se por que o presidente tem sucesso no que faz ou por que não sabe a falta que o sucesso lhe faz: com Obama no poder, nunca se sabe a direita, sabem como é, podem enlouquecer. E realmente enlouquecem.

E se nos últimos quatro anos me decepcionei bastante, jurei que era a última vez que caía dessa ilusão de cavaleiro andante, agora até disso estou em dúvida: achei B.O. bastante assertivo no último debate, e embora Alan diga que onde há tanto charme não há nenhum conteúdo, bem, vejo o conteúdo nos olhos dele, fazer o quê, lá vem confusão pro meu lado, e eu nem tenho pra onde correr.

Pois embora nas últimas semanas eu tenha brincado o quanto pude de “parceira calada”, Alan vem me culpando assim mesmo pela vitória de Obama, que, por sinal, ainda nem aconteceu, e olhem que nem votar eu voto, e este ano nem escrever sobre o assunto até agora escrevi. Mas ainda está em tempo de fazer tudo ao meu alcance para acabar de vez com este casamento interplanetário, sinceramente, cansei.

Quando Alan quer pegar pesado vai pela via do judeu, diz que Obama é antissemita — pelo menos anti-Israel ou menos ainda, anti-Netanyahu, por isso nem eu o execraria, lá vou eu botando mais lenha ainda nessa fogueira das sumidades. Mas até nisso o “negão” se deu bem no debate na televisão, convenceu o coração mais empedernido, na minha opinião, de que era a favor do lado que tem mais razão, para mim, pelo menos. O outro talvez tenha mais convicção — ou fanatismo? —, e se afasta deliberadamente de qualquer solução, ops, desculpem. Não estou aqui para mediar ninguém, muito pelo contrário. Sou do partido dos que falam tudo na lata, conhecem ou não?

Não me espanto, tem pouquíssimos adeptos em nosso mundo cada vez mais conectado e cada vez mais politizado, polarizado, extremista até onde qualquer um pode ver. Lamentável. Mas como Alan ia me dizendo, “se eu quiser sua opinião a darei a você”, ah, é o generoso marido me apoiando, me dando finalmente alguma coisa que eu não quero receber, se é que vocês conseguem compreender. Até o humor acabo de perder.

Bem, como o título da crônica já diz, tudo isso não passa de um forte vento, um blablablá nervoso para enfrentar os ânimos que nem tão cedo hão de se acalmar. Quanto a mim, só resta me conformar, nem interessa se a maré vai virar porque estou perdida de qualquer jeito, vejam: se Obama ganhar, terei que aceitar a derrota do meu incensado casamento de quase 8 anos, alma gêmea e outras sandices do gênero; se Romney ganhar, fica o garanhão garantido em seu intento, mas a alma triste, por ter perdido algo que julgava a contento, erroneamente, talvez, nunca se sabe até que não se sabe de vez. Mesmo porque, como Alan acaba de lembrar, quem manda em eleição é o colégio eleitoral, pois é, os pais da pátria é que tinham razão: o povo não sabe votar.

Estar casada e manter um casamento é tornar-se hoje em dia uma exímia equilibrista, especialmente se a mulher se coloca como a líder de todas as conquistas, ah, rimou, fazer o quê, é apenas a comprovada verdade, não é mesmo? Tá muito complicada esta vida, principalmente quando há tanta tecnologia desafiante envolvida. Vou largar tudo e me dedicar à observação biológica do amor entre gatos no meu quintal, é o que há de mais relaxante a fazer, e talvez encontre algo pra aprender. Fui.

Semana que vem eu volto, viva ou morta, abusada ou abnegada, tanto faz, feliz ou desapontada com aquela importante eleição na qual nem votar eu voto. Porque na que realmente votei, tive que engolir em seco o recrudescimento, ponto, PT, apesar de todas as evidências contra o partido que não larga o poder, o que se há de fazer. Escrever, brasileiro até escreve, mas ler não lê, não cansa a beleza que a terra um dia há de comer (não sou eu quem diz, deu no IBGE pra todo mundo ver).

E um bom domingo procês.

 

 

2 comentários em “Sandyces

  • 05/11/2012 em 13:15
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    A minha decepção com o Obama foi a de os Estados Unidos não ajudarem os paises necessitados, deixando com que o Brasil mandasse dinheiro para a Africa e ate para o Haiti. Em relação ao Lula , estive refletindo muito, é normal que apos 8 anos de presidencia ele tenha ficado rico, e se ele ficou calado e Dilma tb, certamente foi por medo de serem mortos pela quadrilha.

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