Ressaca

Esta semana não sei se agradeço ou renego a sugestão de crônica que recebi de um amigo por quem tenho muito apreço.

Sou uma ignorante total a respeito do tema, por dois motivos: não costumo beber e quando bebo não costumo exagerar, mas não digo que nunca aconteceu; o segundo é que tenho um sistema digestivo excelente, que me livra dos incovenientes de alguma eventual escorregadela, portanto, nunca tive uma ressaca. Mas vou escrever sobre como imagino que seja.

***

Quanto mais me debato mais me sinto preso nesse lamaçal claro. É pegajoso, e meus esforços só  fazem piorar mais a situação. Se não tivesse certeza de que estava acordado, suporia que era hora de dar aquela inalada violenta de ar para sair do pesadelo. Para completar minha agonia em branco, o barulho ensurdecedor de canhões explodindo metodicamente bem dentro de meu cérebro me trouxeram a certeza de que estava enlouquecendo.

O visgo pastoso entrava em minha boca causando náuseas, e eu pensava que os momentos que antecediam a morte deviam ser assim. Os olhos estão pregados, e o esforço que faço para abri-los aumenta ainda mais a dor nas têmporas. A cada estrondo, o estopim chega ao fim e o ribombar multiplica a dor, que se torna tão insuportável a ponto de me arrancar aos poucos dessa armadilha.

Os olhos são os primeiros a conseguir se desvencilhar, e quando consigo abri-los, só um pouquinho, a luz que antes era difusa torna-se aguda, penetrando minhas pupilas tão profundamente que me sacudo todo num estremecimento, virando num sopetão o pescoço na tentativa de fugir do clarão.

Nessa nova posição, a claridade é menos intensa; e crio coragem para fazer nova tentativa, abrindo somente um dos olhos e, mesmo assim, muito pouco e por pouco tempo. Nada piorou, e isso me encoraja nova tentativa — dessa vez abrindo um pouco mais e por mais tempo, logo abrindo o outro também.

Os pensamentos estão embaralhados e os neurônios embotados tentam se conectar, para formar uma imagem do lugar onde me encontro. Outra coisa que incomoda bastante é o cheiro fétido do lugar. Se eu tivesse forças, já estaria passando mal, mas nem isso. O lugar para onde olho não me dá nenhuma indicação.

Foco, cara! Procure o foco!

De tanto forçar, consigo ver que estou de frente para um teto branco. Giro os olhos e consigo ver também uma parede que reflete a luz do sol, e isso me obriga a voltar meu olhar para o teto. O estrondo continua, agora mais inteligível, estou começando a me situar e chego a uma conclusão:

É ressaca. Esse barulho só pode ser ressaca do mar.

Porque será que pensei isso? As ressacas nunca me causaram tanta dor de cabeça, pelo menos as do mar, e uma ideia começou a se formar.

É capaz de a minha situação não ser tão desesperadora.

Movo devagar a cabeça à custa de muito sofrimento, e começo a perceber onde estou. Não é nenhum lugar que eu conheça, mas dá para ver que é uma sala e que me encontro deitado no chão e sem camisa.

Será que estou vestindo alguma coisa?

Tento mover a mão direita, mas estou deitado sobre ela, então faço nova tentativa com a esquerda, que encontra o tecido grosso de brim de minhas calças. Isso já é um alívio. Continuo movendo a mão, que sente o carpete sobre o qual me encontro. A mão passa também por algo escorregadio e pastoso e faz exalar o mau cheiro. Viro com mais facilidade a cabeça para o outro lado, para escapar da pestilência. Esse novo ângulo me permite uma visão mais geral do cômodo. Caos total, uma desordem desoladora. Eu, apesar de não ser muito organizado, detesto desarrumação.

Preciso sair daqui.

Giro o corpo para soltar a mão presa e a apoio para me levantar. Quando o faço, sinto a nuca latejando, mas não esmoreço até ficar sentado. E assim permaneço por mais uns instantes até levantar e me sentar num sofá malcheiroso. Vejo meus dois amigos na mesma situação. Vou até a janela. De lá, posso ver o mar altivo, mostrando toda a sua força explodindo contra as pedras e penso: Ainda estou vivo!

***

Mãe e filha estão no ponto de ônibus, checando a lista das compras que teriam que fazer ainda esta manhã. Haviam levantado cedo, ainda estava escuro; passaram um café forte para dar ânimo. A moça, nesse instante, olha pra frente e tem uma visão  de um carro desgovernado, dirigindo-se célere e em alta velocidade em sua direção. Ainda solta um grito antes do impacto.

— Que foi, filha?

— Nada mãe. Só um mal pressentimento, que não aconteceu.

***

Escuto meu amigo chamando:

— Cara. Cê tava endiabrado esta noite. Brigou com todo mundo e escondeu a chave do carro, obrigando a gente a dormir nessa espelunca.

— Tudo bem, cara. Tá todo mundo vivo.

 

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

4 comentários em “Ressaca

  • 12/11/2011 em 12:09
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    Vishi Amiga, esse porre ai foi forte, maior do que os que eu ja tive de fato, so pela cronica acho que voce vai se manter sobria pelo resto da vida.
    Diante do fato acho que valeu a sugestão.
    Bjs e parabems

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  • 10/11/2011 em 17:52
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    Meu… que texto legal! Muuuuiito bom mesmo. A gente se envolve na angústia crescente… e se “salva” no final… mas não muito… porque fica pairando nessa espécie de névoa entre o que foi e o que poderia ser… putz… valeu… beijos sempre orgulhosos da cris cris
    P.S. Emocionei com a menção a Anamaria no “Ré confessa”… Ô saudades!

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  • 06/11/2011 em 19:23
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    Pra quem nunca teve uma ressaca, a sua está bem real. Que porre, heim? Muito boa, bem escrita, rica em detalhes do mal estar e com final pra pensar. Bjs

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  • 05/11/2011 em 11:27
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    Olá Priscila
    Já tomei alguns porres. Não tão fortes como o descrito por você!
    Tenho um amigo que diz que de tempos em tempos deviamos tomar um porre para reacomodar os problemas, ou melhor a ordem dos problemas! Depois de um porre as prioridades de assentam de forma diferente.
    Claro que não se pode tomar um porre e sair dirigindo! Matando gente como vem acontecendo.
    Mesmo sem ter tomado um porre, você os descreve muito bem!

    beijo grande

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