Salvem as baleias

Salvem as baleias, salvem os golfinhos, salvem os cães abandonados, salvem os gatos que subiram em uma árvore e nem desconfiam de como vão descer, salvem as girafas, os crocodilos, os elefantes, as vacas, as cabras — vadias ou não, salvem os pernilongos, as ostras, as tartarugas, as lesmas (deixem, a partir de agora, de comer escargot todos os ricos e sofisticados que tentam salvar tantos animais), salvem as orcas, os tubarões (com exceção dos especuladores de todos os comércios), salvem as andorinhas, mesmo as que não fazem verão, enfim, salvemos juntos todos os animais irracionais, porque os racionais, pobrezinhos, estes não precisam de salvação.

Impressiona, quando se abre o Facebook de vários amigos e conhecidos, o número de fotos de animais e apelos por suas salvações. Se dependesse das postagens e fotos, todos os animais estariam salvos para sempre; salvo, salvo — amém!

Mas o que mais me deixa perplexo é que não vejo uma só foto de uma criança morrendo de fome na África, nem uma de um infeliz a se arrastar, tal como a lesma que todos querem salvar, na lama do Haiti, nem um singelo pedido pelos miseráveis destruídos e aniquilados diariamente no Afeganistão, nem um só clamor pelos que já nasceram condenados a morrer de fome, principalmente pela proibição de todas as formas de controle de natalidade pregada pela Santa Igreja Católica, a mesma que deseja canonizar Pio XII, o que entrou para história como o “Papa de Hitler”, nem um só grito pelos nossos nordestinos, vítimas de uma seca cuja solução os políticos postergam desde que esta terrinha foi descoberta, nem uma só lamúria pelos destroçados pelas minas enterradas em Moçambique e em Angola — perna de criança não merece estar no Facebook de ninguém, a foto é muito chocante para ser vista numa bela sala da Vieira Souto, tira completamente o apetite e o caviar vai descer quadrado.

E por falar em caviar, todos querem salvar o esturjão, afinal, ele merece, porque sem ele não haveria caviar, preto ou vermelho, enfim, essa questão de cor nunca teve muita importância. E essa loucura em relação aos animais começa a se tornar um verdadeiro enigma freudiano.

Moro no Leblon, e fico pasmo com o número de cachorros que dominam as calçadas desse bairro tão querido e desejado. Senhoras, quase sempre mais idosas, param para conversar com outras senhoras que trazem na coleira seus animais de estimação, e fazem os animais entrarem em um diálogo realmente surrealista: “Carmito (este é o nome do animal), você não está reconhecendo Marianinho (este é o nome do outro animal)?”

E ficam as senhoras a empurrarem um animal contra o outro, não para provocar um entendimento que nunca poderá existir, mas para criar uma interação (palavra hoje muito em voga). E Carmito, cachorro mais do que pornográfico, cheira as partes pudentes de Marianinho, e se as senhoras não afastarem rapidamente os dois amigos, alguma coisa irá acontecer, boa para um, péssima para outro.

E estes Carmitos e Marianinhos estão substituindo o quê? É ai que entra o nosso velho e barbudo Sigmund.

E fico pensando que se essas senhoras existissem há dez milhões de anos, e com elas os famosos grupos de ecochatos querendo salvar a natureza e todos os animais, eu teria  morrido esmagado ontem, quando tomava um café com uma conhecida ali na Ataulfo de Paiva — diga-se a bem da verdade que ela tem quatro cachorros, que convivem confortavelmente num sala e dois quartos na Dias Ferreira —, e, placidamente, salvo por essas senhoras e suas postagens online, passasse, majestoso, um Pelorosaurus, com a delicadeza de suas 60 toneladas.

Caras senhoras, se querem salvar, rezar, divulgar, salvem, rezem e divulguem as crianças, os tristes, os velhos abandonados nos asilos, os esfomeados, os amputados, os perseguidos, os sofredores e miseráveis seres humanos, e esqueçam um pouco a natureza, deixem senhoras, correr a natureza.

Como escreveu o poeta maior, Fernando Pessoa, a natureza nunca quis ser entendida, porque senão, não seria a natureza.

 

 

 

2 comentários em “Salvem as baleias

  • 07/07/2012 em 13:03
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    Paulinho querido, minha preocupação maior são com as araras azuis, elas estão desaparecendo, eu quero protegê-las, mas diferente das defensoras dos cães abandonados, não consegui nenhum seguidor no face.. Vc consegue algum?. Já as maritacas, essas estão precisando de um controle de natalidade urgente. Não sei como usá-lo nos telhados de Itaipava? Mas tb ninguém as protege, mas como proliferam !!!, Bem, quanto as conversas das donas de cães querendo criar um relacionamento com seus parceiros realmente é muito engraçado. Pelo que tenho observado tb não dá certo. Em geral, eles se estranham bastante. e cria aquela confusão toda nas calçadas. Não dá nem para a gente passar. Mundo estranho esse que todo mundo fala o tempo todo pelos ipods da vida mas preferem companheiros intimos que só latem. Vá entender o mundo!.

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  • 07/07/2012 em 11:43
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    É Paulo, tens toda a razão!
    Muita gente não vai gostar, A VERDADE OFENDE. Eu também fico pensativo ao ver tantos “post’s” digamos no mínimo peculiares. Acredito que a Media fez um bom trabalho, na lavagem das mentes no planeta, porque é um síndrome mundial.

    Voltaire falando sobre seu sucesso nas cortes Europeias…..

    “O segredo de aborrecer é dizer tudo.”
    (Voltaire)

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